
WASHINGTON — Desde que o presidente Donald Trump iniciou o que agora ele delicadamente chama de sua “excursão” ao Irã, Washington tem sido consumida pela pergunta sobre quando ele vai dar o assunto por encerrado — mesmo que muitas de suas metas de guerra continuem sem ser cumpridas.
Na noite de sexta-feira (20), a caminho da Flórida, Trump parecia estar desenhando essa tão discutida saída. Mas está claro que ele ainda não decidiu se vai de fato aproveitá-la.
E há sinais cada vez mais fortes — preço médio da gasolina se aproximando de US$ 4 por galão, infraestrutura em ruínas em todo o Golfo Pérsico, uma teocracia iraniana dizimada se entrincheirando e aliados americanos que primeiro rejeitaram e agora penam para atender às exigências de patrulhar águas hostis — de que as repercussões da excursão de Trump podem durar mais do que o interesse dele nela.
Como sempre, a comunicação de Trump é inconsistente. Seus críticos apontam isso como prova de que ele entrou nesse conflito sem estratégia; seus apoiadores celebram como ambiguidade estratégica. Com milhares de fuzileiros navais adicionais sendo enviados para a região e o ritmo dos ataques americanos e israelenses se acelerando, Trump disse a repórteres na sexta-feira que não tinha interesse em um cessar-fogo porque os Estados Unidos estavam “aniquilando” os estoques de mísseis do Irã, sua marinha, força aérea e base industrial de defesa.
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Horas depois, talvez sensível à base republicana — naturalmente nervosa com os efeitos políticos — ele publicou em sua rede social que “estamos chegando muito perto de cumprir nossos objetivos ao considerarmos encerrar nossos grandes esforços militares no Oriente Médio”.
Mas sua nova lista de objetivos deixou de fora algumas metas anteriores e diluiu outras. Ele não mencionou derrotar a Guarda Revolucionária, que aparentemente continua no poder, assim como Mojtaba Khamenei, que sucedeu o pai como líder supremo, embora ainda não tenha sido visto ou ouvido em público. Trump também omitiu qualquer mensagem ao povo iraniano, a quem ele disse apenas três semanas atrás: “Quando terminarmos, assumam seu governo. Ele será de vocês.”
E depois de insistir, nas negociações fracassadas que antecederam a guerra, que o Irã precisava enviar todo o seu material nuclear para fora do país — começando pelas 970 libras de urânio enriquecido mais próximas do grau bélico — ele sugeriu uma nova meta. “Nunca permitir que o Irã chegue sequer perto de ter capacidade nuclear”, escreveu, “e sempre estar em uma posição em que os EUA possam reagir de forma rápida e poderosa a esse tipo de situação”.
Em essência, era exatamente aí que os Estados Unidos estavam depois de terem reduzido o programa nuclear iraniano a escombros, em junho. Os locais continuam sob o olhar atento dos satélites espiões americanos.
Trump terminou a publicação com uma nova exigência aos aliados americanos, que ele havia deixado de fora das discussões antes de iniciar a guerra, sem qualquer aviso para que se preparassem para as consequências. “O Estreito de Ormuz terá que ser vigiado e policiado, conforme necessário, por outras nações que o utilizam — os Estados Unidos não!” As forças americanas ajudariam, disse ele.
“Pensem nisso como a nova Doutrina Trump para o Oriente Médio”, escreveu nas redes sociais Richard N. Haass, ex-presidente do Council on Foreign Relations, que atuou no Conselho de Segurança Nacional e no Departamento de Estado durante a Guerra do Golfo e a Guerra do Iraque.
“Fomos nós que quebramos, mas agora é de vocês.”

As mudanças nas metas de Trump continuaram até a noite de sábado (21). Há poucos dias, ele pedia a Israel que evitasse atingir instalações de energia iranianas, por medo de que isso desencadeasse uma escalada de ataques retaliatórios em todo o Golfo. Mas no sábado, ele ameaçou atingir as usinas de energia do Irã se o país não “ABRIR COMPLETAMENTE, SEM AMEAÇAS, o Estreito de Ormuz” em 48 horas.
Ele afirmou que os ataques americanos às usinas iranianas começariam “PELA MAIOR PRIMEIRO”. A maior usina do Irã parece ser sua única usina nuclear em operação, em Bushehr. Há décadas, usinas nucleares são consideradas totalmente fora de cogitação como alvo de ataques, pelo risco óbvio de desastre ambiental.
Não era aqui que Trump esperava estar após três semanas de guerra.
Líderes estrangeiros, diplomatas e autoridades americanas que conversaram com o presidente afirmam que, na primeira semana, ele demonstrava expectativas de que o Irã capitularia. Isso ficou claro na exigência de Trump, em 6 de março, de uma “rendição incondicional” do Irã.
