A análise da caixa-preta do avião da Voepass que caiu em Vinhedo, em agosto de 2024, revela que os pilotos enfrentaram sucessivos problemas no sistema de degelo antes da perda de controle da aeronave. O conteúdo faz parte do laudo elaborado pela PF (Polícia Federal), ao qual o Fantástico/TV Globo teve acesso.
Segundo a investigação, o equipamento responsável por impedir o acúmulo de gelo já apresentava falhas em voos anteriores. Mesmo assim, a aeronave continuou em operação.
No voo realizado entre Guarulhos e Cascavel, pouco antes da viagem que terminou em tragédia, o comandante comenta o desprendimento do gelo da aeronave.
Piloto: “O lá o gelo… o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.”
Após o pouso, o copiloto elogia a condução do voo.
Copiloto: “Muito bom, comandante”.
Em seguida, o comandante responde:
Piloto: “Chegamos vivos”.
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Alertas começaram logo após a decolagem
De acordo com o laudo da PF, poucos minutos após a decolagem do voo que caiu em Vinhedo, surgiu um alerta indicando falha no sistema pneumático de degelo.
Piloto: “É o ‘Airframe’ que deu ‘fault’… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…”
Airframe (traduzido para o português como célula ou estrutura da aeronave) é o esqueleto mecânico de um avião ou helicóptero. Ele engloba a fuselagem, asas, trem de pouso e empenagem (cauda), mas exclui os motores e sistemas de propulsão
Um “fault” (falha) em avião é qualquer anomalia, defeito ou mau funcionamento em um sistema, componente ou instrumento da aeronave. Emite-se um alerta para a tripulação no painel (por exemplo, “AIRFRAME FAULT” para problema na estrutura), acionando luzes de aviso ou mensagens de erro.
Na sequência, enquanto discutiam as condições meteorológicas, o comandante fez uma comparação com um personagem conhecido do cinema.
Copiloto: “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”
Piloto: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo.”
Segundo a Polícia Federal, o alerta AIRFRAME FAULT indicava uma falha no sistema responsável pelo degelo da estrutura da aeronave. O manual do fabricante determinava que, diante dessa condição, a tripulação deixasse imediatamente a área com formação de gelo. Os dados analisados, porém, indicam que isso não ocorreu.

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“Essa b… não tá funcionando”
Já na aproximação para São Paulo, quase uma hora depois da decolagem, o acúmulo de gelo volta a ser tema da conversa na cabine.
Copiloto: “Bastante gelo.”
Ao tentar novamente acionar o sistema, ele diz:
Copiloto: “Ligar o airframe.”
O comandante responde:
Piloto: “Essa bosta não tá funcionando, né?”
Copiloto: “É.”
Na sequência, os registros captam novas manifestações da tripulação:
Copiloto: “Gelo.”
Alarme de estol – 48 segundos.
O alarme de estol é um sistema de aviso na cabine que alerta os pilotos antes que a aeronave perca a sustentação. Ele dispara quando o avião voa com um ângulo de inclinação muito alto em relação ao vento, avisando que a velocidade está prestes a ficar insuficiente.
Copiloto: “Gelo.”
Segundo o laudo, os computadores de bordo passaram a emitir uma sequência de alertas, incluindo avisos de perda de desempenho e recomendação para aumento de velocidade. Em seguida, o avião entrou em estol, perdeu sustentação, entrou em parafuso e caiu.
O que concluiu a Polícia Federal
A investigação da Polícia Federal aponta que o acidente foi provocado por um conjunto de fatores, entre eles falhas recorrentes no sistema de degelo, operação da aeronave em uma região com intensa formação de gelo, descumprimento de procedimentos previstos pelo fabricante e falhas sucessivas nas barreiras de segurança que deveriam impedir o acidente.
O relatório da PF tem caráter criminal e busca identificar eventuais responsabilidades penais. Já a investigação conduzida pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) tem finalidade exclusivamente preventiva e não atribui culpa. Relembre o que o Cenipa apontou.
Segundo apuração do Fantástico, a Polícia Federal deve concluir o inquérito nesta quinta-feira (6) e apontar os responsáveis pelo acidente. A expectativa é de que haja indiciamentos, no que pode se tornar o primeiro caso de responsabilização criminal decorrente de um grande acidente da aviação comercial no Brasil.
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