
PHUKET, Tailândia — Ekaterina Mittsel repassava a rotina da filha de 6 anos enquanto esperava na fila para buscá-la na escola sob o calor tropical da Tailândia. Segundas-feiras são para ensaio do coral, terças e quintas para ginástica. Quartas e sábados são para aulas de russo — só por precaução, caso a família algum dia decida voltar para casa.
Os Mittsel estão entre as centenas de milhares de russos que deixaram o país após a invasão da Ucrânia em 2022 e fazem parte dos cerca de 30 mil imigrantes russos que vivem em Phuket, uma ilha turística no sul da Tailândia. Muitos veem o local como mais tranquilo que Bali, na Indonésia; mais barato que Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; e mais acolhedor que a Europa.
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“Brincamos que encontramos nossos amigos aqui com mais frequência do que encontrávamos em Moscou”, disse Mittsel, 36, durante uma entrevista no bangalô da família, localizado numa encosta com vista para a costa sul de Phuket.
Os sinais da influência russa estão por toda a ilha, que já era um destino popular entre russos antes mesmo da guerra: saunas russas que prosperam apesar do clima tropical, mercados russos que vendem ingredientes do país de origem e voos diários para Phuket operados pela companhia aérea estatal russa Aeroflot. Restaurantes à beira-mar servem borsch gelado, e alguns astros do pop e rappers russos incluíram a ilha em suas turnês internacionais.
Mas, à medida que a comunidade russa cresceu em Phuket, também aumentou o ressentimento local diante do acúmulo de propriedades por russos, da abertura de negócios e — segundo críticos — do uso abusivo da política de vistos do país para trabalhar ilegalmente. (O Ministério das Relações Exteriores da Tailândia se recusou a responder diretamente às perguntas sobre alegações de fraude de visto na ilha.)
Esse ressentimento contribuiu para uma sensação de transitoriedade que paira sobre a comunidade russa em Phuket. Russos que têm vistos de residência, incluindo os Mittsel, disseram em entrevistas que não veem a ilha como um lar definitivo. E russos em estadias de curto prazo enfrentam pressão por causa da repressão do governo aos vistos de turismo.
O governo tailandês reduziu pela metade o período de isenção de visto para turistas, de 60 para 30 dias. A mudança pode afetar muitos dos cerca de 15 mil russos que, segundo o consulado russo em Phuket, vivem na ilha sem vistos de longa permanência. Alguns são jovens que deixaram a Rússia para fugir do recrutamento militar.
Evgenii, engenheiro de 39 anos que pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado por medo de represálias, contou que deixou a Rússia em 2022 e passou por diferentes países da Europa antes de se estabelecer em Phuket. Trabalhou cerca de seis meses em uma imobiliária, mas precisou pedir demissão para sair temporariamente do país e renovar sua isenção de visto, que estava para vencer.
“Sou bom nisso”, disse ele, referindo-se ao trabalho no mercado imobiliário. “Mas estou sempre pensando em cruzar a fronteira.”
Alguns dos jovens russos que permanecem em Phuket frequentam cultos da Igreja Ortodoxa aos domingos e ficam depois para um almoço com arroz e sopa de mariscos. Um homem contou que treinava em uma das academias de muay thai da ilha por meio de um visto de 90 dias oferecido pelo governo a lutadores amadores.
À medida que suas isenções de visto expiram, muitos russos pagam US$ 150 para serem levados até a fronteira e de volta, reiniciando o prazo de permanência — uma despesa recorrente e pesada para jovens que sobrevivem de trabalhos irregulares. Evgenii disse que iria ao Vietnã para avaliar suas opções de continuar na Tailândia.
“Ou volto para Phuket com um visto, ou pego minhas coisas e sigo em frente”, afirmou.
Thaneth Tantipiriyakit, presidente de uma associação provincial de turismo que representa empresas em Phuket, disse que o grupo recebeu reclamações de moradores locais sobre a política de isenção de visto.
