PARIS – Desde o fim do século XIX, a Torre Eiffel carrega em sua estrutura uma homenagem a 72 cientistas e engenheiros que simbolizavam, à época, o avanço do conhecimento e da técnica.
Sophie Germain, matemática cujos estudos foram decisivos para a resistência estrutural da própria torre, uma das obras de engenharia mais emblemáticas do mundo moderno, não está entre os nomes lembrados na homenagem. Nem ela, e nem nenhuma outra mulher, já que a lista contempla apenas homens. Não por outro motivo Germain passou a ser lembrada como a “esquecida da Torre”.
Na busca por reparar o erro histórico, a prefeitura de Paris e a Sociedade de Exploração da Torre Eiffel confirmaram a criação de uma nova frise no monumento para homenagear 72 mulheres cientistas de grande relevância, algumas delas com estudos que culminariam na criação da Inteligência Artificial.
A iniciativa foi validada por uma comissão de especialistas e tem como objetivo estabelecer uma equivalência simbólica com a homenagem original idealizada por Gustave Eiffel, que contemplou exclusivamente nomes masculinos ligados ao progresso científico e tecnológico.
A seleção das homenageadas seguiu critérios técnicos voltados ao equilíbrio entre seis grandes áreas do conhecimento: física, química, matemática e informática, ciências da Terra, biologia e medicina, além da engenharia. A proposta também busca enfrentar o chamado efeito Matilda, termo utilizado para descrever a minimização histórica das contribuições femininas no ambiente acadêmico e científico.

Destaques da lista e conexão com o Brasil
Entre os nomes escolhidos está Marie Curie, única pessoa a receber dois prêmios Nobel em áreas científicas diferentes e primeira mulher a ingressar no Panteão francês, em 1995.
O projeto também destaca pioneiras da computação e da inteligência artificial, como Alice Recoque e Rose Dieng, com a intenção de oferecer referências profissionais às futuras gerações.
A relação com o Brasil aparece no nome de Georgette Délibrias, física pioneira na utilização do carbono 14 na França. Suas pesquisas foram fundamentais para a arqueologia sul-americana ao datar a presença de hominídeos no Brasil em 32.000 anos antes da nossa era, alterando de forma significativa estimativas anteriores, que indicavam cerca de 13.000 anos. Délibrias também colaborou para a criação de laboratórios de datação por carbono 14 em diferentes países, incluindo o Brasil.
Novo olhar sobre ciência e patrimônio
A instalação da nova frise está prevista para ocorrer até 2026 e deverá respeitar normas rigorosas de preservação do patrimônio histórico da Torre Eiffel.
Segundo Jean-François Martins, presidente da sociedade que administra o monumento, a Torre Eiffel deve reafirmar seu papel como símbolo do saber e do progresso humano, o que exige uma representação mais justa das pesquisadoras que contribuíram para a inovação científica ao longo da história

Confira quem são as 72 cientistas selecionadas para a frise da Torre Eiffel:
- Denise Albe-Fessard: Neurofisiologista pioneira no registro da atividade do sistema nervoso, desde peixes elétricos até o cérebro de mamíferos.
- Yvette Amice: Aritmeticista que fundou a Escola Francesa de análise p-ádica, com impacto na teoria dos números e criptografia.
- Jeanne Baret: Botânica e exploradora, foi a primeira mulher a dar a volta ao mundo, disfarçada de homem em uma expedição científica.
- Denise Barthomeuf: Química especialista em catálise e materiais microporosos (zeólitas) com vasta expertise industrial e internacional.
- Madeleine Brès: Foi a primeira mulher francesa a obter o título de doutora em medicina, especializando-se em pediatria e puericultura.
- Yvonne Choquet-Bruhat: Física e matemática cujos trabalhos pioneiros sobre a relatividade geral demonstraram a realidade das ondas gravitacionais.
- Simonne Caillère: Geóloga e mineralogista especialista em argilas que participou da conservação de importantes coleções científicas.
- Yvette Cauchois: Física pioneira na espectroscopia de raios X que inventou um espectrômetro de cristal curvo com diversas aplicações.
- Edmée Chandon: Foi a primeira astrônoma profissional francesa, trabalhando no Observatório de Paris e calculando trajetórias de artilharia na guerra.
- Marthe Condat: Médica pediatra e professora que garantiu o funcionamento de serviços hospitalares essenciais durante a Primeira Guerra Mundial.
