
O esforço fiscal necessário para estabilização da dívida no Brasil permanece elevado em um cenário caracterizado por juros reais estruturalmente altos e crescimento potencial relativamente modesto. Assim, o próximo governo, que assumirá em 2027, precisará sinalizar uma geração persistente de superávits primários se quiser mudar a percepção sobre a dinâmica da dívida pública. A conclusão está em relatório do UBS Global Wealth Management, assinado pela diretora de macroeconomia para o Brasil, Solange Srour.
Segundo o texto de Srour e equipe, as simulações sugerem que, sob hipóteses de crescimento do PIB próximas de 2%, o esforço fiscal fica entre 2,2% (com os juros nominais em 10%) e 4,0% (com a Selic em 13%). Numa projeção de juros nominais ao redor de 12%, o superávit primário estabilizador aproxima-se de 3,4% do PIB.
Os exercícios realizados no estudo utilizaram como ponto de partida uma dívida bruta próxima de 79% do PIB no fim de 2025.
“Esses números ajudam a contextualizar a dificuldade estrutural enfrentada pela economia brasileira. Em um ambiente de juros reais elevados, pequenas deteriorações fiscais tendem a produzir dinâmica rapidamente desfavorável da dívida pública. Ao mesmo tempo, reduções persistentes do prêmio exigido pelo mercado possuem capacidade relevante de diminuir o esforço necessário para estabilização da dívida”, diz o texto.
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O relatório destaca que, em economias emergentes como o Brasil, a taxa real longa de juros reflete simultaneamente fatores globais, percepção de risco institucional, expectativas de inflação e dúvidas sobre a trajetória futura da dívida pública. Nesse contexto, o UBS considera que a NTN-B de 10 anos funciona, em grande medida, como um termômetro da credibilidade fiscal e do prêmio de risco soberano.
Por conta disso, se propõe a investigar de que forma a percepção de sustentabilidade fiscal afeta a taxa real longa brasileira. E revisita episódios recentes para demonstrar que o mercado tende a reagir menos a alterações fiscais pontuais e mais à percepção de mudança duradoura na trajetória esperada da dívida pública.
“A evidência empírica sugere que a PEC do Teto, a eleição presidencial de 2018 e a agenda reformista daquele período foram interpretadas pelo mercado como sinais relativamente persistentes de mudança na dinâmica fiscal brasileira”, diz o relatório.
“Já o período pós-pandemia foi marcado por maior ruído institucional, sucessivas alterações de narrativa fiscal e crescente predominância dos fatores globais sobre os juros domésticos, tornando mais difícil identificar efeitos fiscais individuais sobre a NTN-B”, complementa.
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O UBS conclui que mudanças percebidas como permanentes no regime fiscal possuem capacidade relevante de alterar a taxa real longa brasileira. “O fechamento observado da NTN-B ao longo do período 2016–2019 parece ter refletido menos uma melhora marginal dos indicadores fiscais correntes e mais uma mudança na percepção sobre a trajetória futura da dívida pública e a credibilidade do arcabouço macroeconômico”, lembra.
Para a equipe do UBS Global Wealth Management, produzir um novo evento de mudança de regime semelhante ao observado entre 2016 e 2019 exige, em última instância, alteração relevante da trajetória esperada da dívida pública. “Nesse sentido, a taxa real longa incorpora não apenas fundamentos macroeconômicos correntes, mas também um prêmio associado à percepção de risco fiscal, volatilidade institucional e incerteza sobre a trajetória futura da dívida pública”.
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