
A crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro abriu uma discussão que até poucas semanas atrás parecia encerrada dentro da direita. Afinal, existe hoje um nome capaz de substituir politicamente o herdeiro escolhido por Jair Bolsonaro para a disputa presidencial de 2026?
Nos bastidores do PL, a pergunta passou a circular com mais intensidade após a queda do senador nas pesquisas e o desgaste provocado pela divulgação de áudios envolvendo Daniel Vorcaro.
No entanto, durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, especialistas apontaram que o episódio expõe menos a existência de um substituto imediato e mais a dependência do campo conservador em relação à força política de Jair Bolsonaro.
“O Flávio nunca foi a escolha majoritária, número um da direita, ele foi a escolha possível”, afirmou Renato Dolci, diretor de dados da Timelens. Segundo ele, Michelle Bolsonaro sempre esteve no entorno da disputa, mas há complexidades internas no partido e na própria família que dificultam uma troca de rota neste momento.
A avaliação é que Flávio chegou à condição de principal nome da direita não por ser o candidato mais competitivo nas pesquisas no momento inicial, mas porque foi escolhido por Jair Bolsonaro. Vitor Scalet, analista político da XP, lembrou que, quando o senador foi lançado, outros nomes apareciam em posição aparentemente melhor contra Lula.
“Naquele momento, o Flávio, na média das pesquisas, perdia do Lula no segundo turno por cerca de nove pontos. Michelle perdia por cerca de seis e Tarcísio por uns dois, três pontos. E quem decidiu foi Jair Bolsonaro”, afirmou Scalet.
Para ele, a evolução posterior de Flávio nas pesquisas mostrou a capacidade do ex-presidente de consolidar votos da direita em torno de um nome escolhido por ele. Ao longo de dezembro, janeiro e fevereiro, o senador reduziu a distância para Lula até chegar a um cenário de empate técnico em parte dos levantamentos.
“Isso mostra a força da centralidade da figura do Jair”, disse Scalet. “O Jair foi lá e escolheu o Flávio, que perdia de nove. Ele confiou na força dele de levar esses votos e levou.”
Esse raciocínio ajuda a explicar por que, mesmo após a queda nas pesquisas provocada pelo caso Master, analistas ainda veem dificuldade para a direita substituir Flávio. O senador perdeu pontos, mas segue sendo o nome com maior capacidade de herdar o eleitorado bolsonarista e enfrentar Lula em uma disputa nacional.
“Ele caiu seis pontos, mas é de longe o candidato que tem mais capacidade da direita ainda de vencer o Lula, mesmo com a queda”, afirmou Dolci.
O problema, segundo o cientista político, é estrutural. A esquerda se organizou em torno de Lula. A direita, por sua vez, se organizou em torno de Bolsonaro, mas o nome que deve disputar a eleição não é o próprio ex-presidente. Isso torna qualquer crise de Flávio também uma crise sobre a capacidade do bolsonarismo de transferir liderança.
“A crise mostra um pouco dessa dependência do bolsonarismo”, afirmou Dolci. “A esquerda não está discutindo porque só tem um nome. Aqui não, tem vários nomes, e mais do que ter vários nomes, o nome principal não é o nome dessa candidatura.”
Nesse cenário, Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e outros nomes da direita podem voltar ao debate, mas ainda sem força suficiente para reorganizar rapidamente o campo conservador.
Para os especialistas, a candidatura de Flávio entrou em uma fase mais vulnerável, mas continua sendo, no retrato atual, o principal caminho eleitoral do bolsonarismo.
O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.
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