
A Bemobi (BMOB3) entrou na Bolsa de Valores na “fresta” da última janela de IPOs do Brasil. À época, seus principais negócios eram um clube de aplicativos e uma solução de pagamentos via saldo de celular pré-pago. Cinco anos depois, 70% da receita vem de um negócio completamente novo enquanto a companhia registra ganhos de 90% na ação em 2025.
A empresa surgiu de uma lacuna criada pela proliferação dos smartphones no Brasil na década passada. Enquanto mais pessoas tinham acesso aos aparelhos, os pagamentos nas lojas de aplicativos oficiais para Android ou iOS ainda dependiam de um cartão de crédito internacional.
“Vimos que havia um meio de pagamento alternativo, que era o saldo do pré-pago de telefonia móvel. Na maior parte dos países em desenvolvimento as pessoas já tinham esse serviço. Depois criamos um serviço de assinatura de jogos e aplicativo ao redor desse pagamento”, conta o CEO da companhia, Pedro Ripper, ao InfoMoney. Com as verticais de negócio dedicadas às aplicações de celular, a Bemobi expandiu para 60 países.
Pouco antes de ser listada na B3, em 2021, no entanto, a Bemobi estudava como se antecipar a uma transformação relevante no mercado de pagamentos no Brasil: a proliferação de fintechs estimulada pela abertura de mercado promovida pelo Banco Central e o surgimento do Pix tornariam as transações em lojas de aplicativos mais práticas. O movimento de digitalização ainda seria aprofundado pela pandemia.
De 2020 a 2022, o número de transações por meio digital per capita no Brasil saltou de 242 para 453, segundo dados do Banco Central. Enquanto isso, a quantidade de instituições de pagamento autorizadas pela autoridade monetária saia de 26 para 74.
“Nós vimos que apesar da digitalização, setores específicos muito fundamentais para a economia ainda eram muito baseados na economia do boleto bancário”, conta Ripper. São empresas que a Bemobi categoriza como serviços recorrentes essenciais, como contas de celular, banda larga, luz, água, educação ou saúde.
A estratégia passou a combinar softwares de relacionamento com plataformas de pagamento integradas. A Bemobi desenvolve aplicativos, portais e canais de WhatsApp com inteligência artificial para empresas e adiciona opções de pagamento às contas, como Pix parcelado, cartões, carteiras digitais ou métodos recorrentes.
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No primeiro trimestre de 2026, as linhas de pagamentos e software da Bemobi representaram 69,5% da receita líquida ajustada — aproximadamente R$ 153 milhões. A companhia tem contratos com 12 das 15 maiores empresas de serviços do Brasil, de acordo com o CEO.
Recuperação na Bolsa
A Bemobi pegou uma “fresta”, como chama Ripper, na última janela de IPOs em 2021, quando mais de 50 empresas foram listadas na Bolsa. As aberturas de capital foram estimuladas por uma baixa taxa de juros e levou companhias a um valuation elevado na estreia. Na avaliação do executivo, o cenário que se seguiu, com elevação dos juros e desvalorização dos papéis, causou um “mau humor” em relação às companhias que estrearam na B3 à época.
Entre 2021 e 2025, as ações da Bemobi caíram 40%. Além do cenário econômico interno, a empresa também foi impactada pelo contexto geopolítico: em guerra, Rússia e Ucrânia eram, respectivamente, o terceiro e o quarto maiores mercados da empresa no segmento de aplicativos. E o principal cliente da companhia, a empresa de telefonia Oi, teria sua falência decretada em 2025.
Desde o início de 2025, no entanto, as ações da companhia cresceram 89%, aponta um levantamento da consultoria Elos Ayta. O patamar de crescimento coloca a companhia na 21ª posição entre os maiores ganhos de small caps no ano. Em 2026, a Bemobi subiu quase 10%. Hoje, o valor de mercado da companhia já equivale ao registrado no seu IPO.
Ripper considera que o mercado passou a entender melhor a tese da companhia nos últimos dois anos, à medida que o negócio de pagamentos ganhou escala e simplificou a narrativa da empresa para investidores. “Hoje, alguém que entrou no IPO ganhou mais dinheiro do que se tivesse deixado no CDI”, afirma.
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