O então chefe dos pilotos da Voepass à época do acidente aéreo que matou 62 pessoas em Vinhedo será um dos indiciados pela PF (Polícia Federal). A informação foi apurada pela EPTV, afiliada da TV Globo. A empresa só vai se pronunciar após a apresentação oficial do relatório e o funcionário não se manifestou até a publicação desta reportagem.
Documentos públicos consultados pela reportagem identificam Rafael Gimenez Rodrigues como o ocupante do cargo quando ocorreu a queda do ATR 72-500, em 9 de agosto de 2024. Além dele, outros integrantes da administração da companhia aérea também deverão ser indiciados, segundo a apuração.
A Polícia Federal convocou uma coletiva de imprensa para as 14h desta quinta-feira (6), quando apresentará o relatório final do inquérito que investigou as circunstâncias do acidente.
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Diferentemente da investigação conduzida pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), que tem caráter preventivo e busca apontar fatores contribuintes para evitar novos acidentes, o inquérito da PF tem natureza criminal e apura a existência de eventuais crimes e responsabilidades individuais.
Com a conclusão da investigação, caberá ao MPF (Ministério Público Federal) analisar o relatório e decidir sobre o eventual oferecimento de denúncia contra os indiciados.
Outro lado
A reportagem do Grupo EP procurou Rafael Gimenez Rodrigues e aguardava manifestação até a última atualização deste texto.
Em nota, a Voepass informou que aguardará a divulgação oficial do relatório da Polícia Federal para conhecer seu conteúdo antes de se pronunciar.
Conversas da cabine integraram investigação
No fim de junho, representantes das famílias das vítimas tiveram acesso à transcrição das conversas registradas na cabine do avião. O material integra o laudo elaborado pelo INC (Instituto Nacional de Criminalística), utilizado como base para o inquérito da Polícia Federal.
Os diálogos eram considerados um dos principais elementos da investigação por permitirem reconstituir os momentos finais do voo, incluindo as comunicações dos pilotos sobre o sistema de degelo da aeronave, um dos pontos centrais das apurações.
Segundo os advogados que representam familiares das vítimas, o relatório da PF deverá servir de base para a atuação do Ministério Público Federal e para futuras ações judiciais.
O que investigou o Cenipa
Paralelamente ao trabalho da Polícia Federal, o Cenipa realizou uma investigação técnica para identificar os fatores que contribuíram para o acidente.
Entre os procedimentos realizados pelo órgão estão a análise das caixas-pretas, exames nos motores e no sistema de degelo, avaliação das condições meteorológicas, entrevistas com pilotos, mecânicos e outros profissionais, estudos sobre milhares de voos da mesma frota, testes em simuladores e análises de registros de manutenção e certificações da aeronave e da tripulação.
Após a divulgação do relatório da PF, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais.
Relembre o acidente
O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024, quando um ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP).
A aeronave da Voepass caiu sobre o quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo. As 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram. Nenhum morador da casa atingida ficou ferido.
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Mais sobre o acidente da Voepass: caixa-preta mostra piloto e co-piloto relatando falha no sistema de degelo antes de queda; veja diálogo
A análise da caixa-preta do avião da Voepass que caiu em Vinhedo, em agosto de 2024, revela que os pilotos enfrentaram sucessivos problemas no sistema de degelo antes da perda de controle da aeronave. O conteúdo faz parte do laudo elaborado pela PF (Polícia Federal), ao qual o Fantástico/TV Globo teve acesso.
Segundo a investigação, o equipamento responsável por impedir o acúmulo de gelo já apresentava falhas em voos anteriores. Mesmo assim, a aeronave continuou em operação.
No voo realizado entre Guarulhos e Cascavel, pouco antes da viagem que terminou em tragédia, o comandante comenta o desprendimento do gelo da aeronave.
Piloto: “O lá o gelo… o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.”
Após o pouso, o copiloto elogia a condução do voo.
Copiloto: “Muito bom, comandante”.
Em seguida, o comandante responde:
Piloto: “Chegamos vivos”.

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Alertas no avião da Voepass começaram logo após a decolagem
De acordo com o laudo da PF, poucos minutos após a decolagem do voo que caiu em Vinhedo, surgiu um alerta indicando falha no sistema pneumático de degelo.
Piloto: “É o ‘Airframe’ que deu ‘fault’… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…”
Airframe (traduzido para o português como célula ou estrutura da aeronave) é o esqueleto mecânico de um avião ou helicóptero. Ele engloba a fuselagem, asas, trem de pouso e empenagem (cauda), mas exclui os motores e sistemas de propulsão
Um “fault” (falha) em avião é qualquer anomalia, defeito ou mau funcionamento em um sistema, componente ou instrumento da aeronave. Emite-se um alerta para a tripulação no painel (por exemplo, “AIRFRAME FAULT” para problema na estrutura), acionando luzes de aviso ou mensagens de erro.
Na sequência, enquanto discutiam as condições meteorológicas, o comandante fez uma comparação com um personagem conhecido do cinema.
Copiloto: “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”
Piloto: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo.”
Segundo a Polícia Federal, o alerta AIRFRAME FAULT indicava uma falha no sistema responsável pelo degelo da estrutura da aeronave. O manual do fabricante determinava que, diante dessa condição, a tripulação deixasse imediatamente a área com formação de gelo. Os dados analisados, porém, indicam que isso não ocorreu.

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“Essa b… não tá funcionando”
Já na aproximação para São Paulo, quase uma hora depois da decolagem, o acúmulo de gelo volta a ser tema da conversa na cabine do avião da Voepass.
Copiloto: “Bastante gelo.”
Ao tentar novamente acionar o sistema, ele diz:
Copiloto: “Ligar o airframe.”
O comandante responde:
Piloto: “Essa bosta não tá funcionando, né?”
Copiloto: “É.”
Na sequência, os registros captam novas manifestações da tripulação:
Copiloto: “Gelo.”
Alarme de estol – 48 segundos.
O alarme de estol é um sistema de aviso na cabine que alerta os pilotos antes que a aeronave perca a sustentação. Ele dispara quando o avião voa com um ângulo de inclinação muito alto em relação ao vento, avisando que a velocidade está prestes a ficar insuficiente.
Copiloto: “Gelo.”
Segundo o laudo, os computadores de bordo passaram a emitir uma sequência de alertas, incluindo avisos de perda de desempenho e recomendação para aumento de velocidade. Em seguida, o avião entrou em estol, perdeu sustentação, entrou em parafuso e caiu.
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