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Reação da China à Meta torna modelo da Manus “oficialmente morto”

por SampaNews 29 de abril de 2026
29 de abril de 2026
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A startup de IA Manus, que já foi tratada como um dos grandes casos de ruptura capazes de desafiar o Vale do Silício, virou exemplo de tudo o que pode dar errado para empreendedores chineses. Motivo: as autoridades de Pequim mandaram a Meta desfazer a compra de US$ 2 bilhões da empresa.

Com um despacho seco, de 54 caracteres, vindo do principal órgão de planejamento do governo, a China deixou claro que está disposta a barrar, a qualquer custo, a transferência de tecnologia sensível para rivais geopolíticos. A medida vem depois de o governo restringir empresas como ByteDance e Moonshot AI de receber capital americano sem aval oficial, além de apertar o cerco a companhias chinesas com estruturas no exterior que planejam abrir capital em Hong Kong.

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Na prática, o recado inaugura uma fase bem mais incerta para o setor de IA, que vinha se expandindo em alta velocidade no país. Nos bastidores, o movimento já é intenso: fundadores, financiadores e empresas correm para não virar “a próxima Manus” — a startup criada por chineses que mudou a sede para Cingapura para acessar capital global. Tem empresa revisando portfólio, redesenhando estruturas societárias e até levantando verdadeiros “muros” entre as operações na China e nos EUA.

“A partir de hoje, ‘o modelo Manus’ está oficialmente morto”, resume Dermot McGrath, fundador da ZenGen Labs, consultoria de Xangai que atende startups de tecnologia. “Times chineses jogaram acima da divisão em IA e produziram uma sequência de unicórnios. Os formuladores de política passaram a ver a manobra da Manus como um roteiro que poderia colocar em risco as joias da coroa do ecossistema de inovação, justamente na tecnologia da década.”

Pequim se incomodou especialmente com duas coisas: a rapidez com que a Meta fechou o negócio e o fato de uma tecnologia de “agentic AI” ter ido parar em uma das gigantes mais valiosas do Vale do Silício.

A reação contra a Manus — que ocorre a poucas semanas de o presidente Xi Jinping se encontrar com Donald Trump — expõe a ambição da China de ultrapassar os EUA em poder tecnológico e econômico. A Meta preferiu não comentar.

Placa da Meta Platforms Inc. durante o evento Meta Connect em Menlo Park, Califórnia, EUA, na quarta-feira, 17 de setembro de 2025 (David Paul Morris/Bloomberg)

Por um tempo, a Manus foi vista como roteiro de sucesso para aspirantes chineses em IA: uma empresa viral criada por três founders locais, que ganhou destaque nos Estados Unidos antes de ser comprada pela Meta. Mas, mesmo com startups como a DeepSeek atraindo capital doméstico, a admiração pela Manus azedou rápido. Fundadores e fundos de venture capital agora precisam redesenhar, do zero, planos de captação e estruturas societárias para se adaptar ao novo ambiente regulatório.

Startups que planejavam seguir o caminho de MiniMax Group e Zhipu rumo à Bolsa de Hong Kong já procuram seus investidores para não ficarem presas em um “limbo de IPO”, dizem fontes ouvidas pela Bloomberg. Pelo menos três casas de investimento discutem com os fundadores se vale a pena desmontar estruturas offshore — os famosos “red-chips”, que até pouco tempo atrás eram quase sinônimo de passo obrigatório rumo a uma listagem.

Segundo essas pessoas, reguladores instruíram empresas de IA e robótica — incluindo a StepFun, rival da DeepSeek — a desfazer essas estruturas para poderem estrear na bolsa da cidade.

Para empresas com operação tanto na China quanto nos EUA, o caso Manus é ainda mais preocupante. O bilionário Chen Tianqiao, pioneiro dos games online no país, contou à Bloomberg que já implantou protocolos para proibir compartilhamento de informação ou código entre fronteiras, além de reduzir ao mínimo a circulação de gente, dados e ativos entre as bases.

Chen Tianqiao (Poppy Lynch/Bloomberg)

“O episódio da Manus é um enorme aviso para todo empreendedor que opera em mais de um país”, disse Chen. “Com o ambiente regulatório ficando mais complicado em todas as regiões, fundadores, conselheiros e escritórios de advocacia precisam ser muito mais cuidadosos e rigorosos com compliance.”

