A BYD está enfrentando mais uma denúncia de más condições de trabalho. Desta vez, o caso ocorreu na Hungria, onde a montadora chinesa constrói uma fábrica com capacidade para produzir 300.000 veículos por ano, na cidade de Szeged.
A acusação vem da China Labor Watch (CLW), uma organização sem fins lucrativos sediada nos EUA e fundada em 2000, que defende os direitos trabalhistas na China. A entidade investigou a planta húngara e entrevistou mais de 50 funcionários que trabalham nas obras da fábrica, com identidade preservada.
A rede canadense CBC teve acesso às investigações e, segundo a reportagem, apontou possíveis violações das leis trabalhistas e migratórias húngaras, incluindo:
- Semanas de trabalho de sete dias, sem descanso, com relatos de que os funcionários eram instruídos a mentir para inspetores sobre a jornada.
- Turnos de até 12 ou 14 horas, com apenas uma breve pausa para refeições e sem pagamento de horas extras.
- Atrasos salariais de até três meses, com retenção de pagamentos finais até o retorno à China.
- Taxas elevadas de recrutamento, caracterizando possível servidão por dívida.
- Entrada no país com vistos comerciais, em vez de permissões de trabalho, deixando trabalhadores vulneráveis e sem acesso a serviços básicos.
Conforme explica Elaine Lu, diretora de processos da CLW, alguns pontos das denúncias são semelhantes ao caso ocorrido na fábrica de Camaçari (BA). Ela classificou as condições como “bastante horríveis” e afirmou que, ao ser questionada, a montadora transferiu a responsabilidade para uma empresa contratada.
A CLW explica que essas cadeias de subcontratação dificultam a responsabilização legal por más condições de trabalho. No Brasil, inicialmente, a BYD atribuiu a responsabilidade às empreiteiras. No entanto, tanto a montadora quanto as duas empresas envolvidas — entre elas a Jinjiang, que também participa da obra na Hungria por meio da Construction Hungary KFT — firmaram acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e pagaram R$ 40 milhões.
A questão salarial também aproxima os dois casos. No Brasil, segundo o MPT, trabalhadores pagavam caução, tinham 60% dos salários retidos e recebiam apenas 40% em moeda chinesa. Além disso, enfrentavam custos elevados para rescindir o contrato e tinham passaportes retidos pela Jinjiang.

Quem optasse pela rescisão perdia o caução e os valores retidos, além de arcar com a passagem de volta à China e restituir o custo da viagem de ida.
Em fevereiro, um trabalhador morreu no canteiro de obras da fábrica da BYD na Hungria, caso que chamou a atenção da mídia local e da CLW. Segundo as investigações, a suspeita inicial era de negligência.
“Esperamos que a BYD leve essas violações e conclusões muito a sério, pois se tratam de infrações às leis locais e a padrões internacionais”, disse Lu.
