
Os indicadores da economia brasileira apontam dados positivos, mas a conjuntura completa esconde sérios problemas estruturais para o desenvolvimento do país, avalia o economista-chefe e sócio da G5 Partners, Otávio Luis Leal.
Do lado positivo, a atividade econômica está avançando – a prévia do indicador apontou variação de 1,3% no primeiro trimestre –, a taxa de desemprego está nas mínimas históricas, a renda da população está batendo recordes, e a guerra no Oriente Médio abriu oportunidades para a exportação do nosso petróleo, atraindo dólares que derrubaram a cotação da moeda norte-americana no país, barateando as importações na cadeia produtiva.
Mas, abaixo dessa camada, há limitações e falta de investimento concreto para o desenvolvimento. Leal cita que o país está há bastante tempo sob uma economia que opera com juros restritivos, com a taxa Selic atualmente em 14,5%, e uma inflação com viés de alta que pode fechar o ano em 5%.
Para ele, o resultado desta equação é uma nação que se destaca entre os emergentes, mas não conseguirá se desenvolver substancialmente pela falta de investimentos.
“Eu diria que estamos vivendo um equilíbrio fantasioso. Sobre a superfície da água, parece que está tudo bem: crescimento acima de 2% (já chegamos a ter 3%), taxa de desemprego na mínima histórica. Só que estamos com juros [projetados até o fim do ano] de 13,5%, inflação próxima de 5% e uma taxa de juro real altíssima, de 8% a 10%. Isso hipoteca o nosso crescimento futuro porque inibe o investimento produtivo de longo prazo”, avalia.
“Se eu fosse resumir, estamos vivendo uma ilusão”, afirma. “Eu diria que o Brasil parece um lago: a superfície está calma, mas você não sabe o que está acontecendo por baixo”, diz.
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O radar da inadimplência
A ilusão do crescimento econômico esbarra no elevado nível de endividamento, que atinge simultaneamente famílias e corporações.
O consumo das famílias brasileiras está estagnado em razão do forte comprometimento da renda com o pagamento de dívidas. Otávio Luis Leal explica que esse cenário rompeu a relação histórica, onde o aumento de renda refletia diretamente na expansão do consumo. Agora, o que se vê é um aumento da renda sem que o consumo reflita essa sustentação.
Iniciativas de renegociação de passivos, como a primeira versão do programa Desenrola, até retiraram consumidores da lista de inadimplência inicial, mas não foram capazes de devolver a tração e a força para as compras no varejo, segundo Leal.
Dados estruturais de mercado reforçam o diagnóstico do economista. Um estudo recente do Centro de Liderança Pública (CLP) demonstra que a renda recorde do brasileiro acaba engolida pelo pagamento de dívidas e juros. Apesar do aquecimento do mercado de trabalho e do aumento de vagas, o alívio financeiro não chega aos lares, uma vez que as parcelas das dívidas crescem na mesma proporção dos salários.
O documento do CLP aponta que a substituição de dívidas caras por outras com taxas levemente menores não soluciona o problema de fundo. Na visão de especialistas da entidade, o ciclo recente de expansão de crédito e consumo apenas comprou tempo, mas não garantiu sustentabilidade.
Caixa das empresas trava e recuperações judiciais entram em cena
Do lado corporativo, a pressão do crédito também se mostra restritiva. Leal cita o elevado número de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial que vêm acontecendo. A mais recente, pedida pela tradicional fabricante de brinquedos Estrela, ilustra a dificuldade enfrentada pelas companhias no país.
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Neste contexto, Leal alerta sobre o peso das despesas financeiras nas empresas. Com uma elevada taxa de juro real, as empresas têm dificuldades de investir e passam a pagar juros em vez de expandir negócios. E, por trás dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial, diversas outras empresas até mantêm as operações viáveis, mas sucumbem porque suas estruturas de endividamento se tornam incompatíveis com a real capacidade de geração de caixa.
Sem acesso a linhas de financiamento com taxas compatíveis com a rentabilidade operacional, as corporações optam por paralisar contratações e suspender a compra de maquinário, o que trava a modernização do parque industrial brasileiro e afeta a competitividade do país no exterior.
Na visão de Leal, a economia consome suas reservas no presente e consolida um cenário de refém para desafios de ciclos econômicos futuros.
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