
O presidente dos EUA, Donald Trump, usou seu discurso do State of the Union (Estado da União) na noite de terça-feira (24) para pressionar o Congresso a avançar com uma proposta travada que, segundo ele, enfrenta fraudes eleitorais generalizadas — alegações repetidas diversas vezes por Trump e já desmentidas reiteradamente.
Diante de parlamentares e de uma audiência de milhões de americanos, Trump pediu diretamente a aprovação do projeto conhecido como Lei Salve a América. A proposta exige que cidadãos apresentem prova de cidadania ao se registrar para votar, cria uma exigência nacional de documento com foto para votar e concede ao Departamento de Segurança Interna acesso aos cadastros eleitorais dos estados.
Ao defender a medida, Trump voltou a afirmar, sem provas, que as eleições nos EUA estão repletas de fraudes e acusou democratas de manipularem pleitos para impor uma agenda rejeitada pelos eleitores.
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“Eles querem trapacear”, disse Trump sobre os democratas, reforçando um discurso que vem se consolidando como eixo central de sua mensagem para as eleições de meio de mandato. “Eles trapacearam. E a política deles é tão ruim que a única forma de vencer é trapaceando.”
Embora essas alegações sejam recorrentes, Trump e conservadores alinhados ao movimento MAGA intensificaram no último mês a pressão para que republicanos no Congresso aprovem uma lei nacional mais rígida de identificação de eleitores antes das eleições.
Diante do risco de perdas relevantes no pleito, republicanos buscam aprovar as restrições ao voto ou, alternativamente, usar os próximos meses para acusar democratas de se oporem às medidas, lançando dúvidas sobre o resultado caso a oposição vença.
No discurso, Trump também defendeu o fim do voto pelo correio, “exceto em caso de doença, deficiência, serviço militar ou viagem”.
O SAVE America Act, aprovado pela Câmara neste mês quase integralmente em votação partidária, não inclui essas limitações. O projeto está parado no Senado, onde a oposição democrata praticamente unânime impede que a proposta supere o limite de 60 votos necessário para encerrar a obstrução regimental.
Com apoio de aliados de alto perfil, como o bilionário Elon Musk e a rapper Nicki Minaj, Trump e um grupo de conservadores pressionam o líder da maioria no Senado, John Thune, a levar o embate ao plenário. A estratégia é forçar a votação apesar da resistência democrata ou, ao menos, dedicar tempo relevante para defender publicamente a proposta.
“Precisamos parar isso, John”, disse Trump, referindo-se a Thune. Segundo ele, a medida deveria ser apreciada “antes de qualquer outra coisa”.
Trump e o grupo conservador que apoia o projeto passaram a defender recentemente o chamado “talking filibuster”, modelo em que opositores precisam ocupar continuamente a tribuna para impedir a aprovação de uma proposta.
“Teremos o Save America Act, de uma forma ou de outra, após aprovação pelo Congresso por meio do uso adequado do filibuster ou, no mínimo, por meio de um talking filibuster”, escreveu Trump em rede social na semana passada.
Thune afirmou que considera alternativas para levar o projeto ao plenário e disse que os republicanos discutirão a possibilidade de recorrer ao modelo tradicional de obstrução, que não é exigido no Senado há anos.
O senador, porém, tem alertado que essa estratégia pode comprometer a tramitação de outras propostas em um ano no qual republicanos buscam demonstrar compromisso com temas como custo de vida.
Trump, que já demonstrou desprezo por normas e regras do Senado, minimizou essas preocupações. Aliados republicanos passaram a argumentar abertamente que manter o controle do Congresso nas eleições de novembro depende da aprovação do projeto.
Democratas classificam a proposta como excessivamente restritiva e afirmam que ela pode privar milhões de pessoas do direito de voto por falta de documentação adequada, além de desestimular outros eleitores. Parlamentares citam especialmente mulheres cujas certidões de nascimento ou passaportes não refletem seus nomes de casadas, argumentando que as exigências seriam excessivamente onerosas. Também apontam possíveis impactos sobre imigrantes legais e trabalhadores com acesso limitado a documentos.
O deputado Joseph D. Morelle acusou Trump de mentir sobre a segurança eleitoral para minar a integridade das eleições de meio de mandato. “Essas mentiras são uma tentativa desesperada de manipular as eleições e se manter no poder”, afirmou.
Trump nunca abandonou suas alegações infundadas de fraude eleitoral em larga escala, discurso que ajudou a alimentar a invasão violenta do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 por apoiadores que tentavam reverter sua derrota na eleição presidencial anterior.
O presidente retomou essas afirmações antes das eleições de novembro, em meio a pesquisas que indicam desaprovação à sua liderança e risco para republicanos em disputas decisivas. Ele tem concentrado ataques na acusação, sem provas, de que imigrantes em situação irregular estariam buscando votar em democratas.
Mesmo após repetidos desmentidos, Trump segue afirmando que há votação ilegal em larga escala. Durante a campanha de 2024, ao explorar temores sobre imigração, acusou sem evidências democratas de incentivarem a entrada ilegal de imigrantes para transformá-los em eleitores.
Republicanos na Câmara, alinhados ao presidente, abraçaram a pauta. No ano passado, aprovaram o SAVE Act, versão mais restrita que exigia apenas prova de cidadania no registro eleitoral. Neste ano, após avançarem com a proposta mais ampla, também articulam um segundo projeto que proíbe o envio universal de cédulas pelo correio e veta a contagem de votos após o Dia da Eleição.
c.2026 The New York Times Company
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