A Volkswagen teve seu protagonismo em sua guinada para os carros elétricos, ainda que não pelo sucesso de vendas dos ID.3, ID.4 e ID.5. Vale lembrar que foi o escândalo do diesel que desencadeou todo o processo de transformação da indústria automotiva, no fim de 2015. O Volkswagen ID.Cross demonstra muito do que a fabricante alemã aprendeu nos últimos anos.
O VW ID. Cross é o sucessor natural do T-Cross, seu SUV compacto com motores a combustão, e essa ligação pode ser percebida nas dimensões e proporções externas. No restante, suas linhas demonstram um recuo no vanguardismo em relação ao design externo e à nomenclatura e o resultado do carro final pouco difere do conceito de mesmo nome, revelado no Salão de Munique em setembro do ano passado.
Na dianteira está o conhecido “rosto amigável”, uma das marcas do estilo “Pure Positive”, definido por Andreas Mindt. O diretor de design da marca alemã foi trazido de volta da Bentley para devolver o DNA da Volkswagen aos veículos da empresa e, desde então, foi nomeado diretor de design de todo o Grupo Volkswagen.
Destacam-se os faróis estreitos, posicionados em uma área elevada. Na parte superior, eles são unidos por uma barra transversal coberta por vidro e, na inferior, por uma faixa iluminada com tecnologia de LED.
Acima, chama a atenção o teto alongado, que se estende para além das colunas traseiras e termina em um spoiler. As colunas dianteiras e centrais recebem acabamento em tom contrastante, com pintura preta brilhante. O mesmo tipo de tratamento e de formas caracteriza a traseira, onde o destaque é a barra transversal com luzes de LED cobertas por vidro — infelizmente escondida no VW ID. Cross camuflado que dirigimos — e a estrutura horizontal que domina essa seção.

Mindt e sua equipe procuraram deixar o interior mais “acolhedor” do que o dos modelos ID. Para isso, foram usados mais materiais de toque macio, cores harmoniosas, maior quantidade de botões físicos e elementos de design retrô no quadro de instrumentos, inspirados no Golf de primeira geração. A intenção é criar uma ligação mais evidente com o passado da Volkswagen.
Por dentro, a construção é sólida, mas os revestimentos têm estrutura rígida, com uma fina camada de material macio ou acabamento em tecido em alguns pontos. Os comandos do ar-condicionado ficam na região central do painel, em uma fileira de botões físicos. Abaixo deles está a base para carregamento sem fio do celular, que é opcional. Também ampliaram as possibilidades de personalização da iluminação ambiente.

O VW ID. Cross mede 4,15 metros de comprimento e é apenas 2,6 cm maior que o T-Cross europeu, mas é 6 cm menor que o modelo brasileiro – que tem 4,21 m de comprimento. A diferença também aparece no entre-eixos: o elétrico tem 2,60 m, enquanto o T-Cross europeu tem 2,56 m e o brasileiro, 2,65 m. Como costuma acontecer nos carros desenvolvidos desde o início para serem elétricos, o ganho se traduz em mais espaço para os passageiros da segunda fileira de bancos.

O porta-malas tem capacidade para 475 litros, 20 litros a mais que o do T-Cross. Há ainda um compartimento dianteiro, o chamado frunk, com 22 litros, bem adequado para guardar os cabos de recarga da bateria. Sob o piso do porta-malas existe um compartimento bastante profundo que, segundo a marca alemã, pode acomodar duas caixas de bebidas.
VW ID. Cross retrô? Não, obrigado
O painel também tem configuração horizontal, com o quadro de instrumentos digital de 10,3 polegadas e a tela central do sistema multimídia de 12,9 polegadas alinhados.
No primeiro caso, a “visualização retrô” chama naturalmente a atenção. Ela pode ser selecionada no volante e exibe um velocímetro clássico do lado esquerdo e um conta-giros do lado direito. É claro que não há rotações para medir. Em vez disso, o mostrador indica a potência que está sendo entregue ou recuperada pelo motor elétrico.

Particularmente, preferi dirigir sempre com a apresentação mais moderna e limpa do quadro de instrumentos digital. O modo retrô me cansou mais por apresentar excesso de “ruído” gráfico. É uma questão de opinião.
O volante multifuncional também foi redesenhado. O conjunto quadrado de botões do lado esquerdo reúne as funções dos sistemas de assistência ao motorista, os ADAS, ou, dependendo da versão, do controle de cruzeiro adaptativo. O ajuste do volume do sistema de áudio também fica nessa área. À direita do airbag estão os controles do quadro de instrumentos digital e o comando para ativar o assistente de voz.