- Anita Conti: Primeira oceanógrafa francesa, foi pioneira na denúncia da sobre-exploração dos oceanos e na cartografia dos fundos marinhos.
- Eugénie Cotton: Física especialista em magnetismo que dirigiu a ENSJF e foi uma proeminente ativista antifascista e pelos direitos das mulheres.
- Radhia Cousot: Cientista da computação que inventou o conceito de interpretação abstraia, fundamental para garantir a confiabilidade de softwares.
- Odile Croissant: Biofísica especialista em microscopia eletrônica que foi uma das primeiras a detectar o vínculo entre papilomavírus e câncer.
- Marie Curie: Física e química, é a única pessoa a ganhar dois prêmios Nobel em áreas diferentes por suas descobertas sobre a radioatividade.
- Augusta Déjerine: Primeira mulher interna dos hospitais de Paris, tornou-se uma neuroanatomista e neurologista de renome mundial.
- Henriette Delamarre: Naturalista e paleontóloga cujas descobertas de fósseis apoiaram a teoria da evolução e o avanço da geologia moderna.
- Georgette Délibrias: Física pioneira na datação por carbono-14 na França, responsável por datar a presença humana antiga no Brasil.
- Nathalie Demassieux: Química que realizou pesquisas sobre equilíbrios químicos de sais e desenvolveu patentes industriais durante a Segunda Guerra Mundial.
- Rose Dieng: Cientista da computação senegalesa pioneira em inteligência artificial e no desenvolvimento da chamada “Web Semântica”.
- Angélique du Coudray: Obstetriz que inventou um manequim de parto para treinar milhares de parteiras e reduzir drasticamente a mortalidade infantil.
- Louise Du Pierry: Astrônoma que estabeleceu tabelas astronômicas complexas e foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne.
- Henriette Mathieu-Faraggi: Física nuclear que introduziu técnicas autorradiográficas e liderou a construção de um grande acelerador de íons na França.
- Jacqueline Ferrand: Matemática cujos trabalhos tiveram influência considerável na análise complexa e na geometria riemanniana.
- Jacqueline Ficini: Química orgânica pioneira na química de ynamines e figura central na integração de mulheres no meio científico.
- Rosalind Franklin: Físico-química cujas radiografias de raios X foram determinantes para a descoberta da estrutura em dupla hélice do DNA.
- Marthe Gautier: Médica bióloga que demonstrou a causa cromossômica da síndrome de Down, tornando-se símbolo da luta contra o efeito Matilda.
- Sophie Germain: Matemática autodidata cujas pesquisas sobre a elasticidade dos metais foram fundamentais para a própria construção da torre.
- Jeanne Guiot: Engenheira especialista em aços especiais para a Marinha e a primeira mulher admitida na Sociedade de Engenheiros Civis.
- Geneviève Guitel: Matemática que definiu as escalas de nomes para grandes números e realizou uma história comparada das numerações.
- Sébastienne Guyot: Engenheira aeronáutica e piloto que participou da concepção de helicópteros e foi membro da Resistência Francesa.
- Claudine Hermann: Física especialista em semicondutores, foi a primeira professora na École Polytechnique e cofundadora da associação Femmes & Sciences.
- Andrée Hoppilliard: Engenheira aeronáutica diplomada pela EPF que contribuiu para o desenvolvimento da aviação leve francesa no entreguerras.
- Marie-Louise Dubreil-Jacotin: Primeira matemática a tornar-se professora universitária na França, com contribuições importantes em álgebra e mecânica.
- Irène Joliot-Curie: Química laureada com o Nobel pela descoberta da radioatividade artificial e uma das primeiras mulheres em um governo francês.
- Geneviève Jourdain: Engenheira pioneira no processamento de sinais com aplicações fundamentais em comunicações submarinas e oceanografia.
- Dorothéa Klumpke: Astrônoma que dirigiu o Bureau de medições do Observatório de Paris e publicou catálogos fundamentais de nebulosas.
- Lydie Koch: Física especialista em radiações cósmicas que liderou projetos pioneiros de detecção em balões estratosféricos e satélites.
- Colette Kreder: Engenheira que dirigiu a EPF e foi uma militante fundamental pela paridade e promoção de mulheres na engenharia.
- Nicole Laroche: Engenheira que foi a primeira mulher a ingressar na ENSAM, contribuindo para a feminização da indústria ferroviária.
- Cornélie Lebon-de Brambilla: Engenheira que participou ativamente do desenvolvimento e promoção do revolucionário sistema de iluminação urbana a gás.
