
No próximo dia 27 de abril, um julgamento coloca de lados opostos dois dos mais influentes executivos do ramo da tecnologia. De um lado, o bilionário dono da Tesla (TSLA34) e da rede social X, Elon Musk; do outro, a OpenAI e seu CEO, Sam Altman. A disputa gira em torno de acusações segundo as quais a criadora do ChatGPT teria mentido sobre sua estrutura sem fins lucrativos quando Musk doou US$ 38 milhões à companhia.
A expectativa é de que Altman, assim como o CEO da Microsoft (MSFT34), acionista relevante, Satya Nadella, testemunhem no tribunal.
É apenas uma nova etapa do relacionamento entre Musk e Altman, iniciado como uma parceria de negócios em 2015. Juntos, eles foram dois dos codiretores da OpenAI. Na época da fundação de uma empresa sem fins lucrativos que buscaria criar uma inteligência artificial “amigável para o benefício da humanidade”, Musk já era um dos grandes nomes da indústria de tecnologia e dono da Tesla. Altman era um nome ascendente no Vale do Silício.
O clima entre os dois começou a azedar em 2018. Àquela altura, a OpenAI já havia arrecadado cerca de US$ 1 bilhão em novos investimentos e avaliava ser necessária uma estrutura alternativa ao modelo sem fins lucrativos. Em um modelo misto, a companhia poderia gerar receita em um braço com fins lucrativos.
Musk sugeriu, segundo um comunicado publicado pela OpenAI em março de 2024, a fusão da empresa com a Tesla como uma alternativa para manter o ritmo de crescimento. O bilionário teria enviado um e-mail dizendo que “se associar à Tesla como sua galinha de ovos de ouro” e que a “Tesla é o único caminho que poderia, de alguma forma, competir com o Google. Mesmo assim, a probabilidade de ser um contrapeso ao Google é pequena. Apenas não é zero”.
O comunicado da OpenAI, publicado quando os conflitos entre o bilionário e sua ex-empresa já haviam iniciado, conta que Musk decidiu deixar a OpenAI dizendo que planejava construir um concorrente de inteligência artificial geral (campo teórico de uma IA capaz de realizar qualquer tarefa humana) dentro da Tesla. O bilionário fundaria a xAI, sua plataforma de IA.
Antes da crise começar, o discurso foi diferente. Um comunicado em fevereiro de 2018 dizia que “Elon Musk deixará o Conselho da OpenAI, mas continuará a fazer doações e a aconselhar a organização. À medida que a Tesla se concentra cada vez mais em IA, isso eliminará um potencial conflito futuro para Elon”.
Doações feitas à OpenAI são, hoje, o objeto da disputa judicial entre o bilionário e a empresa. Pela acusação, o também dono da inteligência artificial xAI quer ser recompensado em US$ 134 bilhões pela OpenAI e sua acionista Microsoft. O cálculo é baseado em metodologia do economista da consultoria Berkeley Research Group, C. Paul Wazzan, apresentado como perito e testemunha.
O número foi considerado “pouco convincente”, embora não tenha sido rejeitadao. A juíza Yvonne Gonzalez Rogers afirmou que não estava pronta para descartar a alegação com base em uma “moção de cinco páginas” justificada pelo especialista C. Paul Wazzan, economista da consultoria Berkeley Research Group.
Disputas públicas
Dono da rede social X, Musk se notabilizou por levar disputas corporativas e políticas a público — como com seu antes aliado, Donald Trump. As disputas com a OpenAI também renderam trocas de acusações no Twitter.
Quando a OpenAI anunciou o Projeto Stargate, iniciativa de US$ 500 bilhões em quatro anos para construção de infraestrutura de IA nos Estados Unidos, Musk rebateu: “Eles não têm dinheiro suficiente para isso”. A iniciativa é uma parceria da criadora do ChatGPT com as gestoras SoftBank e MGX, além da empresa de nuvem Oracle.
“O SoftBank tem bem menos de US$ 10 bilhões em ativos de garantia. Sei por fontes confiáveis”, afirmou Musk.
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Altman respondeu à publicação: “Errado, como você certamente sabe”. Naquele momento, em janeiro de 2025, Musk ainda era um aliado de Donald Trump e chefiava o Departamento de “Eficiência Governamental”.
Altman disse a Trump que o Projeto Stargate seria “ótimo para o país”, algo que “nem sempre é o ideal para suas empresas”. “Espero que, em sua nova função, você priorize os Estados Unidos”.
Em agosto daquele ano, a xAI e o X entrariam na justiça contra a Apple e a OpenAI. A fabricante do iPhone havia anunciado mais cedo naquele ano uma integração do ChatGPT em seus sistemas operacionais. No processo, as companhias de Musk argumentaram que o acordo teria implicações anticoncorrenciais ao dar preferência às aplicações da OpenAI na loja de aplicativos da Apple.
“Essa é uma alegação notável, considerando o que já ouvi dizer que Elon faz para manipular a X em benefício próprio e de suas empresas, prejudicando seus concorrentes e pessoas de quem não gosta”, disse Altman em uma resposta ao rival no X.
Alguns meses depois, o CEO da Tesla responderia a um perfil na rede social associando o ChatGPT a nove casos de morte: “Não deixem as pessoas a quem vocês amam usarem o ChatGPT”. Processos judiciais nos Estados Unidos acusam a OpenAI de ser responsável por casos de suicídio e alucinações do aplicativo.
“Às vezes você reclama que o ChatGPT é muito restritivo, e depois, em casos como este, afirma que é muito permissivo. Quase um bilhão de pessoas o utilizam, e algumas delas podem estar em estados mentais muito frágeis”, respondeu Altman à publicação no X. Ele aproveitou ainda para lembrar que mais de 50 pessoas teriam morrido em acidentes relacionados ao piloto automático da Tesla.
Quem acessa o site da OpenAI hoje pode encontrar uma página com o título “A verdade sobre Elon Musk e OpenAI” na qual a desenvolvedora lista uma série de documentos judiciais emitidos e submetidos ao tribunal no caso que começará a ser julgado. A companhia argumenta, por exemplo, que Musk teria tentado usar o processo para acessar os códigos-fonte proprietários do ChatGPT.
Na última semana, Musk afirmou que os ganhos com qualquer vitória judicial no caso da OpenAI serão doados para caridade. “Não vou me enriquecer de forma alguma”.
Pouco mais de um mês antes, Altman disse: “Muito animado para ver Elon sob juramento em alguns meses, o Natal chegou em abril!”.
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