Atrás do volante, que tem as partes superior e inferior achatadas, ficam as alavancas responsáveis pelo controle da transmissão e do freio de estacionamento, além das setas, luzes e funções do limpador de para-brisa.
O chassi também traz novidades importantes. A suspensão combina o conjunto dianteiro McPherson — que utiliza um sistema desenvolvido especialmente para controlar as forças de compressão que atuam sobre o amortecedor, além de suportes mais rígidos para a barra estabilizadora — com um eixo de torção traseiro especialmente compacto. Na traseira, há apoios de borracha nas molas e buchas com uma tecnologia criada para reduzir significativamente vibrações e ruídos.

Ao contrário dos primeiros carros elétricos da Volkswagen, os modelos da nova geração utilizam discos sólidos nos freios traseiros, em vez de tambores. A plataforma utilizada é a MEB+, com tração dianteira. Isso significa que, pela primeira vez desde o e-Up! e o e-Golf, a Volkswagen combina propulsão elétrica com tração exclusivamente dianteira. Os ID.3, ID.4, ID.5 e ID.7 têm tração traseira.
O motor elétrico é novo e recebe internamente o nome APP290. O número faz referência ao torque máximo de 29,6 kgfm, enquanto as letras significam “Posição Paralela Axial”, em referência ao eixo. Inicialmente, o motor estará disponível em três níveis de potência: 116 cv, 135 cv e 211 cv.
As versões do ID. Cross
| Potência | Tração | Bateria de alta tensão | Velocidade máx. |
| 85 kW (116 cv) | Dianteira | 37 kWh (utilizáveis) | 150 km/h |
| 99 kW (135 cv) | Dianteira | 37 kWh (utilizáveis) | 150 km/h |
| 155 kW (211 cv) | Dianteira | 52 kWh (utilizáveis) | 160 km/h |
A versão de 211 cv, que dirigi em Amsterdã, acelera de 0 a 100 km/h em 7,4 segundos e tem velocidade máxima limitada a apenas 160 km/h. Nas duas configurações menos potentes, o limite é de 150 km/h.
As novas baterias são do tipo cell-to-pack, arquitetura na qual as células são instaladas diretamente na estrutura da bateria, sem os invólucros dos módulos. A de menor capacidade tem química LFP e 37 kWh e a maior tem 52 kWh e química NMC. Apesar da diferença de capacidade, as duas terão dimensões semelhantes, já que a segunda composição química apresenta densidade energética cerca de 30% maior.
Com isso, é possível alcançar maiores potências de recarga e também aumentar a eficiência dos motores. A recarga em corrente alternada será de 11 kW nos dois casos. Em corrente contínua, a potência poderá chegar a 90 kW na bateria menor e a 105 kW na maior.

Matthias Baehr, responsável pelo desenvolvimento do sistema de propulsão, explicou que “a potência máxima de recarga foi reduzida em comparação com outras aplicações nos modelos ID — nas quais chegava a 130 kW em corrente contínua —, e o foco passou a ser a manutenção de uma potência superior a 100 kW. Dessa forma, esse nível é preservado entre 40% e 72% do estado de carga da bateria”.
A Volkswagen prevê 27 minutos para elevar a carga da bateria de 37 kWh de 10% a 80%. Na unidade de 52 kWh, o mesmo processo deverá levar 24 minutos. As autonomias médias no ciclo WLTP, ainda sujeitas a confirmação, serão de 316 km com a bateria menor e de 436 km com a maior.

Vale lembrar que o projeto foi liderado pela divisão espanhola do Grupo Volkswagen, a Cupra. A produção do ID.Cross será realizada em Pamplona, enquanto o irmão ID.Polo será fabricado em Martorell, ambas cidades espanholas. O novo VW ID. Cross chegará ao mercado europeu em novembro, com preços começando pouco abaixo de 30.000 euros (R$ 175.000 ao câmbio atual) na versão equipada com a bateria de 37 kWh. Um T-Cross básico custa, em média, 25.000 euros (R$ 145.400) na Europa.
Ficha Técnica – Volkswagen ID.Cross 52 kWh
Motor: elétrico, dianteiro, 211 cv, 29,6 kgfm
Câmbio: automático, 1 marcha, tração diant.
Direção: elétrica
Bateria: 52 kWh (líquido), recarga AC de 11 kW e DC de 105 kW (24 min de 10 a 80%)
Suspensão: McPherson (diant.), eixo de torção (tras.)
Freios: disco ventilado (diant.), disco sólido (tras.)
Pneus: n/d
Dimensões: compr., 415,3 cm; larg., 179,4 cm; alt., 158,1 cm; entre-eixos, 260,1cm; porta-malas, 475 litros; peso, 1.548 kg
