
A inflação do “kit churrasco” pesou mais no bolso do consumidor brasileiro nos últimos 12 meses, superando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país. Entre março de 2025 e março de 2026, enquanto o IPCA geral acumulou alta de 4,14%, os preços da carne avançaram 5,68% e os da cerveja, 6,06%.
Segundo Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE, o movimento reflete gargalos nas cadeias produtivas de ambos os setores. A pressão nos preços pode ser explicada por uma combinação de fatores.
No caso da cerveja, o preço final sofre influência da alta nos custos de produção, como do alumínio usado nas latas, além de insumos agrícolas que tiveram redução na oferta global.
Em relação à carne, os preços são pressionados pelos efeitos da estiagem nas pastagens, pelo aumento dos custos de produção (como ração) e pela valorização do dólar, que estimula as exportações e encarece o produto no mercado interno.
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Histórico de pressão nos preços
Ampliando a janela de análise, a carne também superou o IPCA no acumulado de 12 meses encerrados em janeiro de 2025 (disparada de 21,17%) e no mesmo período até janeiro de 2021 (alta de 22,82%).
Gonçalves explica que, no segundo semestre de 2020, houve um salto nas exportações e elevação nos custos da ração devido à seca. O cenário de estiagem se repetiu em 2024, voltando a puxar os preços para cima na virada para 2025.
Por outro lado, em janeiro de 2024, a carne registrou deflação acumulada de 8,87%, refletindo o maior descarte de matrizes (abate de bovinos) em 2023, o que aumentou a oferta no mercado.
Por outro lado, em janeiro de 2024, a carne registrou deflação acumulada de 8,87%, refletindo o maior descarte de matrizes (abate de bovinos) em 2023, o que aumentou a oferta no mercado.
Já a cerveja vem superando o índice geral há mais tempo. O item ficou acima do IPCA nos acumulados de 12 meses até janeiro de 2026 (alta de 5,39% contra 4,44% do índice geral), janeiro de 2025 (4,74% contra 4,56%) e janeiro de 2023 (10,55% contra 5,77%).
| IPCA – Variação acumulada em 12 meses (%) | |||||||
| jan/21 | jan/22 | jan/23 | jan/24 | jan/25 | jan/26 | mar/26 | |
| Índice geral | 4,56 | 10,38 | 5,77 | 4,51 | 4,56 | 4,44 | 4,14 |
| Carnes | 22,82 | 9,98 | 0,04 | -8,87 | 21,17 | 1,7 | 5,68 |
| Cerveja | 3,7 | 7,83 | 10,55 | 4,01 | 4,74 | 5,39 | 6,06 |
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O impacto nas empresas e na Bolsa
Paulo Petroni, diretor-geral da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), pondera que, em um recorte de dez anos, a inflação da cerveja ficou cerca de 4% abaixo do índice geral. Ele destaca que a forte concorrência impede as cervejarias de repassarem integralmente a alta de custos aos consumidores, sob o risco de perderem mercado.
A dificuldade de repasse e o ambiente macroeconômico já aparecem nos balanços. Os resultados consolidados de 2025 da Ambev (ABEV3) mostraram uma queda de 4,5% no volume total de cerveja vendido no Brasil. Segundo o relatório da companhia, “condições climáticas adversas e um ambiente de consumo mais desafiador reduziram as ocasiões de consumo, especialmente nos canais ligados à socialização”.
A Heineken relatou cenário semelhante em 2025, com recuo no volume de vendas no país justificado por uma demanda mais fraca e ajuste de estoques nos revendedores.
Para compensar o volume menor, a estratégia do setor tem sido focar em marcas premium, que garantem margens de lucro melhores.
Já os frigoríficos ficam divididos entre mercado interno e externo. Do lado da proteína animal, a inflação da carne também reflete a dinâmica das gigantes do setor listadas na B3, como JBS (JBSS3), Marfrig (MRFG3), BRF (BRFS3) e Minerva (BEEF3).
Se por um lado o dólar valorizado beneficia as receitas de exportação dessas companhias, por outro, os custos de pastagem e o boi gordo mais caro pressionam as margens operacionais das vendas voltadas para o consumidor brasileiro, que já sofre com o poder de compra achatado pela inflação.
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