Campinas passa a ocupar uma posição estratégica no processo de modernização do Exército Brasileiro. A cidade foi oficialmente incluída no grupo de unidades consideradas prioritárias dentro da nova Política de Transformação do Exército, que prevê investimentos em tecnologia, inteligência, mobilidade e preparação para os chamados conflitos multidomínio até 2040.
A mudança ocorre com a integração da 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada de Campinas às Forças de Emprego de Prontidão (FEP), estrutura formada por tropas preparadas para atuar rapidamente em qualquer região do território nacional.
A iniciativa faz parte do projeto “Força 40“, programa que busca adaptar o Exército Brasileiro aos desafios geopolíticos, tecnológicos, cibernéticos e operacionais do século XXI. A política foi formalizada em abril deste ano e estabelece diretrizes para a transformação da Força Terrestre nas próximas décadas.
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Campinas está entre as cinco brigadas de pronta resposta do país
De acordo com o comandante da 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada, general Deocleciano José de Santana Netto, Campinas integra um grupo restrito de unidades consideradas estratégicas para a defesa nacional.
“Nós temos forças que já estão desdobradas nas fronteiras e temos as Forças de Emprego de Prontidão, que são forças que precisam ter mobilidade estratégica para serem empregadas em qualquer parte do território nacional em determinado período de tempo. Hoje são cinco brigadas. Dentre essas cinco, uma é a 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada”
Segundo o comandante, a unidade campineira faz parte de um projeto nacional de fortalecimento das forças blindadas e mecanizadas do Exército.
“Nós, aqui na Infantaria Mecanizada, estamos dentro de um projeto de forças blindadas. O que ele prevê é que, até 2040, algumas brigadas de infantaria estejam totalmente mecanizadas. Nós estamos nesse projeto e a expectativa é atingir o potencial máximo de geração de poder de combate com recursos humanos capacitados e novos sistemas de materiais.”
Modernização prevê novas tecnologias e aumento da capacidade operacional

Na prática, a inclusão de Campinas no sistema das Forças de Emprego de Prontidão acelera o processo de modernização das unidades militares instaladas na cidade.
O plano contempla investimentos em mobilidade estratégica, proteção das tropas, logística, sistemas de comando e controle, inteligência militar e incorporação gradual de novas tecnologias voltadas à defesa.
A proposta também prevê o aperfeiçoamento contínuo dos recursos humanos e a ampliação da capacidade de resposta diante de diferentes cenários operacionais.
Projeto busca ampliar capacidade de defesa do território nacional
Segundo o general Santana Netto, a transformação do Exército está baseada no desenvolvimento de capacidades operacionais que permitam ampliar a eficiência das tropas em missões de defesa e proteção do território brasileiro.
“A ideia é que você gere capacidades para entregar poder de combate lá na ponta da linha. Ou seja, uma capacidade de fazer a defesa territorial e garantir a inviolabilidade das fronteiras do Brasil.”
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Campinas no centro da estratégia militar
A escolha de Campinas, entre outras unidades, para integrar esse novo modelo não ocorre por acaso. Além da localização estratégica e da infraestrutura logística, a cidade também concentra universidades, centros de pesquisa e empresas de tecnologia que vêm aproximando o município do setor de defesa nacional.
Esse movimento ganhou ainda mais força com o anúncio da criação de um novo polo tecnológico do Exército em Campinas, em parceria com a Prefeitura e o Governo do Estado de São Paulo.
O memorando de entendimento para os estudos do futuro Centro de Ciência e Tecnologia do Exército foi assinado em agosto pelo prefeito Dário Saadi, pelo chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, general Achilles Furlan Neto, e pelo secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan.
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Futuro parque tecnológico em área da Coudelaria do Exército
O futuro parque tecnológico será implantado em uma área da Coudelaria do Exército, entre Campinas e Valinhos, com cerca de 200 mil metros quadrados destinados ao projeto. A proposta prevê a instalação de startups e empresas voltadas às áreas de defesa, vigilância, inteligência e segurança.
Segundo o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), Campinas foi escolhida por já possuir vocação consolidada para ciência, tecnologia e inovação. A expectativa do Exército é que o novo centro ajude a fortalecer a soberania nacional em áreas estratégicas ligadas ao desenvolvimento tecnológico.
Para Santana Netto, a vocação tecnológica da cidade foi determinante para a escolha.
“Campinas é um polo tecnológico forte, muitas startups estão sediadas aqui e existem centros universitários de referência no país. A proximidade geográfica pode favorecer essas parcerias e potencializar os resultados”
O general também avalia que o futuro parque tecnológico poderá acelerar a modernização da Força.
“O polo tecnológico aqui pode ser um indutor de transformações. Esse foi o viés que o Exército entendeu como mais apropriado para esse salto tecnológico da Força”
Principais tecnologias misturam inovações brasileiras e do exterior

