
Uma nova pesquisa indica que cientistas que estudam a elevação do nível do mar vêm usando métodos que subestimam o quão alta a água já está hoje. Na prática, isso significa que centenas de milhões de pessoas a mais, em todo o mundo, já vivem perigosamente perto do oceano em elevação do que pesquisadores ocidentais estimavam.
O estudo, publicado na quarta-feira na revista Nature, concluiu que a grande maioria dos trabalhos científicos comete esse erro de base. Em média, os níveis do mar em áreas costeiras estão de 20 a 30 centímetros acima do que muitos mapas e modelos das costas do planeta mostram.
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Em algumas regiões, a diferença é muito maior — especialmente no Sudeste Asiático e em países-ilhas do Pacífico, onde a dinâmica do oceano é mais complexa. Nesses lugares, o nível do mar na costa pode estar vários metros acima das estimativas mais usadas.
Isso não quer dizer que esses estudos estejam errados nas conclusões gerais sobre a velocidade da elevação do mar ou sobre os impactos previstos. O nível do mar nas áreas costeiras está subindo com o aquecimento global — isso continua valendo. O ponto é outro: muitos cientistas vêm partindo de um “ponto zero” errado ao calcular quais áreas e populações serão afetadas no futuro.
Em bom português: eles vinham subestimando onde já está hoje o nível do mar na costa.
Esse detalhe faz muita diferença num momento em que governos e formuladores de políticas públicas recorrem à ciência para saber quanta área de terra — e quantas pessoas — podem ser impactadas pelo avanço do oceano, explica Katharina Seeger, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Pádua, que liderou o estudo enquanto fazia doutorado na Universidade de Colônia. “Eu não esperava que a discrepância fosse tão grande”, disse ela.
Pode parecer estranho falar em erro de mapa numa época em que GPS e imagens de satélite fazem parte da rotina. Mas o novo trabalho aponta um problema amplo no método que pesquisadores costumam usar para entender o desenho das costas e como elas podem mudar num clima mais quente.
Os autores revisaram 385 artigos científicos publicados em revistas com revisão por pares e descobriram que menos de 1% acertou de fato onde o nível do mar está hoje. O problema começa em um método, já antigo, que compara medições de altitude do terreno feitas por satélite com um “modelo de geoide” — uma forma de estimar o nível médio do mar a partir do campo gravitacional da Terra.
Esse método já foi referência e era ensinado com frequência em cursos de pós-graduação, lembra Philip Minderhoud, autor sênior do artigo e professor associado que pesquisa subsidência do solo e elevação do nível do mar na Wageningen University & Research e no instituto holandês Deltares.
Só que hoje existem outros satélites e instrumentos capazes de medir o nível real do mar e mostrar variações locais causadas por correntes, ventos e marés — fatores que influenciam o nível da água, mas não entram no modelo baseado apenas na gravidade. A melhor estimativa do nível do mar aparece quando essas duas peças são combinadas da maneira certa.
O novo estudo mostra que, na maioria dos casos, isso não foi feito. Cerca de 90% dos trabalhos analisados por Minderhoud e Seeger usaram apenas o método baseado no campo gravitacional da Terra. Outros 9%, em geral mais recentes, até combinaram os dois tipos de dado, mas aparentemente de forma incorreta.
Para Robert Kopp, especialista em clima e nível do mar na Universidade Rutgers, em Nova Jersey, que não participou do estudo, o trabalho trata de um tema técnico que tende a ter mais impacto dentro da comunidade científica do que no dia a dia de gestores locais. “Em geral, quem sofre com alagamentos em maré alta sabe muito bem onde o mar está”, diz Kopp. Ele lembra que a ciência já vem alertando há anos que a elevação do nível do mar vai afetar muita gente — e o novo estudo não muda esse recado.
Do ponto de vista global, no entanto, os resultados sugerem que centenas de milhões de pessoas a mais — especialmente no Vietnã, nas Filipinas, na Indonésia, nas Maldivas e em outros países do Sudeste Asiático e do Pacífico — vivem muito mais perto do nível do mar do que se imaginava em boa parte da literatura produzida por especialistas e formuladores de políticas no Ocidente.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
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