Corredores infinitos com iluminação amarelada, carpetes com padrões que parecem saídos de um pesadelo e silêncio absoluto. Se você sabe do que se trata, provavelmente já caiu fundo no universo dos Backrooms.
Essa estética, conhecida como liminal space, deixou de ser um nicho obscuro da internet e se tornou um dos fenômenos culturais mais fascinantes dos últimos anos. E, para quem quer expandir essa experiência além das telas do YouTube, o cinema tem muito a oferecer.
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Os liminal spaces são, por definição, espaços de transição: corredores, estacionamentos vazios, shoppings desertos de madrugada, piscinas sem ninguém. Lugares que existem para ser atravessados, não habitados.
Quando estão vazios ou fora de contexto, eles provocam uma sensação difícil de nomear, uma mistura de nostalgia, estranheza e inquietação. É exatamente essa atmosfera que os filmes desta lista capturam com maestria.
O que significa liminal space?
A palavra “liminal” vem do latim limen, que significa limiar ou fronteira. No campo da antropologia, foi usada para descrever estados de transição em rituais. Na cultura digital, ganhou um sentido visual muito específico: são aqueles lugares que parecem existir fora do tempo, fotografados no momento errado, sem pessoas, sem propósito aparente.
A estética liminal space explodiu nas redes sociais com fotos de corredores de hotel vazios, escolas de noite, fast-foods fechados e piscinas abandonadas. Esses espaços compartilham uma característica central: são familiares demais para serem assustadores de forma óbvia, mas estranhos o suficiente para causar um desconforto genuíno.
É esse paradoxo que alimenta tanto o fascínio quanto o medo.
Como surgiu o universo dos Backrooms?
Os Backrooms nasceram em 2019, com uma única imagem publicada anonimamente em um fórum da internet. A foto mostrava um ambiente com carpetes amarelados, paredes bege descascando e luz fluorescente zumbindo. A legenda dizia: “se você tirar o mapa do lugar certo, você vai parar aqui”. Simples assim. E devastadoramente eficaz.
A partir daí, a comunidade online construiu uma mitologia inteira ao redor dessa ideia: um labirinto infinito de espaços que não deveriam existir, acessado acidentalmente por quem “sai do mapa” da realidade. Surgiu um universo colaborativo com níveis, criaturas, regras de sobrevivência e uma sensação de terror psicológico que prescinde de jumpscares.
O fenômeno do filme de Kane Parsons
O passo mais significativo dessa trajetória veio com Kane Parsons, um jovem de 20 anos que, aos 16, começou a produzir curtas dos Backrooms no YouTube com uma qualidade cinematográfica impressionante.
Antes de assistir à lista abaixo, vale a pena conferir os principais curtas de Backrooms em ordem cronológica para entender como o projeto evoluiu.
Parsons foi descoberto pela A24, uma das produtoras mais respeitadas do cinema contemporâneo, e o resultado foi um longa-metragem que chegou ao cinema em 2025. A história de como um garoto de 20 anos viralizou com Backrooms e construiu o terror mais ambicioso da A24 é tão fascinante quanto o próprio universo que ele criou.
8 filmes com estética liminal space para fãs de Backrooms
Se você chegou aqui curioso sobre filmes parecidos com Backrooms ou apenas quer entender melhor essa estética que tomou a internet de assalto, está no lugar certo.
A seguir, você vai descobrir 8 obras cinematográficas que habitam esse mesmo espaço indefinido entre o familiar e o perturbador, entre o sonho e o pesadelo.
8. I Saw the TV Glow (2024)
Dirigido por Jane Schoenbechler, I Saw the TV Glow é uma das obras mais perturbadoras e belas dos últimos anos. O filme acompanha dois adolescentes obcecados por um programa de TV de terror e, aos poucos, dissolve as fronteiras entre ficção e realidade.
A fotografia com tons pálidos, os subúrbios vazios da noite e a sensação crescente de que algo fundamental está errado transformam o longa em uma experiência liminar por excelência. Para quem gosta de terror psicológico com camadas de subtext existencial, é indispensável.
