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Novas drogas para emagrecer terão impacto global na economia e saúde, dizem analistas

por SampaNews 22 de março de 2026
22 de março de 2026
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Ozempic, medicamento composto por semaglutida, utilizado para tratamento de diabetes e para emagrecimento, da Nova Nordisk

No fim de semana seguinte ao fim da patente da semaglutida, a principal droga das canetas emagrecedoras, em países como Brasil, Índia, China e México, o mundo já assiste a uma segunda revolução dentro da transformação em massa trazida pelas canetas emagrecedoras, os primeiros medicamentos do mundo a promover uma perda expressiva de peso. Uma revolução que vai além da saúde e alcança a economia, a sociedade e a cultura.

As canetas não previnem nem curam a obesidade, uma doença crônica deflagrada por fatores ambientais, como alimentação ultraprocessada, estresse e sedentarismo, mas se espera que o aumento do acesso tenha imenso impacto. Poderá reduzir os custos da saúde, perdas de produtividade decorrentes de doenças associadas ao excesso de peso e transformar setores da economia, como o de alimentos e até aviação.

No momento, somente Ozempic e Wegovy, ambos da Novo Nordisk e com a patente expirada, têm semaglutida. A outra caneta é o Mounjaro (Eli Lilly, cuja patente não caiu). Mas até o fim do ano são esperados cerca de cem novos medicamentos com semaglutida no mundo, somente devido ao fim da patente. Não serão genéricos nem necessariamente canetas, mas conterão a semaglutida.

Os efeitos da revolução das “canetas” são o tema da série que O GLOBO publica a partir deste domingo (22). São reportagens e outros conteúdos em formatos diversos, como newsletters, vídeos e uma cartilha com o que se sabe de mais avançado sobre os remédios.

O espaço para crescimento de usuários de canetas é vasto. Segundo um estudo do J.P. Morgan, no início de 2026, apenas cerca de 7% dos pacientes com diabetes e 2% da população com obesidade globalmente utilizam esses fármacos. Porém, uma pesquisa publicada na Lancet estimou que 27% da população mundial seria elegível, mas o preço alto limita o acesso.

A obesidade é uma das maiores crises globais. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 44% das pessoas adultas do planeta têm sobrepeso ou obesidade. Essa pandemia causa 5 milhões de mortes por ano apenas por doenças cardiovasculares.

Ela eleva os custos de saúde em 8,4% em Europa e EUA, reduz a produtividade da força de trabalho e deve custar 3% do PIB global até 2035. É uma escala só alcançada pela pandemia de Covid -19, em 2020. A epidemia cresce rapidamente em nações de baixa e média renda, de acordo com a OMS. Elas concentram 70% dos casos.

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Brasil e Índia são exemplos de países superatingidos.  Índia, o país mais populoso do mundo, enfrenta uma epidemia crescente, com 70% da população de 1,4 bilhão de habitantes, acima do peso ou com obesidade. No Brasil, 62,6% dos adultos estão acima do peso, dos quais 25,7% são obesos, segundo o Vigitel/Ministério da Saúde.

O motivo de tanto impacto é fácil de compreender.  A obesidade é uma doença crônica que aumenta o risco primário para outras doenças crônicas, como diabetes tipo 2, males cardiovasculares e ao menos 13 tipos de câncer.

A Federação Mundial de Obesidade (FMO) diz que o impacto econômico global total do sobrepeso e da obesidade deve atingir US$ 4,32 trilhões por ano até 2035. Isso inclui custos diretos de saúde (tratamento de doenças) e indiretos (redução de produtividade, absenteísmo e mortalidade prematura). Pessoas com doenças relacionadas à obesidade têm 8% mais probabilidade de perderem o emprego.

Projeções otimistas vislumbram, graças às novas drogas, um mundo em 2030 com 20% menos infartos e AVCs (essa é a redução vista nos estudos com as canetas), queda no consumo de alimentos, economia de combustível por parte das companhias aéreas devido a passageiros mais leves e bilhões de pessoas com melhor qualidade de vida.

A consultoria de investimentos americana Jefferies previu para uma companhia aérea americana que, se cada passageiro que voa com ela perdesse aproximadamente 10 quilos, a companhia aérea economizaria mais de 100 milhões de litros de combustível por ano.

