Para quem deseja fazer a diferença na vida de uma criança, mas não pode seguir pelo caminho da adoção, o apadrinhamento afetivo aparece como uma alternativa de cuidado. Em Campinas, o Serviço Complementar de Apadrinhamento Afetivo, executado pelo Acordar, da Guardinha, está em busca de novos voluntários dispostos a construir esse tipo de vínculo.
O programa é voltado a crianças e adolescentes de 7 a 17 anos e 11 meses que vivem em acolhimento institucional, foram destituídos do poder familiar e têm pouca chance de serem inseridos em uma família substituta.
Nesses casos, o apadrinhamento possibilita vivências fora do ambiente dos abrigos, ampliando o repertório social e emocional dos jovens – veja abaixo como participar.
Quem pode participar do apadrinhamento afetivo
Para se tornar voluntário, é necessário ter 21 anos ou mais, residir em Campinas e ter disponibilidade para participar do processo de formação oferecido pela Guardinha.
Os interessados devem preencher um formulário online disponibilizado pelo serviço (clique aqui). Em caso de dúvidas, o contato pode ser feito pelo telefone (19) 99665-9041.
Como funciona o processo
Antes de iniciar o vínculo, os voluntários passam por formação, avaliação técnica e habilitação junto à Vara da Infância e da Juventude.
Após a aprovação, o contato com os afilhados acontece de forma gradual e pode incluir visitas, passeios e até pernoites, sempre com acompanhamento da equipe técnica.
Segundo o psicólogo e gestor do Acordar, da Guardinha de Campinas, Fábio Barbieri, o foco é estabelecer relações responsáveis e duradouras.
“O objetivo é encontrar pessoas disponíveis e comprometidas a se engajar de forma responsável nesse vínculo e, assim, resgatar o direito da criança e do adolescente à convivência familiar e comunitária”, afirma.
Em Campinas, o serviço é executado desde 2014 pelo Acordar, da Guardinha, em parceria com a Prefeitura.
O que é apadrinhamento afetivo?
Diferente da adoção, o apadrinhamento afetivo não altera legalmente a situação da criança ou adolescente acolhido. O que ele propõe é a construção de vínculos reais, por meio da convivência, do cuidado e da presença contínua de um adulto disposto a estar por perto.
Existem três modalidades de apadrinhamento: afetivo, social e financeiro. No afetivo, o mais comum, o padrinho ou madrinha pode visitar a criança ou adolescente nos fins de semana, convidá-lo para passeios ou até para passar um dia com sua família. Já no social, o apoio vem por meio da profissão do voluntário — um dentista pode oferecer tratamento, por exemplo. O financeiro envolve contribuições materiais, como bolsas de estudo ou auxílio com despesas.
Apesar das possibilidades, o que mais importa é o vínculo humano. “O apadrinhamento não se configura como um meio de adoção, nem se destina a dar presentes em eventos anuais ou festivos. A ênfase está na vinculação e troca de afeto”, explica Fábio Barbieri, coordenador da Guardinha.
Segundo ele, todos os apadrinhamentos são individuais, garantindo que cada criança ou adolescente tenha seu momento de atenção e escuta.
“As crianças que são apadrinhadas recebem suporte afetivo e social, o que é essencial para que elas ressignifiquem sua história de vida e construam perspectivas positivas para o futuro”,
diz
Impacto do apadrinhamento na vida dos acolhidos

É justamente nos casos em que não há chance de retorno familiar nem perspectivas de adoção que o apadrinhamento afetivo entra em cena como alternativa de construção de vínculos duradouros, diz Lindalva Carvalha, responsável direta por uma das casas onde estão as crianças e adolescentes apadrinhados. Ela acompanha de perto as mudanças que o apadrinhamento provoca.
“As crianças e adolescentes anseiam por um cuidado e atenção individualizados; por um espaço que não necessite ser compartilhado com outras crianças e adolescentes, e o apadrinhamento permite que estes anseios, muitas vezes, sejam satisfeitos”,
diz Lindalva.