- Yolande Le Calvez: Geóloga e paleontóloga que dedicou sua carreira ao estudo de foraminíferos fósseis como indicadores de ecossistemas oceânicos.
- Paulette Libermann: Matemática pioneira em geometria simplética cujas contribuições foram essenciais para o avanço da mecânica clássica.
- Marianne Grunberg-Manago: Bioquímica que descobriu uma enzima crucial para a pesquisa da hereditariedade e presidiu a Academia de Ciências.
- Nicole Mangin: Foi a única mulher médica a servir no exército francês durante a Primeira Guerra Mundial, atuando diretamente no fronte.
- Cécile Morette: Física teórica que fundou a Escola de Física de Les Houches e realizou trabalhos fundamentais em física quântica.
- Edith Mourier: Matemática que desenvolveu trabalhos fundamentais em cálculo de probabilidades e espaços de Banach.
- Ethel Moustacchi: Bioquímica e figura emblemática na pesquisa de radiobiologia, com foco nos mecanismos de reparo do DNA.
- Suzanne Noël: Cirurgiã pioneira na medicina estética e reparadora, famosa por tratar soldados feridos na Primeira Guerra Mundial.
- Yvonne Odic: Engenheira mecânica especialista em aços especiais que trabalhou em indústrias de guerra e na metalurgia de ponta.
- Isabelle Olivieri: Engenheira agrônoma e bióloga evolutiva reconhecida por seus modelos matemáticos sobre genética de populações.
- Marie-Louise Paris: Engenheira que fundou o Instituto Eletromecânico Feminino para abrir as carreiras industriais às mulheres.
- Marguerite Perey: Radioquímica que descobriu o elemento químico frâncio e foi a primeira mulher eleita para a Academia de Ciências da França.
- Claudine Picardet: Química e tradutora que difundiu o conhecimento científico europeu ao traduzir mais de mil páginas de obras fundamentais.
- Alberte Pullman: Química teórica e pioneira da bioquímica quântica, aplicando a disciplina ao estudo de moléculas cancerígenas.
- Pauline Ramart: Química orgânica e a segunda mulher professora na Sorbonne, que também militou ativamente pelo voto feminino.
- Lucie Randoin: Bióloga e nutricionista que foi pioneira no estudo das vitaminas e na fundamentação da dietética moderna.
- Alice Recoque: Engenheira de computação especialista em arquitetura de computadores e precursora nos debates sobre proteção de dados.
- Michelle Schatzman: Matemática especialista em equações diferenciais aplicadas à mecânica, eletromagnetismo e materiais supraconductores.
- Anne-Marcelle Schrameck: Foi a primeira mulher engenheira diplomada por uma grande escola na França (Minas de Saint-Étienne).
- Marie-Hélène Schwartz: Matemática que realizou descobertas novadoras em geometria algébrica, definindo objetos que hoje levam seu nome.
- Josiane Serre: Química pioneira na química quântica teórica e diretora da ENSJF, onde impulsionou carreiras femininas no ensino superior.
- Alice Sollier: Médica psiquiatra e neurologista, foi a primeira mulher de minorias a tornar-se doutora em medicina na França.
- Hélène Sparrow: Bacteriologista e médica que desenvolveu vacinas contra o tifo e foi referência internacional em epidemiologia.
- Bianca Tchoubar: Química pioneira na aplicação de conceitos modernos de ressonância à compreensão das reações orgânicas.
- Marie-Antoinette Tonnelat: Física teórica especialista em relatividade que buscou unificar a gravidade e o eletromagnetismo em seus estudos.
- Thérèse Tréfouël: Química que codescobriu as propriedades terapêuticas das sulfamidas, permitindo a criação de novos antibióticos.
- Agnès Ullmann: Bióloga molecular que participou do florescimento da área com pesquisas cruciais sobre regulação genética e vacinas.
- Arlette Vassy: Geofísica pioneira no estudo da camada de ozônio e figura central no início da pesquisa espacial francesa.
- Suzanne Veil: Engenheira química que realizou pesquisas em físico-química de óxidos metálicos e aplicações radiológicas industriais.
- Jeanne Villepreux: Naturalista autodidata considerada a “mãe da aquariologia” por inventar o aquário para estudar a vida marinha.
- Toshiko Yuasa: Primeira física nuclear japonesa, realizou pesquisas fundamentais sobre radioatividade no CNRS e serviu de modelo para cientistas.
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