
Os Estados Unidos entraram em uma fase de vulnerabilidade militar após a campanha de bombardeios e de uso de defesa aérea contra o Irã. O alerta é do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), que aponta o esgotamento de estoques de munições-chave e a preocupação com um eventual conflito no Pacífico Ocidental, mesmo considerando que Washington ainda tenha armamento suficiente para qualquer cenário plausível na guerra com Teerã.
Segundo o think tank, a ofensiva contra o Irã e seus aliados, somada ao envio de interceptadores Patriot para a Ucrânia, acelerou o consumo de mísseis estratégicos americanos.
Embora os Estados Unidos estejam reabastecendo seus arsenais, o tempo necessário para reconstruir os estoques até os níveis anteriores à guerra tornou-se o principal fator de risco – mais até do que o volume de recursos disponíveis.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, admitiu recentemente que levará “meses e anos, dependendo do sistema de armas” para recompor o estoque as munições. A análise do CSIS confirma esse diagnóstico ao detalhar, munição por munição, os prazos projetados para voltar aos níveis pré‑guerra.
Em vários casos, a recomposição completa se estende para além de 2028 e 2029, num contexto em que a atenção estratégica de Washington se volta também para o Pacífico Ocidental e para a China.
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Arsenal próprio e de aliados
Entre os sistemas mais pressionados estão os mísseis de ataque terrestre Tomahawk (TLAM), o sistema de defesa em alta altitude THAAD e os interceptores Patriot. Amplamente utilizados na guerra com o Irã, esses três pilares da capacidade ofensiva e defensiva dos EUA devem levar três anos ou mais, a partir de agora, para retornar aos estoques anteriores ao conflito.
Já os mísseis Standard SM-3 e SM-6, embarcados em navios, têm prazos de cerca de dois anos, enquanto o JASSM e o PrSM, utilizados em menor escala relativa ou com produção recente, demandam de alguns meses a até um ano para reposição.
A situação se complica porque Washington precisa conciliar a reposição de seus próprios arsenais com a entrega de armamentos a aliados e parceiros. O CSIS relata que decisões sobre a prioridade de distribuição da produção já geraram atritos bilaterais e que essa tensão deve persistir nos próximos anos, na medida em que a demanda supera a capacidade industrial.
Em alguns casos, o Departamento de Defesa reprogramou cronogramas de entrega para privilegiar o reabastecimento norte‑americano em detrimento de encomendas de países aliados.
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Questão não é dinheiro: é o tempo
O governo Trump, segundo o estudo, reconheceu a urgência e ampliou significativamente a alocação de recursos para munições no orçamento de defesa de US$ 1,5 trilhão para o ano fiscal de 2027.
Além de prever um suplemento de guerra específico para repor o que foi gasto na Operação Epic Fury e elevar os estoques acima dos níveis pré‑guerra, a administração assinou acordos‑quadro com a indústria para expandir a capacidade de produção, o que pode acelerar as entregas nos próximos cinco a sete anos.
Apesar desse reforço orçamentário, o CSIS ressalta que “o problema hoje não é dinheiro; é tempo”. A expansão da capacidade industrial e a fabricação de sistemas de alta complexidade não ocorrem de forma imediata. Até que os estoques retornem aos patamares anteriores e alcancem os níveis considerados ideais pelos planejadores de guerra, haverá um período de vulnerabilidade que exigirá planos específicos do Pentágono para mitigar riscos e, quando possível, substituir determinados armamentos por alternativas com outros custos e limitações.
O estudo detalha que, para vários sistemas, a produção já opera em níveis próximos à capacidade máxima, mas que ainda assim há gargalos, inclusive na cadeia de suprimentos e no escalonamento de entregas a aliados. As estimativas do CSIS, baseadas em dados públicos do orçamento do Departamento de Defesa, consideram variáveis como taxa de produção, prazos administrativos até a assinatura de contratos, tempo de fabricação e cronogramas de entrega de cada lote.
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Pacífico Ocidental
Na avaliação dos autores, o quadro no Pacífico Ocidental não é inteiramente negativo, apesar da janela de vulnerabilidade. O texto lembra que a guerra com o Irã e outras operações recentes, como contra a Venezuela e os Houthis (no Iêmen), tornaram visível a capacidade operacional das forças norte‑americanas.
Já a China, enfatizam os pesquisadores, não tem experiência recente em combate e teve desempenho considerado fraco em sua última guerra, contra o Vietnã em 1979 — um contraste que, segundo o estudo, pode ajudar a preservar a dissuasão até que os estoques de munições dos Estados Unidos sejam restabelecidos.
O artigo do CSIS destaca ainda que a ampliação dos estoques começou no governo Biden e foi intensificada na gestão Trump, com apoio bipartidário no Congresso. Para os autores, a combinação de consenso político interno, expansão gradual da capacidade industrial e manutenção da credibilidade militar dos Estados Unidos será decisiva para atravessar o período em que os arsenais ainda estarão abaixo dos níveis desejados.
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