
No mercado de inteligencia artificial, queimar caixa é comum, já que a corrida tecnológica ainda demanda muita pesquisa e desenvolvimento. No entanto, uma startup brasileira decidiu seguir o caminho inverso: em menos de dois anos de operação, a Nero.AI atingiu a marca de R$ 1 milhão em faturamento crescendo com as próprias pernas e uma equipe de apenas oito pessoas.
Agora, após se consolidar como o “braço direito” de IA para grandes instituições, como BTG Pactual, Insper e Instituto Lemann, a Nero prepara o seu movimento mais ambicioso: o lançamento de uma plataforma baseada em inteligência artificial desenhada para democratizar o alto desempenho nos estudos e ajudar quem quer ir bem no Enem e em outros vestibulares.
Leia também: Brasil lidera lista de potenciais unicórnios da América Latina em 2026
Pelo fim do “AI Washing”
A trajetória da Nero começou de forma orgânica. Gabriel Valentim, que tem histórico em competições científicas, começou a ser procurado por amigos para resolver dores de negócios usando Machine Learning. A demanda virou um negócio real quando ele se uniu ao economista Enrico Gazola para criar uma ferramenta de correção oral para alunos. A partir daí, a dupla percebeu que o mercado carecia de resolvedores de problemas que realmente entendessem a fundo a tecnologia, e não apenas de empresas que plugavam APIs de terceiros.
Enquanto muitas empresas tradicionais de software tentam adaptar seus desenvolvedores para o mundo da IA, a Nero já nasceu com o DNA da pesquisa. “Dos nossos seis desenvolvedores, quatro fizeram pesquisa acadêmica. A gente já sabia como abrir o capô, desplugar os fios e construir o nosso próprio motor. Isso nos deu uma vantagem tremenda”, explica Gabriel Valentim.
Esse conhecimento sobre algoritmos permitiu que a empresa fosse eficiente financeiramente. “Ao invés de fazer uma pesquisa muito ampla para desenvolver uma IA conversacional para tudo, nós aplicamos a nossa pesquisa a coisas muito específicas. Chegamos a um momento em que o que precisamos treinar é tão pequeno que não gastamos tanto dinheiro, o que nos torna efetivos financeiramente”, complementa Mario Martins, mentor da Nero.AI.
Hoje, a empresa atua filtrando o que é necessidade real do que é apenas o chamado “AI Washing” — a vontade de empresas de usarem IA apenas para parecerem inovadoras. “Se o cliente chega querendo um chatbot de WhatsApp com botões, não precisa de IA. Nós descartamos rapidamente o que não cabe e focamos onde a inteligência artificial realmente gera valor”, diz Valentim.
Resolvendo problemas reais
O portfólio da Nero.AI rapidamente se encheu de casos de uso complexos. Para uma empresa do setor financeiro, a startup diz estar automatizando um processo burocrático e regulado que antes levava de 60 a 70 dias e custava caro em horas de trabalho, entregando uma solução simples e de baixo custo. Na área da saúde, a equipe trabalha com grandes bases de dados treinando modelos do zero para “se antecipar ao momento de saúde dos pacientes” .
Um dos casos de maior destaque foi desenvolvido para a Fundação Lemann. A instituição tem uma rede de cerca de 800 líderes e enfrentava dificuldades para conectar pessoas com interesses e dores em comum de forma manual. A Nero resolveu o problema implementando um banco de dados vetorial, que permite fazer buscas por fatores similares.
“Pegamos todas as biografias e cargos e colocamos nesse banco de dados especial para aplicações de IA. O usuário entra no chat e diz: ‘preciso de um sócio da área de educação que já trabalhou com o terceiro setor e política’. O sistema busca as similaridades por baixo dos panos e o chat empacota isso numa linguagem natural”, detalha Gabriel.
Edu.AI
Após o sucesso no mercado B2B, a Nero se prepara para lançar no final de abril a Edu.AI seu primeiro produto direto para o consumidor final. O projeto, que já foi vencedor de hackathons de Google e Meta, tem a premissa de replicar o método de estudo da própria equipe da Nero.
Dos oito funcionários da startup, seis vieram de escolas públicas, foram medalhistas de olimpíadas de conhecimento e conquistaram vagas nas melhores universidades do país (como ITA, Unicamp e USP) e até bolsas no exterior.
“Nós entrevistamos esses alunos aqui dentro de casa, entendemos o que eles faziam de diferente que dava tanto resultado, e aplicamos o método deles sobre a nossa tecnologia. Criamos uma metodologia para liberar isso para outros alunos a um preço muito baixo”, revela Mario Martins. A expectativa é ousada: fechar 2026 com 15 mil alunos utilizando a plataforma.
Leia também: Mercado de relógios de luxo entra na era das apostas
A Edu.AI também inova no seu modelo de operação. Ela funcionará como uma empresa ultra enxuta: “todo o processo de divulgação, mídias sociais e alcance de público será feito usando a estratégia de agentificação (agentes autônomos de IA), com apenas três pessoas operando tudo por trás. A ideia é que seja uma das primeiras startups 100% AI do Brasil”, projeta Martins.
Diversificação e crescimento acelerado
Sem planos de buscar capital externo no curto prazo, a Nero foca na sustentabilidade do negócio. Com a chegada de clientes cada vez maiores – frequentemente indicados pela própria base atual – e o lançamento de novos produtos, a empresa projeta um crescimento de receita de cerca de 46% para o ano — meta que os fundadores acreditam que pode ser batida logo em junho.
Apesar da criação de produtos de prateleira, o DNA da empresa não deve mudar. “A concepção de uma empresa que é parceira de outras, que pesquisa a melhor forma de aplicar a IA e que une a inovação da academia aos problemas mercadológicos nunca vai deixar de existir, porque esse é o perfil dos fundadores”, conclui Mario Martins.
The post Com time de 8 pessoas, startup de IA fatura R$ 1 mi e cria assistente para estudantes appeared first on InfoMoney.
