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Do agro a “tech”, empresas buscam “dólar digital” para reduzir custo do câmbio

por SampaNews 21 de maio de 2026
21 de maio de 2026
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Importadores, exportadores e corretoras de câmbio brasileiras encontraram nas stablecoins, ou “dólares digitais”, uma alternativa para reduzir o custo de remessas internacionais. O movimento ganhou escala e já aparece nos dados do Banco Central: as operações com esses ativos no exterior somaram o equivalente a R$ 34,5 bilhões no primeiro trimestre de 2026, o dobro do registrado no mesmo período de 2025. As stablecoins chegaram a 98% de todo o volume de criptoativos enviados ao exterior por brasileiros no período, segundo dados do BC.

O crescimento ocorre em ambiente de incerteza tributária. A maior parte das transações com stablecoins ainda não sofre incidência de IOF, lacuna que o governo tentou preencher por decreto, recuou após reação do setor e que voltou à agenda em maio com uma reclassificação técnica feita pelo Banco Central.

A explicação para o crescimento passa, em boa parte, pelo diferencial de custo frente ao câmbio convencional. Uma remessa de R$ 50.000 pelo sistema bancário tradicional acumula IOF de 0,38% para pessoa jurídica, spread cambial entre 1% e 2,5%, tarifa de SWIFT entre R$ 75 e R$ 250 por operação, e eventuais taxas de banco correspondente. O custo total fica tipicamente entre 2% e 4% do valor remetido.

Pela rota de stablecoin, o custo principal está no spread de conversão entre reais e stablecoin nas plataformas reguladas, entre 0,5% e 1,5%. E a maioria das operações não sofre incidência de IOF.

“Diferentemente do sistema tradicional, que depende de múltiplos intermediários e de processos manuais lentos, a liquidação onchain (em rede blockchain) permite que o dinheiro se mova na velocidade da internet, reduzindo custos e atrasos”, explica Fabio Plein, diretor-geral da Coinbase para as Américas. “Essa infraestrutura é programável e aberta, devolvendo o controle aos usuários e eliminando a exclusividade de sistemas bancários fechados”, diz.

Leia também: Strategy: como funciona e como participar da “impressora” que alimenta o Bitcoin

Corretoras, tecnologia e agro

O setor de câmbio e remessas foi o primeiro a testar as águas das stablecoins em escala no Brasil. Quem movimenta dólares entre jurisdições paga taxas em cada etapa e espera até dois dias para liquidar uma transferência SWIFT. Com stablecoins, passam a manter reservas em ativos digitais e a liquidar posições em tempo real, a qualquer hora, sem depender de janelas bancárias ou correspondentes.

O modelo se espalhou rapidamente. As principais corretoras de câmbio que operam no Brasil já utilizam stablecoins, ou têm projetos em estágio avançado de implementação, como parte da gestão de tesouraria, segundo apurou a reportagem.

Importadores e exportadores com operações recorrentes também estão entre os mais ativos nos últimos meses. “Todos os setores de importação e exportação já estão inseridos nesse [ecossistema], principalmente com tíquetes grandes, de US$ 100.000, US$ 1 milhão. São operações que já acontecem”, diz Rafael Goulart, country manager da Pomelo no Brasil, fintech argentina que fornece infraestrutura de emissão de cartões em stablecoins para bancos e fintechs na América Latina.

O agronegócio e o setor de eletroeletrônicos lideram a demanda no segmento B2B, segundo Gabriel Boni, COO da TCR Finance, corretora especializada em pagamentos internacionais via stablecoins. “Imagine que você tem um fornecedor de grãos ou de eletrônicos na China e precisa importar essa matéria para a América Latina. Para tudo isso, as empresas buscam a TCR”, diz Boni. A empresa também atende executivos com operações multinacionais e empresários com viagens frequentes ao exterior.

Empresas de tecnologia que pagam por serviços de computação em nuvem no exterior e profissionais que recebem de clientes internacionais completam o perfil. São desenvolvedores, criadores de conteúdo e prestadores de serviços digitais que passaram a receber em stablecoin como forma de simplificar o recebimento internacional e reduzir a burocracia cambial.

“Na ponta, os usuários finais desse ecossistema podem ser empresas de comércio exterior, marketplaces, e-commerces, plataformas digitais, games, turismo, conteúdo, tecnologia ou qualquer negócio com fluxo internacional recorrente”, diz Sergio Massa, CEO da Z.ro Digital Assets, fintech brasileira que fornece infraestrutura de liquidação em stablecoins para bancos, remessadoras e fintechs sem estrutura tecnológica própria para cross-border.

