
A nova decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de proibir a criação de benefícios que ultrapassem o teto constitucional do serviço público foi apoiada por parlamentares, que passaram a defender a aprovação de uma lei geral para disciplinar o pagamento de verbas indenizatórias. O objetivo é conter o pagamento dos chamados supersalários.
Deputados e senadores avaliam que a medida reforça a necessidade de o Congresso estabelecer regras uniformes para evitar que diferentes Poderes e órgãos autônomos criem mecanismos próprios de remuneração que acabam permitindo pagamentos acima do limite constitucional, hoje fixado em R$ 46,3 mil.
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— O Congresso precisa fazer uma lei para enfrentar esse tema de forma estrutural. Isso está colocado na própria decisão do ministro Dino — afirmou o deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), autor da proposta de reforma administrativa que prevê medidas para restringir penduricalhos no serviço público.
Na mesma linha, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) defendeu que cabe ao Legislativo assumir a regulamentação do tema.
— O Congresso precisa legislar para cumprir seu papel, retomando para si essa responsabilidade. Além do princípio legal, o ministro Dino levanta uma bandeira moral que a sociedade exige, contra os penduricalhos — afirmou.
Governistas e oposição
O diagnóstico encontra respaldo tanto entre parlamentares da base governista quanto da oposição. O senador Cleitinho (Republicanos-MG) também elogiou a decisão e defendeu a rápida regulamentação do tema pelo Congresso.
— Decisão ótima. É preciso que a gente regulamente logo isso. Quero ver se consigo propor uma lei, vou enviar um ofício para o Dino e ver se ele tem sugestões — disse.
Há, contudo, críticas à atuação do ministro. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) afirmou que a discussão deveria ser conduzida pelo Legislativo.
— Julgo que ele (Dino) deveria voltar para o Legislativo. O autoritarismo de velho comunista não o abandona.
Presidente da Câmara
A elaboração de uma norma geral sobre o tema já foi defendida pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que afirmou, no início do mês, que o Congresso deverá assumir o debate diante da cobrança da opinião pública.
— Com a mesma coerência de quem defende a reforma administrativa, nós estamos aqui para dizer que a decisão do ministro Dino foi feliz. Vamos fazer essa discussão, porque é isso que a sociedade nos cobra — declarou Motta.
A decisão
A decisão mantém e amplia liminar concedida no início de fevereiro, determinando que órgãos dos Três Poderes detalhem, em até 60 dias, todos os pagamentos realizados acima do teto e proibindo a criação de novas leis ou atos administrativos que instituam benefícios capazes de contornar o limite remuneratório.
Reservadamente, parlamentares admitem que a intervenção do STF acaba funcionando como um freio institucional diante da dificuldade política do próprio Congresso em avançar sobre medidas que restrinjam vantagens remuneratórias. Segundo um deputado ouvido pela reportagem, a medida evita novo desgaste público semelhante ao registrado em debates recentes sobre benefícios concedidos a carreiras do serviço público, além de inviabilizar a derrubada do veto do presidente Lula sobre o projeto que permitia extrateto a servidores do Legislativo.
A manifestação de Dino foi proferida no julgamento de embargos apresentados em reclamação movida por procuradores municipais de São Paulo, mas teve seus efeitos ampliados diante do que o ministro classificou como descumprimento “massivo e generalizado” da jurisprudência do STF sobre o teto constitucional. No despacho, Dino afirmou ter havido uma “multiplicação anômala” de verbas indenizatórias utilizadas para elevar remunerações além do limite previsto na Constituição.
O tema deve voltar ao plenário do Supremo no próximo dia 25. Integrantes do Congresso avaliam que o julgamento tende a ampliar a pressão para que deputados e senadores avancem na elaboração de uma norma nacional capaz de uniformizar critérios para pagamentos indenizatórios e reduzir disputas recorrentes entre Legislativo, Judiciário e órgãos de controle sobre o alcance do teto salarial.
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