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Rage rooms: ‘salas da raiva’ voltam a ser trend com aumento de estresse no trabalho

por SampaNews 13 de março de 2026
13 de março de 2026
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Em meio a um cenário de pressão crescente no mercado de trabalho, marcado por jornadas intensas, insegurança profissional e pela rápida adoção de tecnologias como a inteligência artificial (IA), vídeos de pessoas destruindo televisores, garrafas e eletrodomésticos voltaram a viralizar nas redes sociais.

As chamadas rage rooms, salas criadas para quebrar objetos de forma controlada, reapareceram como tendência em diferentes países no TikTok e no Instagram neste início de 2026, frequentemente acompanhadas de relatos de frustração com o trabalho, demissões ou cansaço emocional.

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O movimento também cresce no Brasil em um momento em que pesquisas indicam deterioração na relação dos brasileiros com o trabalho. O levantamento global Work Relationship Index 2025, da HP, aponta que apenas 29% dos profissionais do país estão na chamada “zona saudável”.

Na outra ponta, 34% se encontram na “zona crítica”, índice que cresceu 9 pontos percentuais em relação a 2024 e indica avanço do desgaste emocional. Segundo o estudo, 71% dos brasileiros dizem que as exigências das empresas aumentaram no último ano.

Fonte: Rage Room CT/Instagram

Popularizadas na internet desde 2021, as rage rooms surgiram no Japão como um espaço para liberar emoções reprimidas e passaram a aparecer em diferentes países. No Brasil, o formato ainda é raro. Em São Paulo, há apenas um espaço dedicado à atividade, a Rage Room CT, no Tatuapé.

Para o professor de marketing digital da ESPM, João Finamor, o retorno da tendência segue um padrão recorrente de conteúdos online. “Foi um ciclo que teve início na época da pandemia, por volta de 2021, e agora voltou novamente. Esse movimento é comum no ambiente digital: conteúdos tendem a ser cíclicos e acabam sendo revisitados ao longo do tempo. Como sociedade, as pessoas também resgatam aquilo com que ainda têm algum tipo de conexão”.

Segundo ele, o momento que estamos vivendo favorece esse tipo de conteúdo. “Quando a gente fala do momento atual, estamos em um período muito catártico. As pessoas estão muito estressadas e cansadas. Nesse contexto, esse tipo de conteúdo acaba funcionando também como uma forma de desestressar e gerar algum tipo de conexão”.

Pressão no trabalho aparece entre os motivos

A viralização também acompanha mudanças na relação com o trabalho. O estudo da HP aponta que 39% dos profissionais brasileiros acreditam que as empresas priorizam o lucro em detrimento das pessoas. Ao mesmo tempo, 68% gostariam de passar menos dias presencialmente no escritório, revelando insatisfação com o modelo atual.

Na capital paulista, a Rage Room CT recebe cerca de 250 pessoas por mês, entre quarta-feira e domingo. O funcionamento é simples: o visitante escolhe um pacote de destruição e paga pelos objetos que deseja quebrar durante a sessão.

O espaço oferece experiências de 30 minutos para grupos de até três pessoas e sessões de uma hora para grupos maiores. Antes da atividade, os participantes passam por um briefing com instruções de segurança e recebem equipamentos de proteção. Depois disso, entram na sala preparada para o impacto e começam a destruir os objetos escolhidos.

O perfil do público revela um recorte específico. Segundo o espaço, 98% dos frequentadores são mulheres, com idade entre 20 e 45 anos. Entre as profissões mais comuns estão trabalhadores de tecnologia, psicólogos e terapeutas, professores e profissionais de comunicação.

“A Rage Room CT surgiu como uma forma de aliviar o estresse do dia a dia, funcionando como uma espécie de válvula de escape. O espaço recebe pessoas por diferentes motivos, que vão desde questões pessoais até pressões relacionadas ao trabalho”, afirma a equipe do local.

O desenvolvedor de sistemas Lucas Lopes, de 31 anos, foi uma dessas pessoas. Ele visitou a rage room com uma amiga em um momento de pressão profissional. “Eu fui uma vez porque estava me sentindo estressado com muitas coisas, questões pessoais e, principalmente, do trabalho”, conta.

Segundo ele, a rotina na área de tecnologia pode ser desgastante. “É estressante porque, para mim, o maior problema são os bugs quase inexplicáveis que aparecem às vezes nos códigos e que eu preciso resolver. Além disso, tenho muita responsabilidade e pressão diariamente, o que, a longo prazo, acaba sendo bem desgastante”.

