As fabricantes chinesas, em sua maioria, estão aproveitando a ociosidade das fábricas brasileiras e nacionalizando parte da sua produção. O que antes parecia um movimento pontual, hoje parece ser um movimento para acelerar o processo de montagem dos carros no Brasil, evitando todo o processo de construção de uma nova fábrica.
Trata-se de fábricas que foram fechadas ou não estão funcionando em sua capacidade total. Para isso, ocorrem aquisições destes locais ou parcerias para uso das fábricas com outras companhias já existentes por aqui.
| Montadora / Marca | Localização | Origem / Histórico da Fábrica | Status / Previsão |
|---|---|---|---|
| Geely | São José dos Pinhais (PR) | Fábrica da Renault | Confirmada |
| GWM | Iracemápolis (SP) | Antiga fábrica da Mercedes-Benz (fechada em 2020) | Montando |
| GM (Wuling) e MG | Horizonte (CE) | Parceria com a Comexport; hoje PACE, o local era antiga fábrica da Troller (fechada em 2021) | Montando/Confirmada |
| Chery | Itatiaia (RJ) | Fábrica da JLR (em funcionamento, mas a Chery deve assumir) | Em transição |
| GAC | Catalão (GO) | Planta da HPE onde são produzidos modelos da Mitsubishi | Início em 2027 |
| Changan | Anápolis (GO) | Planta da Caoa | Montando |
| BYD | Camaçari (BA) | Antiga fábrica da Ford (fechada em 2021) | Montando |
Qual o ganho de aproveitar uma fábrica ociosa?
As fábricas vazias ou ociosas são oportunidades para o início da produção de uma forma “facilitada”. “Isso é importante porque, primeiro, isso pode dar velocidade e algum ganho de custo também. A estrutura já pronta amortece o investimento. Mas, o principal ganho, normalmente, é a velocidade”, afirma Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Bastos ressalta que a escolha por esses locais e pelo Brasil não é por acaso. A indústria nacional tem uma cadeia de fornecedores e de logística, com rotas de exportação e estrutura portuária, robusta e madura comparado com outros países da América Latina. Outro fator que atrai as chinesas são as políticas públicas, como o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), no qual concede benefícios para fazer a localização e investimentos.
Há mais de cinco décadas, o Brasil desenvolve mão de obra especializada para a indústria automotiva, que está concentrada em locais próximos dessas fábricas. “A produção de veículos cada vez mais se volta para a robotização. Mas, ainda assim, você requer uma mão de obra mais especializada para o setor. E isso, com certeza, você obtém a nível de Brasil”, diz Antônio Jorge Martins, coordenador de cursos MBA para o setor automotivo da FGV.

Futuro da indústria nacional
Atualmente 40% dos carros eletrificados comercializados no Brasil já são produzidos em território nacional e isso deve ser intensificado nos próximos anos. Mas, a produção chinesa pode salvar a indústria nacional ou ajudar a chegar a um pico de 3,7 milhões de unidades produzidas, como visto em 2013?
“A produção de carros eletrificados, que estão sendo trazidos pelas montadoras chinesas, vão completar a indústria nacional, eu não diria salvar a indústria. Mas é uma grande oportunidade para a indústria brasileira se especializar”, ressalta o presidente da ABVE.
E completa: “chegar a números que já chegamos no passado, acima de 3 milhões de produção, será uma consequência natural dessa nova chegada da eletrificação.”

Com tantas chinesas, o mercado pode saturar?
No últimos anos, os brasileiros assistiram a chegada de uma enxurrada de marcas chinesas, que hoje são 28. O número praticamente se equipara ao das tradicionais que já estavam aqui, com 29. No entanto, do mesmo jeito que as chinesas chegaram, não pode haver uma saída repentina delas em caso de fracasso?
“Eu não acredito em evasão. O que nós vamos ter e já começou é um período de ajuste. Isso é natural quando você tem novas empresas chegando, com novos investimentos, novos produtos. Esse movimento é natural, acontece com frequência. Já aconteceu em outro momentos no passado”, prevê o comandante da ABVE.
Além de uma adequação, a fabricação nacional das chinesas será dividida entre comercialização local e exportação a outros países. “Não há como você sobreviver somente do mercado brasileiro. Com certeza torna-se fundamental as exportações”, explica Martins.
O movimento das montadoras da China no Brasil também deve acelerar o desenvolvimento de produtos. Isso em um cenário de parceria entre montadoras, com a utilização de mesma plataforma, para citar.
“Hoje, o mercado mundial se volta cada vez mais para tecnologia. Um veículo passa a ser cada vez mais um celular sobre rodas. E com isso você há de ter a evolução tecnológica permanente, ou seja, investir permanentemente em tecnologia. É isso que as chinesas possuem e as diferenciam de todas as marcas até então existentes no mundo inteiro. Isso atrai as fábricas ocidentais e até algumas orientais tirando proveito da velocidade de desenvolvimento de produto existente”, diz o especialista da FGV.

