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Tensão no Oriente Médio agrava a crise corporativa e pode elevar inadimplência e RJs

por SampaNews 30 de março de 2026
30 de março de 2026
3

As empresas brasileiras iniciaram 2026 com um desafio muito além do previsto em seus orçamentos. A inadimplência corporativa, que já vinha sendo impulsionada pela taxa de juros elevada e pelas dificuldades no acesso ao crédito, ganhou um novo agravante: as incertezas globais deflagradas pelo conflito no Oriente Médio. O cenário macroeconômico, que antes sugeria uma queda mais acentuada da Selic, agora força as companhias a operarem no limite de suas capacidades, colocando-as em um estado de alerta e cautela constantes.

Especialistas ouvidos pelo InfoMoney afirmam que o sufoco financeiro não é um evento isolado, mas sim o resultado de uma equação complexa que mistura fatores internos e externos. Eles alertam que a gestão minuciosa do fluxo de caixa e a reestruturação das dívidas se tornaram as principais vias para evitar processos de recuperação judicial, enquanto o mercado aguarda por uma clareza que, de acordo com as projeções mais realistas, não chegará antes do próximo ano.

Leia também: Raízen e Pão de Açúcar: como fica o investimento em CRI, CRA, fundos e debêntures?

O peso das dívidas

Os números revelam uma trajetória ascendente de negatividade corporativa. Há cinco anos, o Brasil já registrava 5,8 milhões de empresas inadimplentes, segundo dados do Serasa Experian. Mês a mês e ano a ano esse volume foi crescendo, chegando a 7,8 milhões em junho e 8,9 milhões em dezembro. Em janeiro deste ano, o indicador recuou para 8,7 milhões.

Neste período, a taxa Selic foi de 13,25% em janeiro de 2025 para 15% em junho, permanecendo neste patamar até março deste ano, quando caiu a 14,75%.

Para entender o sufoco, é preciso olhar para a natureza dessas dívidas, que muitas vezes não estão atreladas aos bancos, mas sim à cadeia produtiva. “Quando a gente olha para a participação dos setores na inadimplência PJ, a gente consegue perceber claramente que grande parte dessa inadimplência está fora do sistema financeiro”, explica Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, apontando para o estrangulamento das relações com fornecedores.

Número de empresas inadimplentes, em milhões
Mês|Ano 2021 2022 2023 2024 2025 2026
Janeiro 5,8 6 6,4 6,7 7,1 8,7
Fevereiro 5,9 6 6,5 6,6 7,2 –
Março 5,9 6,1 6,5 6,7 7,3 –
Abril 5,9 6,1 6,5 6,7 7,5 –
Maio 5,9 6,1 6,5 6,9 7,7 –
Junho 5,9 6,2 6,5 6,9 7,8 –
Julho 5,9 6,2 6,6 6,9 8 –
Agosto 5,8 6,2 6,6 6,9 8,1 –
Setembro 5,8 6,3 6,6 6,9 8,4 –
Outubro 5,8 6,3 6,6 7 8,7 –
Novembro 5,9 6,4 6,6 7 8,9 –
Dezembro 5,9 6,4 6,6 6,9 8,9 –
Fonte: Serasa Experian

Juros não são causa única do estrangulamento

Apontar os juros como os únicos vilões dessa escalada é um erro de diagnóstico, segundo Max Mustrangi, especialista em reestruturação de empresas e CEO da Excellance. “Juros é efeito, é consequência, ele não é causa”, explica o executivo. “Lógico que ele piora o cenário de empresas altamente endividadas. O custo de carrego, o custo de pagamento, o dispenso de fluxo de caixa, ele aumenta. Empresas com caixa ruim ou deficitárias pioram. Mas isso é consequência, porque a empresa está muito endividada”, ressalta Mustrangi.

A frustração de expectativas de crescimento é outro componente central dessa crise. Para Lucas Pena, CEO da Pact, a inadimplência e a busca por recuperação judicial são faces da mesma moeda em um cenário conturbado. 

“Tanto a inadimplência quanto a recuperação judicial fazem parte de um cenário de mudança de contexto em relação ao que havia sido planejado. É sempre uma frustração de expectativa do futuro que tinha sido projetado, reflexo de uma má governança”, avalia Pena. Ele cita como exemplo empresas que reservam uma determinada quantia para gastos judiciais e, ao longo do ano, esse custo se mostra o triplo do que havia sido estimado. 

Isso sem considerar as incertezas externas. Ele conta que as empresas terminaram o último ano montando planejamentos que rapidamente se mostraram inviáveis logo no primeiro trimestre. Entre os fatores de pressão estão o conflito no Oriente Médio, que atua pelo vetor de aumento de custos das empresas e desaceleração da queda da Selic, além da variação do dólar e da cotação do petróleo, que afeta o planejamento original das companhias.

