A Stellantis trocará motores com correia banhada a óleo pelos Firefly, com corrente, em uma decisão global para recuperar a imagem de confiabilidade do grupo. A medida, impulsionada pela nova gestão de Antonio Filosa (ex-COO da Stellantis América do Sul), marca o fim da preferência pelos propulsores franceses PureTech, que sofreram com severas críticas devido à degradação prematura da correia do sistema de distribuição.
Os motores PureTech, de origem PSA (Peugeot-Citroën), utilizam uma correia dentada imersa em óleo. Com o tempo e o uso, o material da correia se desintegra, contaminando o lubrificante e obstruindo a bomba de óleo, o que pode levar à falha catastrófica do motor. A Stellantis chegou a abandonar o nome PureTech por isso, mas os motores seguem em uso atualizados.
Para estancar a crise de reputação na Europa, a ordem agora é apostar na família Firefly, de origem Fiat, que utiliza corrente metálica de distribuição e dispensa esse tipo de manutenção de risco. Sua corrente de comando dura tanto quanto o motor.
Essa movimentação valida a estratégia adotada no mercado brasileiro. Por aqui, a Stellantis blindou suas marcas dos problemas do 1.2 PureTech (o único a usar esse motor foi o antigo Peugeot 208) e massificou o uso dos Firefly. Fabricados em Betim (MG) há 10 anos, eles equipam desde o Fiat Mobi até o Citroën Aircross, e herdaram a confiabilidade dos antigos motores Fire.
A família Firefly brasileira é composta pelos blocos 1.0 de três cilindros (até 75 cv) e 1.3 de quatro cilindros (até 107 cv). Eles serviram de base para os modernos motores GSE Turbo: o T200 (1.0 turbo de 130 cv e 20,4 kgfm), presente em modelos como Fiat Pulse, Fastback e Peugeot 208, e o T270 (1.3 turbo de 185 cv e 27,5 kgfm), que equipa a Fiat Toro e os Jeep Compass, Renegade e Commander.
E são justamente os motores GSE Turbo os que mais interessam aos europeus. Por lá. Fiat Pandina e o novo 500 Hybrid utilizam o motor 1.0 6V Firefly. Já o Alfa Romeo Tonale faz uso dos motores 1.3 e 1.5 GSE Turbo, mesmo em versões híbridas plug-in.

Recentemente, Emanuele Cappellano, CEO da Stellantis Europa, teria anunciado em encontro com o Ministério dos Negócios e do Made in Italy que “investirá no futuro dos motores GSE para garantir sua utilização além de 2030”. Além de limpar a barra da empresa junto aos clientes, também sinaliza a continuidade da produção de motores na fábrica italiana de Termoli.
A engenharia da Stellantis trabalha agora para adaptar esses motores às rígidas normas de emissões Euro 7. O plano inclui a aplicação de sistemas híbridos leves (MHEV) de 48 volts e o desenvolvimento de uma nova transmissão automatizada de dupla embreagem eletrificada para substituir caixas antigas.

Internamente, o foco sai da fábrica francesa de Douvrin e se volta para a planta italiana de Termoli, onde os Firefly são produzidos. A confiabilidade comprovada dos motores italianos e brasileiros tornou-se o principal argumento para essa mudança de rota industrial.
Essa reconfiguração técnica encerra um capítulo turbulento da era Carlos Tavares, que priorizava os projetos franceses, legados dos tempos da PSA.
Com a ascensão dos motores Firefly, a Stellantis admite, na prática, que a solução para seus problemas de motorização estava disponível o tempo todo nas prateleiras da Fiat e nas ruas brasileiras.
