Uma vulnerabilidade presente em cartões SIM e nos modems de conexão celular permite que invasores assumam o controle de dispositivos. A falha funciona como uma porta de entrada invisível: ao interagir diretamente com a peça responsável por conectar o aparelho à rede, um chip adulterado consegue enviar ordens e tomar o controle do equipamento sem que o sistema principal perceba.
A brecha afeta principalmente equipamentos da Internet das Coisas (IoT), como carregadores de veículos elétricos, roteadores industriais e sistemas automotivos, além de alguns modelos específicos de celulares.
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Pesquisadores da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e da empresa de segurança Fuzzware testaram 26 dispositivos e constataram que nove aceitaram os comandos maliciosos enviados pelo chip. Entre os equipamentos testados, seis de oito módulos celulares de IoT e três de 18 smartphones responderam às instruções de invasão. Os aparelhos vulneráveis identificados foram os modelos Find X5 e Reno 14 F 5G (ambos da Oppo) e o Zenfone 9 (Asus). Nenhum modelo da Apple ou da Google apresentou o problema
A brecha ocorre devido a um recurso chamado “RUN AT”, que deriva da linguagem de controle AT, criada para modems em 1981, de acordo com a pesquisa apresentada na conferência “USENIX WOOT”, realizada neste mês em Maryland, nos Estados Unidos. O mecanismo permite que o cartão SIM envie instruções diretas ao modem do aparelho sem depender do sistema operacional principal e funcione, na prática, como um painel de controle direto sobre o hardware.
Professor assistente de Ciência da Computação na Universidade de Birmingham, Marius Muench explicou, em comunicado, que esse recurso é parte das regras do próprio sistema. A capacidade proativa do SIM e a superfície de ataque que ela abre são “explicitamente definidas nas especificações técnicas para comunicação celular”, segundo o especialista.
O pesquisador destacou que essa diferenciação muda a forma de resolver o problema. “Os erros individuais são falhas comuns e podem ser corrigidos; a interface que os expõe é uma capacidade documentada, e desligá-la é uma decisão que cada fabricante toma para seus próprios produtos”, afirmou Muench, em entrevista ao The Hacker News.
A estrutura desses aparelhos aumenta o risco em dispositivos inteligentes, pois a maioria desses módulos carrega um pequeno computador interno para gerenciar as funções de rede. No relatório, os autores destacam que essa combinação abre um caminho facilitado para invasões, o que transforma a máquina em “uma rica superfície de ataque para chips hostis”.
Como o ataque acontece e os impactos na prática
Para realizar o ataque, o cibercriminoso precisa trocar o chip fisicamente, encaixar uma pequena película adaptadora no leitor de cartão ou adulterar o componente ainda na linha de produção e distribuição. Por isso, aparelhos conectados que ficam na rua ou em locais públicos sem vigilância constante são os mais expostos.
Nos testes práticos, os cientistas utilizaram o chip alterado para assumir o controle total de um carregador comercial de carros elétricos da marca Autel. Em demonstração no celular Reno 14 F 5G, o envio de comandos pelo chip prendeu o telefone na antiga rede 2G. A alteração impediu o usuário de navegar em redes modernas e não pôde ser desfeita nem ao reiniciar o aparelho ou alterar as configurações.
Muench ressaltou a incerteza sobre o alcance total da vulnerabilidade em equipamentos em uso pelo mundo. “A equipe está bastante confiante de que cada módulo nas séries EC25, EG25 e RM52xN da Quectel está afetado”, declarou o pesquisador. Ele acrescentou que esses componentes aparecem em carros, maquininhas de cartão e outros dispositivos, mas que a falta de atualizações públicas de sistema “torna a exposição difícil de verificar em escala”.
Todos os nove dispositivos afetados utilizam processadores de comunicação desenvolvidos pela Qualcomm. A empresa informou que criou uma trava de segurança que desativa essa função por padrão nos novos chips.
Já a fabricante de módulos Quectel afirmou que corrigiu falhas de acesso a arquivos e trabalha em atualizações para proteger a interface de comando. Até a publicação desta matéria, nenhuma invasão real usando essa brecha foi identificada.
Por falar em vulnerabilidades no universo digital, um vírus desenvolvido por autoridades para invadir iPhones se popularizou entre criminosos. Siga o TecMundo no X, Instagram, Facebook e YouTube e assine a nossa newsletter para receber as principais notícias e análises diretamente no seu e-mail.