“Sempre que um estrangeiro se comporta mal, culpam a isenção de visto”, disse ele, acrescentando que os russos se tornaram um alvo visível em parte porque são o maior grupo de turistas da ilha. Ressentimento semelhante surgiu em Bali, a ilha indonésia que antes recebia de braços abertos russos e ucranianos que fugiam da guerra.
Em Phuket, alguns moradores também culpam os russos pela alta dos preços dos imóveis, que tornou a moradia inacessível para muitos tailandeses.
O centro da vida social russa em Phuket, Bang Tao, ganhou o apelido de Rublyovka tailandesa, em referência ao bairro mais exclusivo de Moscou. Há quatro anos, a área era apenas uma faixa vazia de terra à beira-mar. Agora tem resorts, áreas comerciais, vilas em condomínios fechados e condomínios de luxo.
Compradores russos responderam por mais da metade das vendas de imóveis em Phuket no primeiro ano da guerra na Ucrânia, segundo o Centro de Informações Imobiliárias da Tailândia, órgão de pesquisa do governo. O preço dos terrenos na ilha subiu pelo menos 20% naquele ano, informou o órgão.
Maksim Shatilov, de São Petersburgo, na Rússia, e dono de uma corretora imobiliária em Phuket voltada para famílias russas, viu seus negócios dispararem nos últimos quatro anos.
“Depois que a guerra começou, não havia muitos lugares onde fosse possível se sentir livre sendo russo”, disse.
O dinheiro russo estava em evidência numa noite recente no Come Leo Come, um clube-restaurante em estilo russo em Bang Tao pertencente a um ucraniano. Os clientes chegavam em carros esportivos, e salto alto era o código de vestimenta implícito para as mulheres.
No salão de jantar, com iluminação baixa e paredes revestidas de veludo, garçons que falavam russo ofereciam doses de tequila e vodca premium, além de travessas de sashimi e caviar, enquanto funcionários tailandeses trabalhavam nos bastidores. Dançarinos exibiam garrafas de champanhe com velas faiscantes enquanto dois saxofonistas tocavam sobre o balcão do bar.
Apesar de ter construído sua fortuna em Phuket, Shatilov, 31 anos, disse que aquele não seria seu lar definitivo. Mas ele e a esposa, Alona Myronenko, não podem voltar para a Rússia, em parte porque ela é cidadã ucraniana.
“Hoje, o lugar para onde eu realmente quero viajar é Moscou”, disse ele, “mas não me sinto seguro.”
Mittsel disse que sua família também sente o chamado de casa.
Eles deixaram a Rússia em 2022 porque o marido dela, engenheiro de software em uma empresa de tecnologia americana, não conseguia mais receber pagamento localmente depois que sanções dos Estados Unidos bloquearam vários bancos russos do sistema de pagamentos Swift.
Depois que se estabeleceram em Phuket — cenário da temporada mais recente de “The White Lotus” —, outros amigos russos se juntaram a eles em busca de estabilidade para criar suas famílias.
Ao fim de cada ano letivo, os Mittsel consideram voltar para a Rússia em vez de renovar os vistos. Eles visitam o país todo verão para ver os pais, mas a filha sente falta de patinar no gelo e brincar na neve. No ano passado, Mittsel a levou para um festival de inverno em um shopping de Bangkok, capital da Tailândia, para brincar na neve artificial.
Até agora, decidiram ficar, preocupados que ela tivesse dificuldade para se adaptar às escolas russas.
Mittsel disse sentir falta da cena de ópera, balé e música de Moscou. Mas não sente falta das baladas. Por isso, ela e o marido raramente fazem o longo trajeto da casa deles, no extremo sul da ilha, até os clubes exclusivos de Bang Tao.
“Eu não tenho esse tipo de roupa”, disse ela. “Deixei tudo na Rússia, de propósito.”
c.2026 The New York Times Company
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