
Roger Bennett entrou no podcast de Alex Rodriguez há alguns meses e deu a notícia com a calma de alguém que esperou décadas para dizer aquilo. A-Rod continuava fazendo alguma variação da mesma pergunta — “Quando essa coisa do futebol vai finalmente decolar?” — e Bennett, nascido em Liverpool, torcedor do Everton e morador de Lower Manhattan há 30 anos, precisou contar a ele com cuidado: isso já aconteceu.
O futebol agora é o terceiro esporte mais popular dos Estados Unidos, atrás apenas do futebol americano e do basquete, segundo uma pesquisa do quarto trimestre de 2024 da Ampere Analysis citada pela The Economist. O esporte de A-Rod ficou atrás, mostra o mesmo estudo. “Não quero ser aquele cara que aparece no seu programa, A-Rod, você que é um ícone”, disse Bennett, “e trazer a notícia de que o beisebol caiu para o quarto lugar da lista, mas sou esse cara.”
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É exatamente esse o momento. A Copa do Mundo Masculina da Fifa de 2026 começa neste verão nos estádios americanos, seguida pela Copa do Mundo Feminina em 2027 — uma atrás da outra — e Bennett, cofundador e CEO do Men in Blazers, o podcast que virou um império de mídia com 100 funcionários, está em pleno modo “eu avisei”.
“O futebol foi por muito tempo o esporte do futuro”, disse ele, “e finalmente virou o esporte do presente.” Só a Copa do Mundo Feminina, argumenta ele, será “um fenômeno cultural” — a Netflix assinou um acordo exclusivo de transmissão nos Estados Unidos com a Fifa para as Copas do Mundo Femininas de 2027 e 2031. “O futebol não dorme”, diz ele, “e agora nós também não vamos dormir.”
O argumento de negócios para explicar por que isso importa é impressionante. Cerca de 200 milhões de pessoas assistem ao Super Bowl. Cinco bilhões assistirão à Copa do Mundo, enquanto o fim de semana de abertura da temporada 2025-26 da Premier League na NBC Sports teve média de 850 mil espectadores em seis partidas — a abertura de temporada mais assistida da história nos Estados Unidos — com o jogo entre Manchester United e Arsenal atraindo 2 milhões de espectadores entre NBC, Peacock e plataformas digitais.
Para qualquer executivo de mídia, estrategista de marca ou anunciante que ainda classifique o futebol como algo “em ascensão”, Bennett gostaria de ter uma conversa.
“Quando dois times entram em campo”, diz ele, “suas nações, histórias, políticas e culturas entram em campo junto com eles.”
Esse é o espírito de seu novo livro, “We Are The World (Cup): A Personal History of the World’s Greatest Sporting Event” (Nós Somos a Copa do Mundo: Uma História Pessoal do Maior Evento Esportivo do Mundo, em tradução literal), e também, argumenta ele, o motivo pelo qual a Copa do Mundo será um sucesso comercial gigantesco independentemente do que acontecer com as duas seleções com as quais os torcedores americanos mais se importam — os Estados Unidos e a Inglaterra — cuja eliminação do torneio, a história sugere fortemente, não é uma questão de “se”, mas de “quando”.
De Liverpool a Lower Manhattan
Bennett chegou aos Estados Unidos em 1994, o mesmo ano em que o país sediou pela última vez a Copa do Mundo Masculina — o torneio que deveria incendiar a popularidade do esporte da noite para o dia por lá. Isso não aconteceu, pelo menos não imediatamente.
O que veio depois foram três décadas de crescimento lento e orgânico: uma Major League Soccer que inicialmente teve dificuldade para atrair público, o crescimento da TV por assinatura e do streaming, a internet conectando Minnesota a Manchester e Los Angeles a Liverpool, a seleção feminina americana ganhando tudo o que aparecia pela frente e, por fim, a Premier League se tornando a principal exportação cultural.
“A Inglaterra costumava ter um império”, disse Bennett, com ironia. “Isso meio que se transformou em ter uma família real que vive implodindo… E agora eles só têm o futebol. É a maior exportação cultural deles.”