7. Pulse (2001)
Muito antes do J-horror virar moda no Ocidente, Kiyoshi Kurosawa entregou um dos filmes mais sombrios e melancólicos do gênero com Pulse.
A premissa gira em torno de fantasmas que invadem o mundo dos vivos pela internet, mas o que realmente assombra são os espaços: apartamentos vazios, ruas desertas, telas pixeladas piscando no escuro. A atmosfera de abandono e desconexão humana dialoga diretamente com a solidão dos Backrooms.
6. Cubo (1997)
Um grupo de desconhecidos acorda dentro de uma estrutura geométrica infinita, repleta de armadilhas mortais e sem explicação aparente. O canadense Cubo, dirigido por Vincenzo Natali, é um exercício de horror existencial que ressoa fortemente com a mitologia dos Backrooms: espaços que se repetem, saídas que não levam a lugar nenhum e a crescente sensação de que o labirinto pode ser eterno.
5. Assim na Terra Como no Inferno (2014)
Baseado na história real de duas mulheres que desceram à Catedral de São Serapião, uma caverna profunda na Espanha, Assim na Terra Como no Inferno é um found footage subterrâneo com uma fotografia opressiva e claustrofóbica.
Os túneis sem fim, a desorientação espacial e o som do ambiente criam uma experiência visceralmente liminar. Quem conhece os níveis mais profundos da mitologia dos Backrooms vai reconhecer imediatamente o território.
4. O Iluminado (1980)
É impossível falar de liminal spaces no cinema sem citar O Iluminado. Stanley Kubrick transformou o Hotel Overlook em um dos cenários mais icônicos da história do terror, e grande parte do efeito vem exatamente da geometria dos corredores, dos tapetes padronizados e da sensação de que o espaço não obedece às leis da física comum.
Caso ainda não tenha assistido, o Backrooms tem potencial que vale a imersão, e O Iluminado é, de certa forma, o ancestral cinematográfico de tudo isso.
3. A Estrada Perdida (1997)
David Lynch é talvez o cineasta que mais habita os liminal spaces de maneira instintiva. Em A Estrada Perdida, ele constrói uma narrativa que desafia a lógica linear, com estradas desertas à noite, casas isoladas e uma câmera que parece deslizar por espaços que não deveriam existir. O horror em Lynch raramente vem de criaturas ou sustos: vem da própria arquitetura do absurdo, da familiaridade distorcida. Território plenamente liminar.
2. Vivarium (2019)
Gemma e Tom ficam presos em um conjunto habitacional idêntico em todos os sentidos: cada rua igual à anterior, cada casa uma cópia perfeita, o céu sempre do mesmo tom de verde artificial. Vivarium, do irlandês Lorcan Finnegan, é uma metáfora social embrulhada em horror existencial puro.
A repetição dos espaços e a impossibilidade de escapar fazem do filme uma das experiências mais próximas dos Backrooms já produzidas. É desconfortável da melhor maneira possível.
1. Skinamarink: Canção de Ninar (2022)
Skinamarink é o filme que mais radicalmente abraça a estética liminal space como linguagem cinematográfica. Filmado com uma câmera Super 8 que parece registrar memórias corrompidas, o longa mostra duas crianças presas em uma casa que vai mudando e se dissolvendo ao redor delas.
Não há personagens claros, não há plot convencional, não há explicações. Só o ambiente, o escuro, e a sensação de que as portas e janelas estão desaparecendo.
Para entender o final explicado de Backrooms e o desfecho do filme de Kane Parsons com mais profundidade, assistir a Skinamarink antes é quase uma preparação necessária.
Os liminal spaces provam que o medo não precisa de monstros visíveis para funcionar. Às vezes, basta um corredor longo demais, uma luz que não apaga e a sensação de que você está num lugar onde não deveria estar.
Os oito filmes desta lista entendem isso profundamente e entregam experiências que ficam na cabeça muito depois dos créditos.
Se você curtiu o tema, compartilhe este artigo com aquele amigo que também não consegue dormir depois de ver fotos de shoppings vazios às três da manhã. E aproveite para explorar mais conteúdos sobre o universo dos Backrooms aqui no Minha Série!