Ela reforça que esse vínculo permite às crianças “experienciar relações saudáveis, criar referências e vínculos positivos com figuras de referência e de afeto, ampliar sua rede social, sonhar com possibilidades de conquistas e de um projeto de vida”.
A presença constante de uma pessoa que se importa e se compromete gera impactos imediatos e profundos. Segundo Lindalva, as crianças e adolescentes se mostraram mais tranquilos e esperançosos, ampliaram sua capacidade de socialização, tornaram-se mais receptivos à vinculação afetiva e menos desconfiados em relação à figura do adulto.
Além disso, alguns passaram a construir um projeto de vida focado na superação dos motivos que os levaram ao acolhimento.
“Outros tiveram melhora no comportamento apresentado (desafiador, rebelde, etc); outros foram impactados, melhorando sua higiene pessoal, sua apresentação, sua forma de falar. Tivemos também, por influência dos padrinhos, alguns que passaram a valorizar uma vida saudável com atividades físicas e a educação como ponte para o sucesso almejado”,
completou.
Qual a duração do apadrinhamento afetivo?
Segundo Fábio, o apadrinhamento não tem um prazo determinado para acabar. Ele pode ser encerrado em situações como a maioridade civil, o retorno da criança à família de origem, a adoção ou outros motivos específicos. No entanto, há casos em que o vínculo construído se mantém por toda a vida, mesmo após o afilhado completar 18 anos. “A vinculação permanece, e os padrinhos seguem sendo uma referência para esses jovens”, explica.
Em algumas situações, os padrinhos também escolhem continuar contribuindo com o programa, colocando-se à disposição para acompanhar outra criança ou adolescente.
“Encerramos o apadrinhamento mais longo em 2024, com nove anos de duração. Mesmo com a afilhada completando 18 anos, o vínculo se mantém, embora o apadrinhamento seja encerrado pela Vara da Infância. Os vínculos afetivos permanecem, bem como o contato e convivência familiar”,
conta Fábio.
Essa presença constante faz com que o acolhido deixe de ser apenas “mais um” entre tantos. Ele passa a se sentir parte de algo.
“Ter boa alimentação, boas roupas, calçados, boa cama, escola, acesso à saúde é muito importante para o desenvolvimento físico e social. Mas de nada vale tudo isto se o desenvolvimento psíquico, emocional não andar ali pari passu”,
pontua Lindalva.
E conclui: “O vínculo, o afeto, a presença contínua de alguém são combustíveis potentes que, quando tocam o coração, fortalecem a autoestima, devolvem a autoconfiança e fazem com que queiram se superar, tenham sentido para viver e passar por cima das tragédias e traumas vivenciados.”
Quer ajudar? Existem outras formas também

Além do apadrinhamento afetivo, outras formas de colaboração são possíveis em Campinas:
- Abrigos institucionais
Mantidos por entidades civis, os abrigos podem receber até 20 crianças ou adolescentes cada. Os locais também devem manter educadores, assistentes sociais, pedagogos, psicólogos e coordenadores.
No geral, são estes abrigos que recebem primeiro os jovens vítimas de violência. Para ajudar as crianças abrigadas, é possível fazer doações de roupas, brinquedos ou mantimentos e até ser voluntário nas atividades.
- Casas lares
Nas casas lares, o cuidado das crianças é feito por duas mães sociais que realizam plantões intermitentes em uma residência que não é delas. Cada casa lar abriga até 10 crianças ou adolescentes.
As duas profissionais são contratadas em regime da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). Para ajudar, é possível se candidatar para atuar nesta função ou oferecer serviços de voluntariado a fim de ajudar os trabalhadores contratados.
- Família acolhedora
Qualquer família pode se cadastrar, por meio da Prefeitura, para este serviço. O objetivo é atender crianças na primeira infância.
As famílias selecionadas para a função vão passar por capacitação para receber a criança ou o adolescente. Há uma equipe técnica do serviço de acolhimento para acompanhar a evolução.
Os interessados devem procurar o serviço por meio dos contatos indicados no site. As famílias são avaliadas pelos profissionais de serviço social e psicologia.
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