
Quando Fábio Seixas fundou a empresa que hoje se chama Softo, em 2013, seu objetivo era voltar às raízes. Empreendedor da área de tecnologia desde os anos 90, ele havia passado uma década à frente da Camiseteria, um dos pioneiros do e-commerce brasileiro, e queria mergulhar de volta no universo da tecnologia depois dessa experiência com varejo. A empresa nasceu como Jack Sistemas, virou software house ao longo do caminho e ganhou o nome atual em 2019, quando passou por um rebranding e lançou o modelo DevTeam as a Service. Com o avanço da inteligência artificial, a empresa ajustou a rota novamente.
Hoje, a Softo se posiciona como uma empresa de soluções de IA aplicada. Com cerca de 60 profissionais espalhados pelo Brasil, e sem nunca ter levantado capital externo, a companhia atende hoje a clientes como iFood, Stone, Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo é ajudar organizações a identificar oportunidades de uso da inteligência artificial, planejar soluções e colocá-las em prática. O portfólio vai desde modelos de machine learning para análise preditiva até agentes autônomos capazes de executar processos inteiros nas áreas de marketing, financeiro, RH e operações.
Mas a mudança mais radical dos últimos tempos não está no que a Softo entrega. Está em como ela cobra.
Por décadas, o modelo dominante na indústria de desenvolvimento de software foi a cobrança por hora ou por tempo de desenvolvimento do projeto, o que começa a deixar de fazer sentido com o aumento de produtividade trazido pela IA.
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“O negócio que você fazia em um mês, você faz em dois dias. Qual é o modelo econômico que sustenta essa relação comercial?”, questiona Fábio.
A resposta que a Softo encontrou foi migrar para um modelo baseado em outcomes, ou a cobrança por resultados. Em vez de um contrato atrelado ao tempo investido, o cliente faz um investimento inicial menor e paga uma remuneração complementar caso a solução implementada mova de fato os ponteiros do negócio: mais faturamento, menos custo, melhor conversão de vendas.
“Fica muito mais fácil e muito mais justo para o cliente. Ao invés de fazer um investimento grande com resultado incerto, ele investe menos e a remuneração extra só vem se o resultado vier”, explica o fundador.
A Softo implementou a mudança há pouco mais de um mês e já relata engajamento maior por parte dos clientes e alguns contratos fechados no novo formato. Para a Softo, o ganho não está necessariamente em cobrar mais, mas em conseguir atender mais clientes com o mesmo time, já que a IA reduziu drasticamente o tempo de desenvolvimento. A meta para este ano é crescer entre 30% e 40%.
“O custo por funcionalidade entregue cai em uma ordem de dez vezes. O benefício maior é para o cliente, no final das contas”, diz Fábio. “É óbvio que a gente, de alguma forma, aproveita parte desse valor gerado. Isso acaba se refletindo em margem. Mas a maior parte do valor é repassado por cliente. É ele que vai ter o projeto mais rápido, é ele que vai gastar menos dinheiro”.
Entre os segmentos atendidos pela Softo estão, principalmente, fintechs e empresas de saúde, sem se restringir a esses segmentos. A ideia é ajudar as companhias a otimizar processos com a IA, usando tanto provedores disponíveis no mercado, quanto treinar modelos open source para as especificidades da empresa.
Por exemplo, a Softo desenvolveu para uma empresa de resseguros uma solução que analisa contratos automaticamente, compara cláusulas com um modelo padrão da companhia e alerta os analistas jurídicos sobre divergências relevantes. O que antes exigia horas de leitura humana passou a ser feito de forma automática, com mais precisão e menor risco de erros.
O que a IA mudou
Para entender o novo modelo de cobrança, é preciso entender o que a inteligência artificial fez com o desenvolvimento de software. Na visão de Fábio, a IA resolveu justamente a etapa mais cara e escassa do processo: escrever código.
“Você pegou a etapa mais crítica do processo e resolveu com IA”, resume. “Antes, você fazia 100% de uma tarefa manualmente. Hoje, a IA faz 90% e você ajusta os 10% restantes.”
Fábio aponta o Claude Code, ferramenta da Anthropic lançada no início de 2025, como um divisor de águas para o setor. Para ele, o ponto de inflexão veio com o lançamento do modelo Opus, em novembro de 2025. “Em quatro meses, fomos de uma situação para outra completamente diferente.”
E os empregos?
A pergunta inevitável sobre IA e mercado de trabalho encontra uma resposta otimista. Na visão de Fábio, se algo ficou mais barato, mais gente vai querer usar, não menos, o que gera uma demanda maior por profissionais.
“Empresas como a Anthropic estão aumentando as contratações e pagando 400 mil dólares por ano para desenvolvedores. O mercado de vagas voltou a crescer”, afirma, citando dados de plataformas como o Indeed.
A ressalva fica para os profissionais menos experientes, que podem enfrentar mais concorrência em um mercado que tende a priorizar os melhores. No cenário mais amplo, Fábio acredita que a IA vai expandir o universo de problemas que a humanidade consegue resolver, como modelos preditivos para crises climáticas, por exemplo.
Para Fábio, a IA também derrubou barreiras de entrada ao empreendedorismo no Brasil, permitindo que mais pessoas consigam tirar suas ideias do papel. “O que não significa que empreender ficou mais fácil, porque você também tem mais concorrência”, pondera.
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