Em uma época em que os ovos de chocolate dominam vitrines de lojas e prateleiras de supermercados, uma tradição mais antiga e carregada de significado segue viva em Holambra – distante 40 km de Campinas. Na casa da enfermeira aposentada e produtora rural, Maritha Domhof, filha de imigrantes holandeses, a Páscoa é celebrada com ovos de galinha cozidos, pintados à mão e, depois, compartilhados em família.
A prática tem origem em costumes europeus. Historicamente, os ovos simbolizam o nascimento, a fertilidade e o início de um novo ciclo, ideia que, com o tempo, foi incorporada à Páscoa como representação da ressurreição de Jesus Cristo, marcando o renascimento da vida.
Na tradição, crianças e adultos se reúnem ao redor da mesa para dar cor aos ovos cozidos, usando tinta, pincéis e até as próprias mãos. Em alguns momentos, os ovos também são escondidos pelo quintal, dando início à clássica caça de Páscoa, que anima principalmente os pequenos.
Já no domingo, depois de toda a preparação, eles ganham lugar de destaque na mesa e são consumidos pela família, em um gesto simples que carrega o espírito de união da data.
Como os ovos cozidos pintados são feitos
Na semana que antecede a Páscoa, a casa de Maritha se transforma em ponto de encontro para filhos, netos, sobrinhas e sobrinhas-netas.
Todos participam do preparo. Os ovos, normalmente brancos, são cozidos, resfriados e pintados com tinta comestível. Hoje, além dos pincéis, as crianças também usam adesivos para decorar.
Segundo Maritha, algumas crianças ficam com dó de comer os próprios ovos por conta da decoração, mas eles acabam sendo levados à mesa da ceia, como manda a tradição.
“A tradição continua e para eles é realmente uma festa poder participar disso”,
contou Maritha ao acidade on.
Amigos da família também costumam participar, inclusive pessoas sem descendência europeia. Para ela, isso mostra como o costume tem se espalhado pela cidade.
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Criatividade na pintura
A criatividade é livre na hora de pintar, mas algumas cores ganham destaque. O amarelo é uma das mais usadas, tanto nos ovos quanto na decoração da casa.
“O amarelo volta a ideia da gema do ovo, da fertilidade, do futuro, de futuras gerações. Então, o amarelo é muito usado na decoração de Páscoa. Inclusive usa-se muitas flores amarelas, vasos de flores amarelas nos cantos da casa, um vaso no meio da mesa amarelo. Isso é muito forte”.

A tradição não envolve apenas pintura. Durante o encontro, a família costuma colocar músicas relacionadas à Páscoa, muitas vezes com repertório clássico.
Para Maritha, um dos momentos mais especiais acontece quando alguém começa a contar histórias, criando um ambiente de troca e conexão entre diferentes gerações.
“O momento mais divertido de toda a Páscoa, eu acredito que seja a hora de pintar os ovos. É realmente uma concentração de pessoas e todo mundo se ajuda”,
acrescentou.
Alternativa mais saudável
Além do valor simbólico, os ovos pintados também aparecem como uma alternativa mais saudável, segundo Maritha.
Ela explica que, hoje, há uma preocupação maior com a alimentação, principalmente quando se trata das crianças.
“Para as crianças, ovos de galinha cozidos são muito mais saudáveis que os ovos de chocolate. Então, realmente existe um grande estímulo de comer ovos de galinha cozidos e que são pintados para entrar no clima de Páscoa”.
Origem da tradição

A origem do costume está ligada à história da família de Maritha. Os pais dela, Hendrika Hulshof e Wilhelmus Domhof, deixaram a Holanda em 1954, logo após o casamento, e vieram ao Brasil em um navio de carga, onde trabalharam para pagar a passagem.
Após chegarem ao Porto de Santos, seguiram até São Paulo, depois foram de trem Maria Fumaça até Campinas e, por fim, de jipe até Holambra, onde se estabeleceram.
Segundo Maritha, a mudança trouxe mais do que uma nova vida no Brasil. Vieram também costumes que passariam a marcar a identidade da família, entre eles, a tradição de pintar ovos na Páscoa, aprendida ainda na infância.
Ela lembra que a mãe reunia os nove filhos ao redor da mesa para cozinhar e decorar os ovos, transformando o momento em uma das lembranças mais marcantes da data.
Maritha lembra que o momento era simples, mas cheio de significado.
“A gente usava guache, usava a mão, usava o dedo, usava pincel. Era, na verdade, uma verdadeira bagunça e muita diversão”,
disse.
À noite, os ovos decorados eram levados à mesa e consumidos durante a ceia.
A imaginação também fazia parte da celebração. A mãe contava histórias sobre o coelhinho da Páscoa, que traria os ovos para as crianças.
“E na verdade era muito engraçado, porque ela contava que era o coelho, mas os ovos que trazia eram ovos de galinha. Mas a gente achava muito legal. A gente entrava realmente num sonho, como se a gente visse o coelhinho trazendo os ovos pintados”,
relembra.
Em algumas ocasiões, ela escondia coelhinhos de brinquedo no jardim para que os filhos procurassem depois.
Por causa dessa tradição tão presente na infância, Maritha conta que só foi associar a Páscoa aos ovos de chocolate mais tarde, quando começou a frequentar a escola.

Legado que passa de geração em geração
De acordo com Maritha, embora os mais velhos mantenham a tradição há mais tempo, são os mais jovens que hoje fazem questão de preservar o costume. Eles cobram o encontro para pintar os ovos, se envolvem com entusiasmo e ainda convidam amigos para participar.
“Então, na verdade, essa tradição de pintar ovos de galinha está se alastrando como uma cultura geral de Holambra”,
afirmou.
Para ela, o que está em jogo vai além de uma simples atividade de Páscoa. É a preservação de uma cultura herdada dos antepassados, que continua fazendo sentido para as novas gerações.
“Além disso, é uma forma de reunir a família, espalhar amor e fazer coisas divertidas juntos e que sempre serão lembrados depois na vida da gente”,
reforçou.
Maritha também destaca que o valor da tradição está naquilo que não se vê. Para ela, a celebração carrega a magia da Páscoa, fortalece a união familiar e reforça a fé, trazendo um significado que vai além da rotina do dia a dia.
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