Pais e responsáveis que procuraram atendimento no Hospital Pediátrico Mário Gattinho, em Campinas, enfrentaram horas de espera neste domingo (31). Segundo relatos, crianças com sintomas gripais, dores intensas, vômitos e até vítimas de acidente de trânsito aguardaram por atendimento médico durante toda a tarde e noite.
A demora provocou revolta entre as famílias. Muitos pacientes passaram apenas pela triagem e não chegaram a ser atendidos por um médico. Alguns decidiram deixar a unidade sem receber atendimento.
Imagens registradas no local mostram corredores e salas de espera lotados. Faltavam cadeiras para acomodar todos os pacientes e familiares. Do lado de fora, pessoas aguardavam atendimento no frio e ao relento.
A Rede Mário Gatti atribuiu a alta demanda registrada no domingo ao período de maior circulação de doenças respiratórias.
Pais relatam espera de mais de oito horas
De acordo com os relatos, pessoas que chegaram ao hospital entre 14h e 16h ainda aguardavam atendimento médico por volta das 23h.
A informação repassada aos familiares que estavam na unidade era de que apenas dois médicos estariam atendendo toda a demanda pediátrica do hospital durante o plantão de domingo.
A repositora Vanessa Oshiro de Matos levou a filha Alice, de 6 anos, ao Mário Gattinho após atendimento em uma UPA da Vila Padre Anchieta.
Segundo ela, exames de sangue realizados anteriormente apresentaram alterações e a orientação foi procurar o hospital pediátrico para investigação de uma possível apendicite.
“Fizeram exames de sangue e tava com muita alteração lá na UPA. Mandaram trazer pra cá, poderia ser apendicite, então teria que fazer uma tomografia, algo assim. Só que chego aqui, a gente é muito mal atendido. Primeiro que chamou ela pra tomar medicação sem ter passado em consulta.”
Sobre o caso da filha de Vanessa, a Rede Mário Gatti informou que existe um protocolo que permite, em situações específicas, que o enfermeiro administre medicação enquanto o paciente aguarda avaliação médica.
Alice foi chamada por volta das 23h. A expectativa da mãe era de que a filha realizasse exames, mas, segundo ela, a criança foi novamente encaminhada para medicação.
“Ela tem que colher exame e fazer raio-x. Nem papel do raio-x ele me deu.”
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Criança vítima de acidente também aguardou atendimento
A auxiliar de limpeza Maria Daiane Gomes da Silva relatou que a neta precisou ser levada de ambulância ao hospital após um acidente de trânsito.
Segundo ela, mesmo após a chegada à unidade e o relato da situação à equipe, a criança continuava sem avaliação médica horas depois.
“Uma mulher na contramão bateu no carro e a nenê se machucou. A ambulância pegou nós, trouxe pra cá, chegou aqui explicou a situação e até agora tá lá, não foi atendida ainda. A moça foi lá, perguntou à minha filha como que tá, mas não tem médico pra fazer exame. Ela disse que ainda tá saindo sangue, e tá. Não tem nenhum médico pra fazer exame.”
Famílias reclamam da falta de médicos
Entre os pacientes estava a filha de 1 ano e 2 meses do garçom José Caetano, que apresentava sintomas gripais e febre alta.
“Tem uma semana que ela tá assim. Ela estava com muita febre, quase 40 graus. Da outra vez até que foi melhor, mas hoje tá muito precária. Dois médicos para atender desse tanto de criança. Agora pouco chegou uma criança chorando com dor de cabeça, levaram ele lá, passou na triagem, falaram que iam chamar com urgência, mas quase que não chamou também. Então a situação aqui não tá boa não.”
A autônoma Renata Bastos de Oliveira também aguardava atendimento para a filha.
“Minha filha começou com uma dor ontem. Eu mediquei, porém a dor não passou. Resolvi procurar o pronto-socorro pra ajudar ela. Estou aqui desde às 15h46. A triagem tá bem demorada, demorou duas horas só pra triagem. Até agora nada do médico.”
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Guarda Municipal foi acionada
A tensão aumentou ao longo da noite. Em um dos corredores internos, uma mãe demonstrava desespero após cerca de sete horas de espera sem previsão de atendimento para o filho.
A Guarda Municipal foi acionada e esteve na unidade.
Entre os familiares que cobravam respostas da equipe estavam Jéssica Milena dos Santos Rodrigues e Alex Sandro Rodrigues, que aguardavam atendimento para o filho.
Segundo o casal, a criança apresentava falta de ar e chegou a cuspir sangue.
“Ele tá com falta de ar e tá cuspindo sangue e colocaram ele na faixa verde, sem prioridade. É um descaso total, porque eu tô vendo meu filho passando mal, não consegue andar”,
afirmou Jéssica.
“Tem só dois médicos num hospital desse tamanho”,
disse Alex Sandro.
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Ambulâncias continuavam chegando
Enquanto centenas de pessoas aguardavam atendimento, novas ambulâncias da Rede Mário Gatti chegavam constantemente à unidade pediátrica.
Pacientes também continuavam chegando por meios próprios, o que contribuiu para o aumento da fila de espera.
Ao longo da noite, muitos familiares optaram por deixar o hospital sem atendimento médico devido ao tempo de espera.
Situação melhorou nesta segunda-feira, mas ainda há demora
Na manhã desta segunda-feira (1º), o cenário era considerado um pouco melhor, mas ainda havia relatos de espera prolongada.
O ajudante geral Julio César Inocêncio afirmou que chegou à unidade às 4h30 da manhã com a filha e, às 7h30, ainda não havia conseguido atendimento médico.
“Cheguei 4h30 da manhã e agora são 7h30 e está paralisado. Fui passar pela triagem quase 6h e até agora não fomos atendidos. Não deram nenhuma justificativa. Minha filha tá com vômito, passando mal, e a gente só queria ser atendido o mais rápido possível com a medicação.”
Segundo informações obtidas pela reportagem, nesta segunda-feira há sete médicos atendendo nos consultórios da unidade.
O que diz a Rede Mário Gatti
Em nota, a Rede Mário Gatti informou que:
- Houve aumento da demanda no domingo (31) em razão da sazonalidade das doenças respiratórias;
- O Hospital Mário Gattinho trabalha em sistema de porta aberta, atendendo todos os pacientes que procuram a unidade;
- Casos considerados mais graves têm prioridade no atendimento;
- A Guarda Municipal foi acionada por funcionários para garantir a segurança de pacientes e servidores, já que algumas pessoas estavam exaltadas;
- Não houve intercorrências durante a atuação da corporação.
A rede informou ainda que a quantidade de médicos que atuava no plantão de domingo está sendo apurada. Sobre os relatos de que apenas dois profissionais estariam atendendo na unidade, a administração informou que a questão está em análise.
A Rede Mário Gatti também confirmou que mantém aberto um processo emergencial para contratação de pediatras, com o objetivo de reforçar as equipes de atendimento.
*Com informações de Évelin Costa e Helen Sacconi/EPTV Campinas
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