Como estão esses projetos em andamento no Brasil?
Geely
A Geely produz na fábrica da Renault, em São José dos Pinhais (PR), local de onde já saem as primeiras unidades pré-série do EX5 EM-i e onde montará o hatch elétrico EX2 até o final de 2026. Para isso, foi criada uma joint venture, ou uma parceria comercial, com a criação de uma nova empresa chamada Renault Geely do Brasil, que investe R$ 3,8 bilhões nesta fase inicial.
O acordo entre as duas fabricantes havia sido anunciado no início de novembro de 2025, com a Geely comprando 26,4% da operação da Renault do Brasil.

GWM
A GWM inaugurou em agosto de 2025 sua fábrica em Iracemápolis (SP). A unidade foi comprada da Mercedes-Benz em 2021, antes mesmo da GWM começar a vender carros no Brasil. No local, ela monta os SUVs Haval H6, Haval H9 e a picape Poer P30. A unidade opera em sistema de importação “peça a peça” e está em processo contínuo de nacionalização de componentes. Para isso, a Great Wall Motors investirá R$ 10 bilhões no Brasil até 2032.

GM e MG
A GM monta o Spark EUV e o Captiva EV, em Horizonte (CE), na antiga fábrica da Troller, hoje chamada Planta Automotiva do Ceará (PACE). O próximo modelo a sair do local será o Captiva PHEV, previsto para o segundo semestre de 2026.
A MG confirmou a montagem nacional do hatch elétrico MG4 Urban e do SUV médio MG S5. As operações industriais têm início previsto entre o final de 2026 e os primeiros meses de 2027.
Apesar de não serem marcas chinesas, os carros da Chevrolet são projetos da sua parceira chinesa Wuling, fruto de uma joint-venture com a SAIC – montadora que controla a MG. Ambas montam no local por meio de uma parceria com a Comexport, gestora do polo, que investiu R$ 400 milhões iniciais no local.

Chery
A Chery está em negociações para assumir a fábrica da JLR em Itatiaia (RJ). Ela planeja nacionalizar o Omoda 4. Outros modelos da Omoda, da Jaecoo e até mesmo de Lepas e Jetour (outras marcas que pertencem à Chery) também poderão ser montados ali futuramente. O planejamento estabeleceria um salto na capacidade produtiva para cerca de 100.000 carros anuais a partir do segundo semestre de 2027.

GAC
A GAC vai produzir em Catalão (GO), na fábrica administrada pela HPE, onde são produzidos atualmente modelos da Mitsubishi. Com o investimento de R$ 6,7 bilhões, a expectativa da chinesa é que o início da produção comece em 2027, com capacidade de produção de até 50 mil veículos por ano. O plano inicial da GAC Motor é focar na produção de um a dois modelos em Goiás, com os primeiros esforços voltados para o GAC GS3.

Changan
A Changan está montando na planta da Caoa em Anápolis (GO), de onde sai o Uni-T, desde março de 2026. Os próximos modelos deverão ser os SUVs CS55 e CS75. A linha da Caoa Changan recebe o aporte de R$ 5 bilhões, com utilização prevista para até os próximos três anos.

BYD
A BYD monta seus carros no formato SKD em Camaçari (BA), na antiga fábrica da Ford, que saiu do Brasil em 2021. A planta, inaugurada em 2025, foi adquirida em 2023 e estava desativada e vazia. A montadora investe R$ 5,5 bilhões na instalação e adequação do complexo. Do local saem o Dolphin Mini, Song Pro e o King. Ao todo, serão 12 modelos com o complexo em total funcionamento.

