Antigamente, muito antigamente, saber dirigir um carro não implicava necessariamente poder dirigir qualquer modelo. Havia particularidades técnicas que resultavam no comportamento desigual entre os diferentes modelos. Com o tempo, quando as mesmas soluções técnicas passaram a ser adotadas pelos vários fabricantes, toda pessoa, até com pouca experiência prévia, poderia controlar diferentes tipos de carro sem surpresas. E hoje, com a evolução que universalizou tecnologias e a comunização de projetos e componentes (com ganhos de escala), em muitos casos, é possível acontecer de uma pessoa conduzir um carro sem sequer prestar atenção ao modelo que está dirigindo.
Lógico, um carro de uma marca nunca será igual a outro de outra marca. Nem mesmo aqueles modelos cujos projetos são frutos de parcerias entre empresas, porque, a partir de um determinado ponto, o costume é que cada marca siga seu caminho. A exceção talvez seja carros que mudam apenas o emblema na grade e no centro do volante, o que acontece.
Todo projeto sai da linha de montagem contaminado de características particulares. Seja porque na origem essas marcas desenvolveram conceitos que influenciam seus produtos, seja pela simples cultura da empresa por trás da marca. A maneira como as marcas se posicionam no mercado e comunicam isso também contribui para criar uma percepção diferente dos produtos.
Nas marcas de carros de alto luxo e superesportivos, isso é muito nítido porque os compradores desses carros esperam encontrar essa distinção e pagam caro por isso. Enquanto nos segmentos inferiores, entre as marcas generalistas, principalmente, nos quais o preço é determinante para os clientes, a carga de DNA próprio tende a ser menor.
Digamos que marcas premium têm mais propósito, enquanto as generalistas focam na rentabilidade – embora o resultado do negócio seja vital para todas.
Certa vez me perguntaram: Ferrari ou Porsche? Respondi que uma coisa era completamente diferente da outra. Assim como Lamborghini, Aston Martin, McLaren são únicos, apesar de todos serem superesportivos. Cada marca tem seu arsenal de valores, história, estilo, materiais, comportamento dinâmico, ronco do motor…
A posição de dirigir um Porsche é perfeitamente alinhada. O motorista entra no carro e a impressão é de que o banco já estava ajustado para ele. Isso é possível porque banco, pedais, volante, painel estão alinhados. E os pedais estão mais próximos do motorista do que o eixo dianteiro do carro (e a caixa de roda não atrapalha). Em um McLaren, o conceito é outro, não existe esse alinhamento perfeito porque para a McLaren, para o motorista interagir com o carro, é importante que seus pés se posicionem em uma linha imaginária que passa pelo centro das rodas (tração traseira).
No segmento de alto luxo, tenho uma passagem que diz muito sobre essas diferenças. Foi no início dos anos 2000. A Daimler havia relançado a Maybach, para entrar no segmento em que reinavam absolutas Rolls-Royce e Bentley. Eu participava de um evento da Bentley e conversando com um executivo da empresa perguntei sobre a nova concorrente, que chegava com a tradição do nome – a Maybach fabricava carros de luxo no início do século 20. Parecendo disposto a não se alongar no tema, ele disse apenas que ter um nome de tradição não bastava. E o tempo mostrou que ele estava certo. Obviamente regras têm exceções. Com tempo, dinheiro e dedicação, pode-se tentar construir uma marca com identidade e reputação. Mas não é uma tarefa simples e com sucesso garantido.