Ele destaca que a instabilidade externa atropelou até mesmo as preocupações com o cenário eleitoral de 2026. “Uma mudança de gestão política, que possa acontecer a partir do ano que vem, não terá reflexo imediato sobre juros, inflação e dinamismo econômico”, pontua Pena. O foco das diretorias, portanto, virou uma questão de sobrevivência imediata. “As empresas estão menos preocupadas com esse cenário eleitoral e muito mais preocupadas em entender como é que os juros, e a condição internacional vão se comportar para conseguirem montar alguma estratégia”, diz o CEO.

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Estagnação nas projeções e cautela forçada

A dificuldade de crescer no atual ambiente econômico tem assustado até mesmo os acadêmicos mais experientes. Eduardo Menicucci, professor na área de finanças da Fundação Dom Cabral (FDC), relata um cenário inédito em suas duas décadas de atuação. “Foi a primeira vez onde eu vi três setores distintos estimando receita igual em 2025 e 2026. Ou seja, considerando a melhor das hipóteses, eles previam repetir a receita em vez de crescer”, revela o professor, citando os supermercados como um desses setores afetados.

Menicucci também chama atenção para os desafios de curto e médio prazo, como a adaptação à reforma tributária, que exige preparo e impacta ainda mais o fluxo de caixa das companhias. 

O avanço das recuperações 

Como um reflexo direto da asfixia financeira e da dificuldade de acesso a novos créditos, o mercado corporativo passou a conviver com uma enxurrada de pedidos de recuperação, tanto extrajudiciais quanto judiciais. Longe de ser um tabu ou um atestado de falência irreversível, o movimento tem sido encarado por especialistas como um mecanismo legítimo de sobrevivência e reorganização em tempos de choques externos e projeções frustradas.

Para Lucas Pena, CEO da Pact, a ida ao judiciário não altera a raiz do problema, mas muda a estratégia de enfrentamento. “Acho que a questão da recuperação seja judicial ou extrajudicial é só uma escolha de como passar por um momento conturbado”, analisa o executivo. 

Segundo ele, bater às portas da justiça ou buscar acordos extrajudiciais é a consequência direta de planejamentos que foram atropelados pela realidade. “O cenário da inadimplência e da recuperação judicial são os mesmos. Eles refletem uma mudança do contexto planejado, junto com a descoberta de fatores que, eventualmente, você precificava mal”, pontua Pena, citando como exemplo empresas que provisionaram um determinado valor para custos judiciais, por exemplo, e depois viram que o número real era três vezes maior.

Mas entrar em um processo de reestruturação — seja ele guiado pela justiça ou por acordos privados — exige uma mudança radical na postura das diretorias. Para Max Mustrangi, CEO da Excellance, o mercado pune severamente as companhias que tentam renegociar sem transparência.

“A primeira coisa importante é: prometeu, assinou, falou, cumpra. E isso vai gerando credibilidade e confiança, e cada vez mais você vai tendo condição de negociar com os credores”, diz Mustrangi. 

O especialista ressalta que resolver os passivos exige uma comunicação de “olho no olho” e a consciência de que falhar em um acordo renegociado fecha as portas do mercado definitivamente. “As pessoas não percebem que esse ativo intangível é mais valioso nesse momento, porque todo o resto já foi perdido e o que sobra é a sua credibilidade”, avalia.

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Cenário à frente é de incertezas

Diante de sucessivas crises, Menicucci adverte sobre as consequências duradouras da atual instabilidade: “A gente só vai ver a intensidade dessa quando as nuvens se dissiparem em 2027, e a gente contar mortos e feridos”, estima.

A perspectiva de um horizonte mais limpo apenas em 2027 é compartilhada por Alex Nery, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA). Analisando os dados e a conjuntura, Nery enxerga o atual calendário como um período de transição árdua. “2026 me parece ainda um ano muito difícil. A palavra tem que ser cautela”, diz. Segundo ele, os possíveis efeitos positivos vindos de uma gradual queda da Selic e de maior clareza política só se tornarão “mais visíveis em 2027”.

Até lá, a recomendação unânime entre os especialistas ouvidos é a transparência e a disciplina financeira. Com a restrição no mercado, a saída passa obrigatoriamente pela revisão interna das operações. “É olhar para dentro da empresa, se reorganizar e fazer um trabalho de gestão, pensar na estrutura de custos, entender fontes alternativas de receita”, orienta Abdelmalack. Ela alerta que o cenário atual exige ainda mais cautela: “Estamos em um ano em que o crédito está desacelerando, as instituições estão bastante criteriosas e o apoio no crédito para essa reorganização financeira estará mais complicado”.

Para empresas que já se encontram com a corda no pescoço, renegociar não basta; é preciso cumprir os acordos firmados. Conforme lembra Mustrangi, ao chegar em um momento crítico, o ativo mais valioso de uma empresa deixa de ser seu capital físico e passa a ser sua credibilidade frente ao mercado e aos credores. Em um ano onde a regra é sobreviver à tempestade, prometer e cumprir tornou-se a única estratégia segura.

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