O avanço da IA também tem alimentado incertezas no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa Global Hopes and Fears 2025, da PwC, 61% dos brasileiros acreditam que a tecnologia afetará significativamente seus empregos nos próximos três anos. Ao mesmo tempo, o uso dessas ferramentas já faz parte da rotina de muitos profissionais.

Entre desenvolvedores de software, esse processo é ainda mais evidente. Lucas afirma que, no início, tinha dúvidas sobre como a IA afetaria sua profissão, mas passou a incorporá-la no dia a dia de trabalho. “No começo, quando ainda não sabíamos muito bem como as IAs se encaixariam na rotina de trabalho, me atrapalhava bastante. Mas, agora, com a evolução delas, eu uso pra melhorar minhas entregas”, diz.

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Fonte: Arquivo pessoal/Lucas Lopes

Destruição como forma de aliviar tensões

Para Finamor, o sucesso desses vídeos também está ligado à forma como são narrados nas redes sociais. “Todos têm storytelling. Por exemplo: depois de uma demissão, após um término de namoro. Não é simplesmente a pessoa que foi lá quebrar coisas e postar, há um contexto por trás”.

O especialista afirma que o fenômeno também tem um componente geracional. “A geração Z tem uma conexão mais forte com essa questão catártica. Mas sempre dizemos que o millennial é uma geração coringa, porque combina e hibridiza características das outras gerações”.

Entre os vídeos mais comuns estão justamente aqueles que conectam a destruição de objetos a situações emocionais intensas. “Primeiro, há aquela conexão social e cultural, que faz as pessoas se identificarem. Depois vem a questão da catarse emocional. A pessoa está quase explodindo e ver algo explodindo gera uma associação”.

Para quem participa da experiência, o efeito pode ser imediato, ainda que temporário. A ilustradora Giulia Conti, de 23 anos, visitou uma rage room na Itália, onde mora, acompanhando uma amiga. “Foi muito bom, me ajudou bastante a descarregar emoções e problemas que eu já vinha carregando há algum tempo, principalmente questões pessoais. Foi uma experiência muito boa”, afirma.

Ela ressalta que a experiência não resolve todos os problemas. “Não ajuda completamente. Não é como se eu tivesse saído de lá pensando ‘nossa, agora estou bem de novo’. Mas ajudou bastante”.

A psicóloga Marina Akemi Tanabe Duarte afirma que experiências desse tipo podem funcionar como um canal de expressão emocional. “Vejo as rage rooms como uma ferramenta para expressão de emoções, assim como outras práticas perpetuadas socialmente”.

Segundo ela, cada pessoa encontra formas próprias de lidar com sentimentos como raiva ou estresse. “Em alguns casos, ir a uma rage room e descarregar essas emoções pode funcionar, a depender da necessidade e da intensidade do que a pessoa está sentindo”.

A predominância feminina nesses espaços também pode ter explicações sociais. Para a psicóloga, homens historicamente tiveram mais permissividade cultural para expressar agressividade em público, enquanto mulheres são frequentemente pressionadas a reprimir esse tipo de reação.

“A mulher, desde que o homem é homem, quando expressa seus sentimentos de maneira ‘inadequada’ aos padrões impostos, é taxada de histérica, emocionalmente desregulada e louca”, afirma.

A possibilidade de que experiências desse tipo incentivem comportamentos agressivos fora desse ambiente também é discutida por especialistas.

Para Marina, no entanto, o risco não está necessariamente na prática em si, mas na forma como as emoções são elaboradas. “Muitas práticas e situações podem igualmente reforçar comportamentos agressivos, não necessariamente a rage room em si. Se é utilizado para descarregar sentimentos em um ambiente controlado e específico para isso, não há por que essa prática resultar em comportamentos agressivos em outros contextos sociais cotidianos”.

A psicóloga ressalta ainda que não existe uma única forma considerada ideal para lidar com emoções intensas. Segundo ela, o ponto central é encontrar maneiras de expressar essas emoções sem causar danos a si mesmo ou aos outros. “A raiva e o estresse, quando não elaborados de alguma forma, podem ter outro destino e, em algumas situações, se tornar adoecedores. É melhor colocar esses sentimentos ‘para fora’ de uma maneira que não cause danos a você ou ao outro”.

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