Ele cresceu em Liverpool como torcedor de terceira geração do Everton — o clube, segundo ele, “corria no seu sangue” — o que significa que amadureceu entendendo o futebol não como entretenimento, mas como identidade, como uma religião cívica. Até hoje ele se surpreende com a natureza volúvel e pouco fiel da torcida esportiva americana.
Essa lealdade sem vínculo geográfico deu a Bennett sua missão. Segundo ele, o público americano de futebol amadureceu e virou algo sem precedentes: uma torcida apaixonada, global em suas lealdades e que não depende mais do desempenho do time local para se manter engajada.
Uma pesquisa da Men in Blazers descobriu que 54% dos torcedores americanos de futebol acompanham três ou mais times ao redor do mundo — um hábito praticamente inexistente na Europa, onde a identidade é geográfica e passada de geração em geração.
Os europeus, observa Bennett, consideram isso genuinamente incompreensível. Já os americanos não entendem por que o hábito seria tão extraordinário. Os torcedores americanos fazem escolhas, disse Bennett, sem obrigação herdada. “Eles não nasceram como torcedores de terceira geração do Everton, como eu, então isso está no meu sangue. Eles escolhem do zero.”
O resultado é que Liverpool e Arsenal — clubes definidos por autenticidade, história e um certo sofrimento romântico — são os dois times com mais torcedores nos Estados Unidos, enquanto o Manchester United, que chegou às telas americanas muito depois de seus anos de glória, é visto com uma indiferença divertida.
“A maioria dos torcedores americanos nunca viu o time ganhar a liga”, explicou Bennett, um contraste enorme com o status de potência do clube literalmente no resto do mundo.
Essa disposição para começar do zero é, paradoxalmente, o que torna o torcedor americano tão receptivo às histórias de fundo — e histórias de fundo são exatamente o que o Men in Blazers sempre vendeu.
No começo da trajetória do Men in Blazers, quando ainda era um podcast, ele e o coapresentador Michael Davies receberam por e-mail uma pergunta inocente: em que parte de Londres fica Newcastle?
“Por que um americano saberia que Newcastle é uma orgulhosa região industrial do norte, pós-carvão, pós-aço e pós-indústria naval, esvaziada desde os anos 70 e 80, após as greves dos mineiros, e onde o futebol virou praticamente tudo em termos de orgulho nacional?”, disse ele.
“Percebemos que nossa missão era falar de futebol semana após semana, acho que com inteligência emocional, mas também trazendo o contexto, os sonhos, os anseios, o subtexto, a geografia, a história, o senso de encantamento.”
‘O século americano do futebol’
Tudo isso significa que esta Copa do Mundo será gigantesca independentemente de a seleção dos Estados Unidos ir longe ou cair cedo — e Bennett é brutalmente sincero sobre qual resultado parece mais provável.
A seleção masculina dos EUA venceu exatamente um jogo de mata-mata em toda a história das Copas do Mundo. Quatro anos de classificação automática como país-sede produziram uma sequência de amistosos sem importância, apesar do rótulo quase amaldiçoado de “geração de ouro” de jogadores.
“Temos os melhores jogadores individuais que já tivemos”, disse Bennett, que apresentou um diagnóstico de algo errado na mentalidade do futebol americano. “Quando enfrentamos uma grande seleção, ainda temos complexo de inferioridade. Síndrome do impostor.”
Bennett lembra que se tornou cidadão americano depois de prometer fazer isso ao vivo na ESPN caso os Estados Unidos conseguissem sair do “grupo da morte” na Copa do Mundo de 2014. “Eles conseguiram. E eu também.”
Bennett também é brutalmente sincero sobre as chances de seu país natal. Disse que encara a seleção inglesa com a ternura sombria particular de alguém que a viu ser eliminada nos pênaltis durante toda a sua vida consciente.
Ele mencionou um livro em sua estante chamado “40 Years of Shite” (40 anos de m…, em tradução literal) e comparou o ciclo anual da Inglaterra em Copas do Mundo a uma analogia favorita de seu amigo John Oliver, torcedor do Liverpool: “A Inglaterra é como o Charlie Brown tentando chutar a bola enquanto a Lucy segura. Só que os ingleses parecem até gostar da dor.”