“A maior demanda não vem de um único fator, como dólar mais baixo ou questão tributária. Vem da combinação de regulação, busca por eficiência, internacionalização das empresas e necessidade de reduzir custo e prazo em pagamentos internacionais”, conta Massa.

Novos players olham para o Brasil

Com a demanda crescente, novos entrantes chegam ao Brasil. “A maioria dos provedores só permite que você tome liquidez. Nós permitimos que você faça os dois”, diz Sebastian Villanueva, head de vendas para a América Latina da Checker Finance, empresa americana que opera rede de liquidez em stablecoins e acaba de desembarcar no Brasil.

A startup, que vem de rodada de R$ 40 milhões liderada pela Galaxy Ventures, Al Mada Ventures e Framework Ventures, com participação estratégica da Bitso, está em processo de filiação à Abracam, associação do setor de câmbio brasileiro, e tem o Braza Bank como seu primeiro cliente no país.

Na mesma direção, a também americana LiberPay escolheu o Brasil como mercado de estreia global para sua solução de pagamentos em stablecoins. “O uso está crescendo rapidamente entre pessoas comuns, não apenas entre entusiastas de cripto. Investimos recursos significativos no Brasil porque acreditamos que os brasileiros compartilham dessa visão”, diz o cofundador Tobias Kleitman. “Estamos apenas começando.”

Ameaça do IOF acelerou

O crescimento do mercado de intermediários de stablecoins no Brasil cresceu diante de tentativas de regular o setor. Em 2025, o governo federal elevou para 3,5% o IOF sobre câmbio turístico e cartões de crédito internacionais. Para as corretoras de câmbio, o encarecimento das operações tradicionais foi o gatilho que precisavam para buscar formas mais eficientes para movimentar dólares.

Para empresas importadoras e exportadoras, a medida funcionou como sinal de alerta: se o câmbio turístico estava sendo taxado, remessas corporativas poderiam ser o próximo alvo. A isso se aliaram outros fatores que o mercado já apontava, como busca por eficiência, internacionalização crescente das empresas e pressão para reduzir custos e prazos em pagamentos internacionais.

Com a migração em curso, o governo preparava uma consulta pública para estender o IOF de 3,5% a todas as transações com stablecoins. A proposta tornou-se conhecida no mercado antes de ser formalizada, encontrou resistência do setor e acabou engavetada.

“Stablecoins estão ganhando escala relevante como soluções de liquidação internacional em todo o mundo. A pergunta para o Brasil não deveria ser se essas tecnologias devem ser restringidas, mas como incorporá-las ao ambiente regulado de forma que preserve tanto a inovação quanto a integridade do sistema financeiro”, aponta Plein, da Coinbase. “Esses dois objetivos não estão em conflito”.

Nos EUA, a regulação Clarity Act tramita no Senado com texto que veda juros passivos sobre saldo em stablecoin, mas permite recompensas vinculadas ao uso em transações. “O entendimento em torno das recompensas com stablecoins, diferenciando juros passivos de recompensas vinculadas ao uso, reflete um esforço para alcançar equilíbrio regulatório e construir consenso entre os participantes do setor”, diz Plein, elogiando a abordagem americana.

Guilherme Bettanin, líder da Base no Brasil (Foto: Divulgação)

A próxima etapa: uso em IA

A Coinbase projeta um estágio adicional para as stablecoins, em que serão usadas por agentes de inteligência artificial para pagamentos. Um protocolo desenvolvido pela empresa em parceria com a Cloudflare permite que IAs paguem com stablecoins sem intervenção humana, e já foi adotado por Amazon Web Services, Shopify e Google.

“Esses agentes podem manter stablecoins em carteira, utilizá-las para iniciar transações e pagar por serviços sem intervenção humana”, diz Guilherme Bettanin, líder da Base no Brasil, a rede blockchain da Coinbase focada em pagamentos. “Do ponto de vista técnico, a Base oferece a escala necessária para microtransações, que serão fundamentais para o comércio agentic, com custos médios de transação inferiores a US$ 0,001″, conta.

A aposta não parece futurista. O número de agentes de IA usando o protocolo na Base já ultrapassa 56 mil, com crescimento de 40% nos últimos 30 dias. Até 2030, projeções apontam que o mercado de pagamentos autônomos por agentes de IA pode alcançar US$ 30 trilhões.

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