Dois anos após a queda do avião da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo, familiares das vítimas voltaram a cobrar justiça e responsabilização pelos envolvidos na tragédia. Em vídeos publicados nas redes sociais da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283, parentes afirmam que a dor da perda permanece e defendem que o caso não seja esquecido enquanto houver perguntas sem resposta.
O pedido ganha força justamente no dia em que a Polícia Federal apresentou o relatório final da investigação criminal sobre o acidente. A corporação indiciou 16 pessoas, entre elas o proprietário da Voepass, José Luiz Felício Filho, além de diretores, gerentes, pilotos, despachantes operacionais e profissionais da área de manutenção da companhia.
Em um dos vídeos divulgados pela associação, Bianca Michel Faller, que perdeu o tio no acidente, afirma que a família luta há dois anos para que os responsáveis sejam punidos.
“Perder as pessoas faz parte da nossa vida, mas perder as pessoas por irresponsabilidades de terceiros não deveria fazer. Por isso, há dois anos lutamos por justiça para que aqueles que contribuíram efetivamente para que os nossos não estivessem mais aqui sejam responsabilizados na forma da lei.”
Ela também diz que a responsabilização é necessária para preservar a memória das vítimas e evitar que uma tragédia semelhante volte a acontecer.
Na legenda da publicação, a associação reforça que o objetivo não é vingança, mas a busca pela verdade e pela responsabilização.
“Não buscamos o esquecimento. Buscamos a verdade. Não buscamos vingança. Buscamos responsabilização. Não buscamos privilégios. Buscamos justiça.”
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“62 famílias totalmente destruídas”
Em outro vídeo publicado pela entidade, Luiz Soper Jr, irmão da comissária de bordo Débora Soper Ávila, lembra que a irmã saiu para trabalhar no dia 9 de agosto de 2024 e nunca mais voltou para casa.
Segundo ele, a tragédia destruiu dezenas de famílias que seguem em busca de respostas.
“Tivemos 62 famílias totalmente destruídas e que agora, juntos, estamos pedindo justiça. Não estamos pedindo vingança e muito menos privilégios, mas justiça por aqueles que se foram e por aqueles que estão aqui, enlutados, em busca de respostas.”
Luiz também afirma que a responsabilização dos envolvidos é importante para evitar novas tragédias.
“Se não houver mudanças, infelizmente, as próximas vítimas poderão ser alguém que você ama.”
Na publicação, a associação afirma que a luta é movida pelo compromisso com a verdade, pela responsabilização e pelo respeito às 62 vítimas.
“A prisão deles é o mínimo do mínimo de tudo aquilo que eles fizeram nas nossas vidas“
Após a divulgação do relatório final da Polícia Federal, familiares das vítimas afirmaram que o indiciamento representa um avanço importante, mas destacaram que a busca por justiça está apenas começando.
Adriana Ibba, mãe de Liz Ibba dos Santos, a vítima mais jovem da tragédia, que morreu aos 3 anos ao lado do pai, Rafael Fernando dos Santos, disse que as famílias sempre defenderam que a queda do avião poderia ter sido evitada e que as conclusões da investigação reforçam esse entendimento.
Ela também afirmou que o trabalho realizado pela Polícia Federal, em conjunto com as apurações técnicas do Cenipa, representa um marco para a aviação brasileira ao apontar supostas falhas na manutenção da aeronave e responsabilizar os envolvidos.
Segundo Adriana, a expectativa por esse momento durou dois anos e, embora receba o resultado da investigação com sentimento de vitória, considera que o indiciamento marca apenas o início de uma longa caminhada até que haja responsabilização judicial.
“A prisão deles não traz os nossos de volta, mas a prisão deles é o mínimo do mínimo de tudo aquilo que eles fizeram nas nossas vidas. O nosso buraco é eterno, é para sempre. Eles assumiram o risco, assumiram não fazer as manutenções. Então, que paguem pelos atos que assumiram”, dsse Adriana.
O que diz a investigação da PF
A Polícia Federal concluiu o inquérito criminal e indiciou 16 pessoas por suposta participação, direta ou indireta, na tragédia. Entre os investigados estão o diretor-presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, o diretor técnico Eric Consoli, além de diretores, gerentes, pilotos, mecânicos e despachantes operacionais.

Segundo a investigação, os indiciados são apontados como responsáveis pelo acidente ou como pessoas que contribuíram para a tragédia por ação ou negligência.
Com a conclusão do inquérito, o relatório será encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), que decidirá se apresenta ou não denúncia à Justiça contra os investigados.
Em nota, a Voepass informou que aguardará a divulgação oficial do relatório da Polícia Federal para conhecer integralmente seu conteúdo antes de se manifestar.
Conversas da cabine integraram investigação
Um dos elementos considerados mais importantes pela investigação foi a transcrição das conversas registradas na cabine do avião, à qual representantes das famílias tiveram acesso no fim de junho.
O material integra o laudo elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) e ajudou a reconstituir os momentos finais do voo, incluindo os diálogos dos pilotos sobre o sistema de degelo da aeronave, apontado como um dos focos da investigação.
Paralelamente ao trabalho da Polícia Federal, o Cenipa conduziu uma investigação técnica para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. Diferentemente da apuração criminal, o objetivo do órgão é prevenir novos acidentes, sem atribuir responsabilidade criminal.
Entre as análises realizadas pelo Cenipa estão exames das caixas-pretas, dos motores e do sistema de degelo, avaliação das condições meteorológicas, entrevistas com pilotos e mecânicos, estudos sobre milhares de voos da mesma frota, testes em simuladores e análise de registros de manutenção e certificações.
Após a divulgação do relatório da Polícia Federal, os familiares informaram que pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais.

O que diz a Voepass?
Em nota, a Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi prioridade da empresa e destacou que, ao longo de mais de 30 anos de atuação, cumpriu os protocolos de segurança, manutenção e treinamento exigidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A companhia também informou que colaborou com as investigações conduzidas pelo Cenipa e pela Polícia Federal desde o início da apuração, fornecendo documentos e registros operacionais.
A empresa ressaltou ainda que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e afirmou que aguardará os próximos desdobramentos do processo antes de se manifestar sobre o conteúdo. Caso haja denúncia, a Voepass disse que exercerá seu direito de defesa.
A companhia também reiterou solidariedade às famílias das 62 vítimas e afirmou permanecer à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários.
Confira a nota na íntegra abaixo:
A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional.
Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.
A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função.
Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.
A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários.
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Relembre o acidente
O acidente aconteceu na tarde de 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, da Voepass, fazia o voo 2283 entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), quando caiu sobre o quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo, no interior paulista.
As 62 pessoas que estavam a bordo, 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. A tragédia se tornou o acidente aéreo mais grave registrado no Brasil desde 2007 e deu início a investigações conduzidas simultaneamente pelo Cenipa e pela Polícia Federal, que seguiram caminhos distintos: uma com foco técnico e preventivo e outra voltada à apuração de possíveis responsabilidades criminais.
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