Ao longo de 18 anos, aventureiros atravessavam cantos remotos do planeta em comboios de jipes 4×4 em um tom de amarelo puxado para o ocre. Range Rover, Discovery, Freelander e, claro, o Defender foram submetidos aos mais diferentes desafios embrenhados na Amazônia, na Sibéria, na Mongólia e em diversas partes da África. Era o Camel Trophy, evento que conquistou a importância de uma olimpíada dos 4×4, que o novo Defender Trophy faz questão de relembrar.
Não há aventura mais icônica associada à Land Rover, mesmo que o evento tenha sido criado pela fabricante de cigarros Camel (R.J. Reynolds) como uma estratégia de marketing. Começou no Brasil em 1980, quando três grupos de aventureiros alemães atravessaram o estado do Pará, de Belém a Santarém com… três Ford Jeep. A Land Rover começou a fornecer os carros em 1981 e seguiu apoiando o evento com carros de competição e apoio até 1999.
Existe uma versão moderna do evento, o Land Rover Trophy. Envolve desafios que colocam à prova a capacidade de pilotagem, o condicionamento físico e a engenhosidade dos participantes, e também atividades de preservação da natureza – cortar árvores centenárias para construir pontes deixou de ser uma opção.

Houve etapas eliminatórias regionais em alguns países, antecedendo o evento principal, que será na África, em outubro. E o Defender 110 Trophy Edition mostrado aqui é uma interpretação moderna do Defender original, com alguns elementos que remetem àqueles 110 que na edição de 1984 foram de Santarém a Manaus.

Essa versão traz snorkel, para elevar a admissão de ar do motor (a capacidade de imersão é de 90 cm), um bagageiro no teto bem robusto, capô (de alumínio) pintado de preto e para-barros, além de ter uma escada dobrável do lado esquerdo e um porta-objetos externo do lado direito como equipamentos de série. Ambos são opcionais para os Defender mais, digamos, urbanos.

Mas o que contribui muito com a estética aventureira são as rodas aro 20, que parecem convencionais, de aço estampado pintado de preto, mas são forjadas em liga leve e estão calçadas com pneus de uso misto. Elas combinam bastante com as molduras das caixas de roda, com acabamento em preto brilhante, que as torna mais vulneráveis a esbarrões e arranhões causados por galhos em eventuais trilhas. Em outras versões, este item pode ser de plástico fosco.

O amarelo Deep Sandglow não é a única cor de carroceria disponível, também existe o verde Keswick. É a única opção disponível para esta série especial e não altera o preço final de R$ 899.990. Não é o Defender mais caro à venda no Brasil: o Defender 110 X, que é mais discreto e tem acabamento interno com materiais mais nobres, sai por R$ 909.990.

O amarelo volta a aparecer na cabine do Defender Trophy. Primeiro porque todo Defender tem parte de lataria da porta exposta por dentro, faz parte da sua personalidade. Em segundo porque a faixa central do painel, que também pode ser usada como porta-objetos, acompanha a cor da carroceria.
Essa área tem um revestimento de borracha que também aparece na lateral do console central, inclusive ao redor do seletor de marcha, reforçando as peças. Todo o resto da cabine é preto, inclusive o couro dos bancos, do tipo Windsor.


A preocupação com a praticidade reaparece no piso, revestido de material impermeável por baixo dos tapetes, que têm bordas de borracha. Assoalho e laterais do porta-malas contam com revestimento rígido, também focado na durabilidade.
Mesmo que a cabine não venha com uma terceira fila de assentos, há saídas e controle de ar-condicionado no porta-malas, além de botões para controlar a altura da suspensão pneumática, que é padrão nesta versão. Esta suspensão, aliás, pode elevar o carro em 7,5 cm: o vão livre do solo aumenta de 21,8 cm para 29,3 cm, se necessário, no modo off-road.

Repare nos controles do ar-condicionado mostrados na página ao lado. Há uma divisão entre os comandos. Os que estão à esquerda operam suspensão, modos de condução, assistente de descida, start-stop e controle de tração. Os da direita é que controlam o ar-condicionado.
Os botões giratórios de temperatura têm função dupla: o que está associado à tração também controla os modos de operação, enquanto o outro ajusta a zona de temperatura do carona e a velocidade da ventilação (da mesma forma que se vê nos Fiat Pulse e Fastback). E ainda há duas zonas de temperatura para o banco de trás.

O mais importante é que os modos de tração (o chamado Terrain Response II) estão estreitamente vinculados ao funcionamento da suspensão e dos bloqueios central e traseiro. No off-road, a eletrônica se encarrega de gerir quando cada blocante precisa atuar, ou quando marchas reduzidas devem ser convocadas no câmbio automático de oito marchas. O carro cumpre suas missões, em qualquer situação, sem reclamar ou mostrar incapacidade.

Para reforçar a sensação deste carro ser capaz de encarar todos obstáculos, desde 2025 o Defender 110 é importado apenas com o motor seis-cilindros em linha 3.0 turbo diesel da família Ingenium, híbrido leve 48 V, com 350 cv e 71,3 kgfm. Ele surpreende tanto por ser muito silencioso e suave para um motor a diesel quanto pelas respostas contundentes, com uma entrega de força compatível com o porte e o peso do carro.
Vem a calhar que o torque máximo esteja disponível a 1.500 rpm, fazendo o SUV parecer pesar muito menos que seus 2.436 kg. O tempo de 0 a 100 km/h de 6,4 s, declarado pela fábrica, corrobora para essa sensação.

Você pode pensar que o tamanho do Defender 110 é incômodo no trânsito. Eu digo que ele me fez descobrir que alguns shoppings disparam alarmes quando o carro ultrapassa certa altura (culpa do bagageiro, mas resolvi colocando a suspensão na altura mínima). Outro argumento é este Trophy Edition ser muito extravagante, mas ao menos ele faz jus a tudo que prometeu, da homenagem ao Camel Trophy à capacidade off-road.

O Defender Trophy Edition está muito longe de ser uma compra racional, mas o Defender por si só, que parte dos R$ 799.490 na versão 90, com duas portas, é um dos poucos SUVs de luxo que não temem a lama e muita gente aprecia isso: desde 2025, o Defender é o Land Rover mais vendido do Brasil – de janeiro a junho, foram 625 contra 191 Discovery Sport e 185 Range Rover Sport. Quem diria…
Veredicto
O Defender Trophy tem tudo aquilo que se espera de um bom carro para o off-road, da suspensão à tração, passando por itens que seriam acessórios, como pneus de uso misto e o snorkel. O mais legal é que, por mais que seja um carro de luxo, ele faz jus a tudo que tem e não teme nenhum obstáculo.
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Galeria de fotos
Ficha técnica – Land Rover Defender 110 Trophy Edition
Preço: R$ 899.990
Motor: diesel, dianteiro, seis cilindros em linha, longitudinal, turbo, 2.997 cm³; 350 cv a 4.000 rpm; 71,3 kgfm entre 1.500 e 3.000 rpm; híbrido leve 48 V
Direção: elétrica, 13,1 m de diâmetro de giro
Suspensão: duplo A (dianteiro), multilink (traseiro); molas pneumáticas e amortecedores CCD
Freios: disco ventilado (diant.e tras.)
Pneus: 255/60 R20
Dimensões: comprimento 501,8 cm; largura 210,5 cm; altura 196,7 m; entre-eixos 302,2 cm, peso 2.436 kg, vão livre 18,8 cm a 29,6 cm; porta-malas 786 litros
Desempenho*: 0 a 100 km/h em 6,4 s; velocidade máxima de 191 km/h
*Dados de fábrica















