Entre startups menores, a leitura é que o caminho para crescer globalmente ficou tão estreito que algumas cogitam nascer fora da China — em Cingapura ou no Vale do Silício —, justamente para “diluir” a origem chinesa. A ideia seria manter engenheiros na China apenas como “back office” de baixo custo, para evitar esbarrar em armadilhas regulatórias como a da Manus.

Tudo isso acontece em meio a tensões geopolíticas em alta. Os EUA vêm desestimulando há anos o capital americano a investir em tecnologia chinesa, principalmente em áreas sensíveis como IA. Mais recentemente, gestores baseados na China passaram a usar estruturas de “fundos paralelos”, permitindo que investidores americanos fiquem expostos a setores menos sensíveis e, ao mesmo tempo, fiquem de fora de áreas proibidas.

A ZhenFund, uma das investidoras da Manus, montou um veículo específico para receber investidores americanos e outro para o resto do mundo em seu novo fundo, que busca levantar cerca de US$ 300 milhões.

“Empacotar uma startup para que ela vire alvo atraente de compradores americanos já virou uma indústria por si só”, diz Jenny Xiao, sócia da Leonis Capital, em São Francisco, que investe em startups de IA em estágio inicial. “A Manus foi a primeira que conseguiu, de fato, executar esse playbook.”

De qualquer forma, casos como DeepSeek e a própria Manus deixaram claro para investidores que IA chinesa não é algo que possa ser ignorado. A DeepSeek abriu sua primeira rodada externa e atraiu interesse de Tencent e Alibaba, enquanto outras novatas, como a Moonshot, se aproximam de um IPO.

A tecnologia por trás do agente de IA viral da Manus foi criada pelos fundadores quando ainda moravam na China. Lançado em 2025, o agente ficou famoso pela capacidade de automatizar tarefas complexas, como analisar ações ou escrever propostas comerciais.

Um mês depois, a controladora Butterfly Effect levantou US$ 75 milhões em rodada liderada pela Benchmark, do Vale do Silício, em uma avaliação de US$ 500 milhões. A entrada desse capital disparou um alerta no Tesouro americano, que abriu investigação sobre possíveis violações a regras de investimentos em tecnologias sensíveis. A Manus recebeu perguntas de autoridades dos EUA, como se membros do Partido Comunista Chinês já tinham visitado seus escritórios ou se o agente de IA usava modelos de base chineses.

O Tesouro e a Manus não responderam a pedidos de comentário.

“O uso, pela China, de ameaças e proibições coercitivas de saída contra a Meta e seus funcionários é consistente com a longa história de interferência do governo chinês em transações comerciais normais”, disse, em nota, o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai.

A investigação acabou travando o plano da Manus de treinar, internamente, um modelo menor usando ofertas open source chinesas. Com os custos explodindo, a empresa acabou procurando um comprador.

Quando a Manus transferiu sua equipe baseada na China para Cingapura, em julho, Pequim acendeu o alerta. As autoridades aceitaram a mudança sob a condição de que a empresa manteria laços estreitos com o ecossistema doméstico. Esse entendimento, dizem fontes, ruiu com o anúncio da venda para a Meta.

Em dezembro, a Meta revelou a compra da Manus — uma aposta rara em um time nascido na China — dias depois de a startup anunciar que havia ultrapassado US$ 100 milhões em receita anualizada. Naquele momento, não estava claro se Pequim iria tentar interferir em um negócio que, em tese, ocorreu fora de sua jurisdição.

“A Manus pode não ser hoje uma tecnologia estratégica”, diz Vey-Sern Ling, diretor do Union Bancaire Privée. “Mas é questão de tempo até startups chinesas surgirem com tecnologias sensíveis, e esse caso vai servir de alerta para todo mundo andar com muito mais cuidado.”

A trajetória da Manus foi acelerada: do lançamento do produto ao acordo com a Meta, passou menos de um ano. A mentalidade “all-in” da empresa estava num pôster pendurado no escritório em Pequim, antes da mudança para Cingapura: “Go big or die. There are no other options.” (em tradução livre: “Vença em grande escala ou morra. Não há outro caminho.”)

© 2026 Bloomberg L.P.

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