Já a indústria de alimentos, no entanto, tem estimativas de queda devido à redução do consumo. Uma análise de banco de investimento americano estima queda de 1,3% na ingestão calórica nos EUA até 2035.

O número de remédios com semaglutida deve disparar nos próximos meses no mundo e, com isso, se espera uma significativa de preços. No Brasil, são 17 os laboratórios com pedidos de análise na Anvisa. E a queda de preço esperada para este ano fica entre 30% e 40%.

Mas em grandes produtores mundiais de medicamentos, como Índia e China, o número de novos remédios deverá ser muito maior, assim como a queda nos preços.

A China, segundo análise do South China Morning Post, espera uma redução de preços da semaglutida de até 80%. Empresas estrangeiras e locais competem por participação de mercado enquanto o número de adultos com sobrepeso ou obesidade pode superar 630 milhões até 2050, ante 400 milhões em 2021.

Na Índia, se espera a entrada de 50 novas drogas com semaglutida nos próximos meses e uma queda de preço superior a 50%.

Uma pesquisa global do americano J.P. Morgan prevê que o mercado global de drogas com incretinas (hormônios intestinais), que inclui, sobretudo, a semaglutida, atingirá US$ 200 bilhões até 2030.

Um número de pessoas sem precedentes, ainda que longe do necessário, poderá ter alcance a esses medicamentos. O custo alto seguirá a ser uma barreira. E haverá aumento da desigualdade no acesso ao tratamento, com as pessoas de baixa renda ficando de fora dos benefícios. Mesmo que o custo caia à metade, continuará inviável para muita gente.

— Há uma revolução em curso. Mas é uma revolução em nível de indivíduo. Uma que vejo no meu consultório, de pacientes conseguirem chegar ao peso saudável e transformarem a vida para melhor. Essas drogas merecem ser chamadas de revolucionárias. Mas, mesmo sem a patente da semaglutida, não serão para todos. Para combatermos a obesidade, será preciso algo muito maior, na forma como nossa sociedade funciona — afirma o hepatologista João Marcello de Araújo Neto, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No SUS

É por isso que tratamentos como o que será oferecido ainda neste semestre pelo Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), no Rio de Janeiro, fazem toda a diferença. O instituto será o primeiro dentro do SUS a oferecer semaglutida a pacientes, 150 no total. A iniciativa não significa a incorporação no SUS. Foi um acordo especial entre o instituto e a Novo Nordisk, que cedeu o Wegovy para uso compassivo.

A endocrinologista Lívia Lugarinho, chefe do Serviço de Obesidade do IEDE, diz que iniciativas assim têm grande impacto na vida de quem mais precisa. As canetas podem não ser a solução para todos, mas têm poder transformador para quem luta há anos contra uma doença grave.

— As canetas são remédios e devem ser ministradas como tratamento, não por questões estéticas. A obesidade é uma doença complexa, associada a vários genes e a fatores ambientais. E pode se agravar muito — frisa Lugarinho.

 É o caso de Glaucia Rocha, de 43 anos, uma das pacientes selecionadas. Em variados graus, sua história é também a de milhões de brasileiros que lutam contra a obesidade e todos os distúrbios graves de saúde e preconceitos que ela acarreta. Porém, diferentemente da maioria dos acometidos pela doença, Glaucia conseguirá se tratar com as canetas emagrecedoras.

Glaucia foi magra até a adolescência, quando começou a engordar rapidamente. O mesmo aconteceu com seus dois irmãos. Ela chegou a mais de 300 quilos. Nunca soube exatamente quanto, porque esse peso era o limite da balança.

Ela conseguiu fazer a cirurgia bariátrica após começar a se tratar no IEDE. Perdeu 250 kg após a cirurgia. Hoje está com 120 kg, ainda muito para seu 1,65 metro. Com as canetas, espera emagrecer mais 60 kg e alcançar pela primeira vez, desde de adolescência, um peso saudável.

— A obesidade é uma doença crônica grave. Ser magro não é questão de força de vontade. Virou questão de conta bancária. Dou graças a Deus de ter essa oportunidade, que a maioria não tem — diz.

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