Na semana passada, associações e federações que representam o setor automotivo criticaram a medida do governo federal que visa aumentar o teor de etanol na gasolina de 30% para 32%, prevista para ocorrer a partir do dia 1º de agosto, e aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em julho, conforme divulgado por QUATRO RODAS.
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública para suspender o aumento do teor de etanol na gasolina. O argumento do MPF é de que o governo utilizou ensaios anteriores, focados na mistura de 30% (E30), como base para aprovar o novo índice. A justificativa governamental apoiou-se na margem de tolerância de 2% adotada nesses testes antigos. Contudo, a procuradoria argumenta que essas avaliações mediram apenas parâmetros de desempenho e dirigibilidade, sem validar o uso contínuo e obrigatório do padrão E32.
Porém, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), maior organização que representa o setor, rebate as justificativas que foram contra à nova mistura. O argumento tem como base, justamente, que os testes para a gasolina E32 são os mesmos utilizados para a gasolina E30. “O que mudou do E30 para o E32, em termos de teste. Absolutamente nada. São os mesmos testes, o mesmo protocolo, e inclusive com participação de todos que estão aí criticando“, afirma Luciano Rodrigues, diretor de inteligência setorial da Unica.
O protocolo de teste foi desenhado por meio de um grupo coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, que envolveu representantes dos diferentes setores, indústria automotiva, autopeças, ciclomotor, produtores de combustíveis fósseis e acadêmicos. Muitos dos quais acabaram criticando a medida posteriormente.
“O CNPE, na decisão dele, pena que a resolução ainda não tenha saído, mas o comunicado que foi feito pelo ministério, e isso deixa bem claro, que ele menciona que não vai permitir essa tolerância de dois pontos percentuais… Com o E32 tem que ser E32. Eu vi até alguns argumentos de que, olha, se aprovar o E32 pode usar E34. E o E34 não foi testado, de fato. O E34 não foi testado, mas o Ministério do governo deixou claro que essa tolerância não vai ser permitida“, diz o representante da Unica.
E completa: “isso talvez tenha ficado [confuso] porque rotineiramente se tinha esses dois pontos percentuais [a mais sempre que o teor do etanol era elevado na gasolina]. Talvez os agentes tenham incorporado essa questão dos dois pontos percentuais, como a resolução ainda não saiu.“

Por que a gasolina E32?
O principal argumento do governo federal para aumentar a mistura de etanol na gasolina é a redução da dependência do petróleo importado. Atualmente, há uma volatilidade no preço do petróleo devido às tensões no Estreito de Ormuz, onde passa aproximadamente 20% do petróleo do mundo. A atualização do teor da mistura vai fazer com que o país deixe de importar 900 milhões de litros de gasolina por ano, segundo o Ministério de Minas e Energia.
“A visão que a gente deveria ter nesse momento, é que o Brasil, diferente de outros países do mundo, pelo histórico todo que a gente tem, tem uma opção que atenua o impacto do que está acontecendo ao redor do mundo, esse aumento do preço do petróleo sobre o consumidor brasileiro. Então, nós estamos trocando gasolina importada mais cara por etanol renovado produzido domesticamente mais barato“, defende Rodrigues.
E completa: “Além dessa questão de atenuar o impacto na gasolina, reduzindo importação, que a gente ainda importa, um nível razoável de gasolina, não é muito, mas 3,5 bilhões, 4 bilhões, algo entre 10 e 15% do consumo. Nós também oferecemos do outro lado um biocombustível mais barato. Hoje, o etanol hidratado nos postos, ele está cerca de 60% do preço da gasolina“.

Carros antigos
Em relação aos carros antigos, a Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA) fala que a gasolina E32 negligencia e prejudica os proprietários de veículos que não são bicombustível. “Esta aprovação desconsidera completamente as implicações para os proprietários de veículos mais antigos, que não foram projetados para lidar com proporções tão elevadas de etanol na gasolina… É preciso destacar a relevante parcela de veículos de pessoas com menor poder aquisitivo, que sofrerão danos contínuos em razão dessa mudança abrupta“, afirma a FBVA.
Especialistas ouvidos por QUATRO RODAS afirmam que o melhor tipo de gasolina a ser utilizado para esses carros é a premium, com 25% de teor de etanol, mais cara e mais difícil de ser encontrada. Sobre esse tema, o diretor da Unica rebate afirmando que é uma possibilidade para esses carros, e que eles já estavam acostumados com a gasolina E27.
“A pessoa do carro antigo, um carro da década de 80, placa preta, ele já não usa a gasolina para qual ele foi construído há muitos anos. Vale lembrar que a gente já tem mais de uma década usando o E27. Às vezes dá a impressão que a gente do nada, nunca colocou etanol na gasolina e agora estamos colocando 32%. Nós estamos há mais de uma década com o 27, foi para 30 e o teste do 30 também para o 32. Tem a gasolina premium que eles podem utilizar“, defende o diretor da Unica.

Borra que acontece no biodiesel pode ocorrer com a Gasolina E32?
Entre os veículos a diesel — como picapes e caminhões —, há relatos de consumidores que associam a maior proporção de biodiesel ao surgimento de problemas mecânicos e formação de borra nos tanques, como descrito em matéria por QUATRO RODAS. É possível que veremos os mesmos problemas nos tanques de carros movidos somente a gasolina?
“Se você checar no resultado do Instituto Mauá de Tecnologia [responsável pelos testes da gasolina E30 e E32] foi testado a estabilidade do combustível. Esse combustível foi colocado no local, foi feito o teste, depois de algum tempo testado de novo para ver se ele não perdeu especificações e e características físico-químicas. Por isso foi checado. Com o etanol, a gente nunca viu esse problema. Talvez [esse problema] tenha sido contaminação por conta do biodisel“, explica Rodrigues.

Futuro terá gasolina mais barata? E a E35?
O diretor da Unica não confirma que a nova gasolina poderá gerar uma economia ao consumidor em relação ao preço cobrado. “Às vezes essa economia de alguns centavos pode ser atenuada ainda porque tem alguma movimentação de custo de transporte, de margem de posto, margem de distribuidora. Então, não dá para eu ir fazer qualquer tipo de inferência assertiva sobre o impacto do que vai acontecer na bomba.“
Sobre os estudos com a gasolina E35, o especialista da Unica afirma que eles ainda não começaram. O que houve foi apenas a constituição de um grupo com representantes da indústria automotiva, autopeças, produtores de etanol, combustíveis fósseis, para uma primeira conversa de como deveria ser os os procedimentos para realização dos testes.