Entre os principais equipamentos da Brigada de Infantaria Mecanizada de Campinas está a VBTP-MR Guarani, considerada um dos maiores avanços tecnológicos da Força Terrestre brasileira nas últimas décadas. O blindado anfíbio 6×6 foi desenvolvido em parceria entre o Exército Brasileiro e a Iveco Defence Vehicles (IDV) e combina alta mobilidade, proteção antiminas e versatilidade operacional. Com capacidade para transportar até 11 militares, o Guarani pode atuar em operações mecanizadas, patrulhamento de fronteira, missões de paz e ações em ambientes urbanos.
O veículo ainda possui autonomia de cerca de 600 quilômetros, velocidade superior a 100 km/h e aproximadamente 90% de componentes nacionalizados, fortalecendo a Base Industrial de Defesa brasileira.
Segundo o general Deocleciano José de Santana Netto, a nacionalização desses recursos é estratégica para o País, especialmente diante do atual cenário internacional.
“Materiais que o Exército compra, que já estão prontos no mercado, podem ser uma solução, mas também podem ser um problema, porque você fica dependente de uma tecnologia da qual não tem o domínio da cadeia de produção”
O blindado pode receber diferentes sistemas de armas, como a torre blindada ALLAN PLATT MR-550 e o SARC REMAX, desenvolvido no Brasil pela ARES em parceria com o Centro Tecnológico do Exército (CTEx). Enquanto a torre MR-550 oferece maior proteção ao atirador e melhor consciência situacional em operações urbanas, o REMAX permite disparos precisos mesmo com a viatura em movimento, utilizando câmeras termais, telêmetro laser e operação remota de dentro do blindado.

Outro destaque é o míssil anticarro Spike LR2, de quinta geração, fabricado pela empresa israelense Rafael Advanced Defense Systems. Com alcance de até 5,5 quilômetros e auxílio de inteligência artificial para identificação de alvos, o sistema amplia significativamente o poder de combate das tropas mecanizadas.
Cidade cenográfica já começa a sair do papel

Outra frente importante dessa transformação está no Centro de Instrução de Operações Urbanas (CIOU), ligado ao 28º Batalhão de Infantaria Mecanizada, em Campinas.
Parte da chamada “cidade cenográfica” do Exército já está em funcionamento, com alguns blocos utilizados em treinamentos, mas o complexo continuará sendo ampliado nos próximos anos.
O projeto prevê a construção de uma estrutura que simula um ambiente urbano real, com ruas, torres, residências e áreas de treinamento voltadas para operações militares em cidades. O espaço será usado para capacitar tropas em cenários de combate urbano, resgate, gerenciamento de crises e operações em áreas densamente povoadas.
Segundo Santana Netto, o centro já recebe militares de diversas regiões do país para capacitações específicas.
“Hoje alguns módulos já estão funcionando. Militares de todos os comandos militares de área vêm para Campinas e são os vetores de disseminação desse tipo de conhecimento”
Atualmente, o CIOU utiliza estruturas temporárias feitas com containers. O Exército afirma que a falta de realismo impacta diretamente na preparação operacional das tropas. A nova estrutura busca reduzir esse problema e ampliar a capacidade de treinamento.
“O que estamos fazendo é o aperfeiçoamento das estruturas que já existem, incorporando novas tecnologias para que o efeito de simulação seja o mais real possível. Quanto mais próximo da realidade, maior será a capacitação desse vetor humano”
O projeto completo prevê 66 estruturas distribuídas em quadras, incluindo torres de observação, edificações de grande porte e estações específicas para simulação de combate urbano.
Guerra híbrida e tecnologia
A transformação do Exército Brasileiro ocorre em um cenário global marcado pelo avanço de guerras híbridas, operações cibernéticas, uso de drones, inteligência artificial e disputas informacionais.
De acordo com a Política de Transformação, os conflitos modernos deixaram de se limitar ao combate tradicional e passaram a envolver operações simultâneas nos ambientes terrestre, aéreo, marítimo, espacial e cibernético.
O Exército também acompanha as transformações observadas nos conflitos recentes. Segundo o general, o Departamento de Ciência e Tecnologia já desenvolve estudos voltados ao uso de drones e inteligência artificial.
“Hoje é fato que todos os exércitos do mundo vão migrar para essas tecnologias. Estamos estudando o emprego de enxames de drones e desenvolvemos um sistema de inteligência artificial do Exército que atualmente está em fase de treinamento”
Dentro desse contexto, Campinas passa a concentrar projetos considerados estratégicos para o futuro da defesa nacional, reunindo treinamento operacional, pesquisa tecnológica e desenvolvimento de novas capacidades militares.
A expectativa do Exército é que as mudanças implementadas nas próximas décadas permitam que a Força Terrestre aumente sua capacidade de resposta e de atuação em cenários complexos, mantendo presença estratégica e capacidade de dissuasão em todo o território brasileiro.
Apesar dos avanços previstos, Santana Netto afirma que o principal desafio continua sendo equilibrar os investimentos necessários com os recursos disponíveis.
“Hoje, o maior desafio da Força é compatibilizar o orçamento com as necessidades de capacitação operacional. Tecnologia envolve recurso, envolve capacitação, e o orçamento é que vai dar a exata medida de como você vai conseguir atingir essas capacidades”
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