A exigência era enigmática, disse um diplomata europeu com longa experiência em negociações com o Irã, considerando os múltiplos centros de poder do país, o orgulho nacional e um Estado persa que existe, com contornos aproximados do Irã moderno, atravessando inúmeras ascensões e quedas desde a época de Ciro, o Grande, por volta de 550 a.C.
(Essa exigência também desapareceu de seu último conjunto de objetivos. A Casa Branca desde então afirmou que o presidente não espera um anúncio formal de rendição, mas que caberá a Trump determinar quando o Irã terá “efetivamente se rendido”.)
A recusa do Irã em “pedir arrego”, como Trump disse a repórteres no Air Force One, foi apenas uma das surpresas para o presidente nas últimas semanas.
A primeira foi a crise nos mercados de energia, que a Agência Internacional de Energia classificou como “a maior interrupção de oferta na história do mercado global de petróleo”. Isso deixou Trump e seus assessores em polvorosa. Eles prometeram liberar barris da Reserva Estratégica de Petróleo, que estava apenas 60% cheia — reflexo de falta de planejamento. Ao longo da última semana, o Departamento do Tesouro emitiu licenças para entrega de petróleo russo e iraniano que já estava em alto-mar. Em outras palavras, para acalmar os mercados, o presidente autorizou enriquecer um adversário em guerra com a Ucrânia, aliada dos EUA, e outro em guerra com os próprios Estados Unidos.

Até agora, os efeitos são limitados. O Brent fechou em cerca de US$ 112 o barril na sexta-feira, após os anúncios do Tesouro, e o Goldman Sachs alertou, na quinta, que, se os navios se mostrassem relutantes em atravessar o Estreito de Hormuz, os preços poderiam se manter altos até 2027.
Os iranianos claramente entendem que o caos no mercado é sua única superarma restante. No sábado, Teerã alertou que poderia incendiar outras instalações no Oriente Médio. Os EUA acreditam que o país entrou na guerra com cerca de 3 mil minas navais — algumas das quais já teriam sido destruídas — e têm concentrado esforços em destruir pequenos barcos da frota iraniana que miram navios petroleiros ligados a aliados americanos.
“Basta que uma daquelas coisas consiga passar para paralisar totalmente o tráfego”, afirmou John F. Kirby, que atuou como porta-voz tanto do Pentágono quanto do Departamento de Estado, após se aposentar da Marinha. “O medo por si só pode ser paralisante para a indústria de transporte marítimo, como já vimos.”
A segunda surpresa de Trump foi a súbita necessidade de aliados. Ele não imaginou isso no início do conflito, disse recentemente o ministro da Defesa de um país do Golfo, porque achava que a guerra seria curta. Mas patrulhar o estreito e outros pontos de passagem parece ser uma tarefa que pode durar meses ou anos.
A terceira surpresa foi a ausência total de levante, tanto dentro da Guarda Revolucionária quanto entre cidadãos comuns iranianos. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou no Salão Oval, no início da semana, que “estamos vendo deserções em todos os níveis, à medida que começam a perceber o que está acontecendo com o regime”. Mas autoridades de inteligência americanas e europeias dizem não ter qualquer evidência dessas deserções — mesmo depois de Israel ter mirado e eliminado o líder supremo do Irã, seus principais chefes de segurança e inteligência e diversos altos oficiais militares.
Tudo isso ainda pode acontecer. Guerras não são ganhas ou perdidas em três semanas. Mas Trump entrou na guerra contra o Irã após desfrutar os frutos de vitórias rápidas. Um bombardeio sobre os três principais complexos nucleares do Irã, em junho, foi uma operação de uma única noite, basicamente enterrando os estoques nucleares do país e destruindo milhares de centrífugas usadas para enriquecer urânio.
A operação de comando para capturar Nicolás Maduro, da Venezuela, em sua cama em Caracas, foi igualmente rápida. E, até agora, o governo que Trump deixou em funcionamento — essencialmente o próprio governo Maduro — tem sido complacente. Essa operação ajudou Trump a desestabilizar Cuba, que perdeu o fornecimento de combustível venezuelano do qual dependia há muito tempo. Outro dia, a rede elétrica em Cuba entrou em colapso, e autoridades do governo americano vêm sugerindo abertamente que o regime também vai cair.
Talvez esses resultados rápidos tenham levado Trump a acreditar que as Forças Armadas dos EUA eram onipotentes e que os mulás, generais e milícias que controlam o Irã, um país de 92 milhões de habitantes, iriam desmoronar. Talvez ele tenha se precipitado.
Historiadores militares vão dissecar esse conflito por muito tempo. Mas, por ora, está claro que o Irã é um tipo diferente de desafio. Trump começou a usar a palavra “excursão” para sugerir que se trata apenas de uma viagem curta, um desvio momentâneo. Mas não há um fim real à vista.
c.2026 The New York Times Company
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