Os ingleses, disse ele, inventaram o esporte e passaram quase 60 anos convencendo a si mesmos de que um direito divino lhes entregará o troféu. Eles ganharam uma vez — de maneira controversa, em casa, em 1966, um dia que Bennett observa estar tão distante quanto Urano, mas ainda discutido como se tivesse acontecido na terça passada.
Seu veredito: “Consigo imaginar a Inglaterra ganhando a Copa do Mundo tanto quanto consigo imaginar o New York Jets vencendo o Super Bowl.”
E ainda assim — a festa será gigantesca. “A Copa do Mundo será um enorme sucesso, quer esta seleção americana caia na fase de grupos ou vá longe”, disse Bennett. O que ele chama de “identidades híbridas da América”, que tornam o país um mosaico tão vibrante e extraordinário, significa que muitos americanos estarão torcendo, por exemplo, por Coreia, Japão, Colômbia e até México. “É esse o lugar maluco em que estamos.”
Bennett chama isso de o início de “o século americano do futebol”, e as evidências são difíceis de contestar. A maioria dos clubes da Premier League agora tem ao menos participação de proprietários americanos.
O mesmo acontece em outras ligas europeias. Ryan Reynolds pode estar a caminho da elite com o Wrexham FC. Mas Bennett enxerga claramente a tensão criada por isso — o que ele chama de a principal linha de ruptura do futebol moderno: a colisão entre a cultura profundamente local e historicamente enraizada do esporte e a corrida global por dinheiro que muitas vezes acompanha a propriedade americana.
Os proprietários mais inteligentes, argumenta ele, são aqueles como o Fenway Sports Group, que chegaram ao Liverpool, rapidamente entenderam o que não sabiam e conquistaram dois títulos da liga e uma Liga dos Campeões.
O exemplo de alerta é o dono que chega atropelando, “falando abertamente em transformar clubes de futebol de plataformas de conteúdo com baixo desempenho em plataformas de conteúdo de alto desempenho”. Esse tipo de visão, disse Bennett, “mostra uma incompreensão profunda do que eles compraram — e os torcedores vão deixar isso claro quase imediatamente.”
Essa tensão também aparece na própria Copa do Mundo, onde os preços dos ingressos foram definidos segundo a lógica do mercado esportivo americano — oferta e demanda, estilo lugares de quadra do Madison Square Garden — em um esporte cujas raízes operárias são profundas.
“O futebol é um esporte da classe trabalhadora, e os torcedores se revoltam contra esse tipo de mentalidade. São duas culturas colidindo, e essa reação e contrarreação definirão o futuro do esporte.”
Construindo a máquina das histórias de fundo
Este verão também será grande para a Men in Blazers. Em parceria com a The Home Depot, a rede vai percorrer o país de Los Angeles a Seattle e ao Texas em um ônibus personalizado e co-branded, transmitindo ao vivo de um estúdio móvel itinerante inédito todos os dias do torneio.
A rede cresceu de dois homens gravando em um armário para uma operação com mais de 100 pessoas, com plataformas dedicadas à Premier League, à Liga dos Campeões, à seleção masculina dos EUA, ao futebol feminino e ao público hispânico de futebol — cada uma servindo como uma comunidade distinta, e não como um bloco único.
A Men in Blazers lançou o The Women’s Game em 2024 e o Vamos em 2025 para o público latino-americano de futebol, enquanto a rede mais ampla registrou crescimento anual de 44% em impressões totais em 2025. O futebol feminino, diz Bennett, é “uma das maiores histórias que testemunhei na minha vida”.
Não existe outro país do futebol no mundo, argumenta ele, cuja identidade futebolística tenha sido tão moldada pelo sucesso de suas mulheres quanto a dos Estados Unidos.
No fim das contas, o sonho dele é mais simples do que tudo isso: “O sonho de ver os Estados Unidos ganharem a Copa do Mundo masculina durante minha vida provavelmente é aquilo em que mais penso.” Ele fez uma pausa. “Podemos sonhar.”
De qualquer forma, o mundo está chegando. E, pela primeira vez nos pouco mais de 30 anos desde que Roger Bennett desembarcou nestas terras, os Estados Unidos estão realmente prontos.
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