Um ex-piloto da Voepass, empresa responsável pelo avião que caiu em Vinhedo em 2024 e matou 62 pessoas, divulgou um áudio enviado por um funcionário de manutenção da empresa pedindo a omissão de uma falha para que avião pudesse decolar novamente.
De acordo com o ex-piloto, a mensagem foi enviada poucos meses após a queda do avião em Vinhedo. Segundo ele, esse tipo de orientação fazia parte do ambiente de trabalho vivido pelos profissionais da companhia.
O piloto que recebeu o áudio preferiu não ser identificado.
A gravação, obtida pelo repórter André Rosa da EPTV Campinas, foi enviada logo depois do pouso e reforça uma das principais conclusões do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do ATR em Vinhedo (SP), em agosto de 2024.
Na mensagem, o funcionário pede que o comandante não relate uma falha em um componente identificado como “PACK”, alegando que outro piloto assumiria a aeronave em seguida. O objetivo, segundo o próprio áudio, era evitar que o avião fosse classificado como AOG (“Aircraft on Ground”), condição que impede a continuidade das operações até a correção do problema.
“(…) precisava que você entrasse em contato com o ***, é ele que vai assumir o seu avião aí (…) Só pra não reportar pra não ficar AOG aí, tá?”
Voepass: relatório aponta normalização de desvios na empresa
O conteúdo da gravação vai ao encontro do que foi apontado pelo Cenipa durante a apresentação do relatório final da investigação.
Segundo os investigadores, havia uma cultura de normalização dos desvios dentro da Voepass, em que panes e falhas deixavam de ser registradas no diário de bordo para evitar que as aeronaves fossem retiradas de operação.

O órgão concluiu que pilotos e mecânicos, em algumas situações, deixavam de documentar problemas técnicos para manter a disponibilidade dos aviões, comprometendo a gestão dos riscos operacionais.
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Ex-piloto relata frustração
Ao comentar o cenário revelado pela investigação, o ex-piloto da companhia afirmou que deixou a empresa frustrado e sem se sentir seguro diante das condições enfrentadas durante as operações.
O relatório do Cenipa aponta a cultura operacional da Voepass e à forma como falhas técnicas eram tratadas antes do acidente como um dos fatores que levaram à tragédia em Vinhedo.
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Recomendações para aumentar a segurança

O relatório final apresentou recomendações tanto para a fabricante do ATR quanto para a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Entre as medidas sugeridas à fabricante estão:
- alteração dos alertas de desempenho para exigir ação imediata dos pilotos quando houver perda de velocidade;
- criação de regras específicas para curvas em condições de gelo;
- ampliação dos dados registrados pela caixa-preta;
- melhorias no sistema de alertas para aumentar a percepção da tripulação sobre situações críticas.
O Cenipa também recomendou que a Anac:
- revise os checklists utilizados pelas empresas que operam aeronaves ATR no Brasil;cej
- aprimore a comunicação entre tripulações e equipes de solo sobre riscos operacionais;
- fortaleça os processos de fiscalização das companhias aéreas;
- divulgue as conclusões da investigação para ampliar a conscientização dos pilotos;
- acompanhe internacionalmente a implementação das mudanças sugeridas para o projeto da aeronave.
Voepass, Anac e Polícia Federal se manifestam após divulgação do relatório


Após a divulgação do relatório final do Cenipa, a Voepass informou que não teve acesso nem conhecimento do áudio divulgado pela reportagem. A empresa afirmou ainda que possuía um sistema formal para comunicação de falhas em equipamentos e que suas equipes eram orientadas a seguir rigorosamente esse procedimento. Em relação às conclusões da investigação, a companhia declarou que permanece à disposição para colaborar com o Cenipa e com as autoridades públicas, reforçando que sempre adotou procedimentos de segurança, capacitação e orientação das tripulações.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que realizará uma análise técnica detalhada das recomendações apresentadas pelo Cenipa. Segundo a agência, o prazo para conclusão dessa avaliação é de até quatro meses.
Já a Polícia Federal informou que pretende concluir o inquérito sobre o acidente em agosto. A investigação é baseada em dois laudos periciais elaborados pelo Instituto Nacional de Criminalística, com apoio técnico do Cenipa. De acordo com a corporação, os documentos reúnem elementos técnicos e científicos que, confrontados com depoimentos e outras provas, poderão indicar se houve falhas humanas ou materiais capazes de justificar eventual responsabilização criminal.
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