
Crescendo em uma comunidade agrícola no Vale Central da Califórnia como o caçula de cinco irmãos, Scott Vincent Borba sentia que estava destinado a algo grande.
“Eu sempre quis ser algo maior”, disse. Na faculdade, quando via estudantes dirigindo um Alfa Romeo ou Porsche, também queria ter um carro de luxo.
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Ele acabou ajudando a criar a e.l.f. cosmetics, que se transformou em uma empresa de US$ 3 bilhões vendendo óleo labial para devolver o brilho, bálsamo de limpeza que remove maquiagem e outros produtos na Target, Walgreens e Walmart.
Criou sua própria marca, Borba, que produzia água saborizada e balas de goma que prometiam purificar e revitalizar a pele. Escreveu dois livros sobre cuidados com a pele e chegou até a gravar uma música chamada “Skin Deep”.
Mas, apesar do sucesso aparente, disse que era infeliz. Numa noite, cerca de 12 anos atrás, durante uma festa em sua casa recém-reformada nas colinas de Hollywood, com seu conversível Aston Martin estacionado do lado de fora, olhou ao redor e começou a questionar tudo.
“Qual é o sentido da vida?”, lembrou ter pensado, em entrevista. “É só ganhar dinheiro, festejar e repetir tudo de novo, tentando acumular coisas, e depois morrer? E eu pensei: ‘Foi para isso que fomos criados? É por isso que estou aqui?’”
Essas perguntas levaram Borba, hoje com 52 anos, a uma jornada extraordinária, que será concluída neste sábado (23), quando ele será ordenado padre da Igreja Católica na Diocese de Fresno, na Califórnia.
Ao longo do caminho, precisou enfrentar o peso da própria vida anterior como executivo de alto escalão do setor de beleza.
“Viver uma vida em que levei todo mundo para a vaidade, tentando transformar as pessoas em pequenas Kardashians, oferecendo produtos para que parecessem e se sentissem parte do universo das celebridades, é o oposto do que Deus quer”, disse Borba. E acrescentou: “É algo com que vou ter de viver em penitência pelo resto da vida, sabendo como impactei o mundo dessa forma.”
Borba disse que encontrou verdadeira realização em sua nova vida servindo a Deus. Contou que abriu mão de seus bens — sua casa, seu Aston Martin, seus casacos Dolce & Gabbana, seus ternos da Gucci e Ralph Lauren, além de ter se desfeito de seus investimentos em ações e de sua conta de aposentadoria.
A transição do setor da beleza para o clero não foi fácil. Em seu primeiro encontro com um diretor vocacional — sacerdote que ajuda católicos a discernirem sua vocação — Borba contou que apareceu usando um terno Hugo Boss, dirigindo um Mercedes e pronto para fazer sua “apresentação”.
“‘Meu Deus, temos muito trabalho pela frente’”, lembrou Borba sobre as palavras do padre.
Borba foi criado em uma família católica em Visalia, Califórnia. Quando criança, disse que vendia doces aos amigos “com uma margem de lucro alta”, e seu pai incentivava seu espírito empreendedor.
Formou-se na Universidade Santa Clara, instituição jesuíta da região da baía de San Francisco, e em 2004 ajudou a criar a e.l.f. — sigla para “eyes, lips and face” (olhos, lábios e rosto) — como uma marca acessível, depois de perceber mulheres com carros de luxo comprando produtos de beleza em lojas populares em Los Angeles.
“Eu disse: ‘Essa é a oportunidade’”, relembrou.
À medida que a marca — hoje chamada E.L.F. Beauty — crescia rapidamente, Borba lançou a Borba Skin Balancing Water, enriquecida com o que ele chamava de “microcristais” de vitaminas, minerais e extratos de frutas que prometiam corrigir imperfeições da pele.
A Sephora vendia as bebidas em geladeiras sob placas com a inscrição “Skincare para beber”, e a atriz Maggie Gyllenhaal chegou a ser fotografada segurando uma garrafa. Em 2007, ele fechou um acordo com a Anheuser-Busch para comercializar e distribuir as bebidas.
Para o Globo de Ouro de 2011, disse ter feito na atriz Mila Kunis um tratamento facial de US$ 7 mil usando rubis e diamantes triturados.
Paralelamente ao trabalho intenso, Borba também levava uma vida de festas — até a noite em sua casa em que teve uma “experiência mística”, sentindo a presença de Deus e de São Miguel Arcanjo, e ficou chocado ao enxergar a si mesmo sob uma nova perspectiva.
“Eu deveria ter morrido diante do horror do que vi, considerando como minha vida estava”, afirmou.
Borba expulsou todos da festa, foi para um hotel e desabou em lágrimas. Mudou-se de sua casa e nunca mais voltou.
“Lembro de dizer para mim mesmo, chorando: ‘Este não é o homem que meu pai e minha mãe criaram para ser’”, contou Borba. “‘Este não é o homem que Deus criou para ser.’”
Depois de um período de busca, disse ter atendido a um chamado para o sacerdócio que havia sentido pela primeira vez aos 10 anos.
Em 2019, ingressou em um seminário no Oregon e depois entrou para o Seminário São Patrício, em Menlo Park, Califórnia. Segundo ele, alguns seminaristas o achavam “uma piada” por causa de seu histórico no setor de cosméticos.
Dom Joseph V. Brennan, bispo de Fresno, disse que, quando conheceu Borba pela primeira vez, há cerca de sete anos, não fazia ideia de sua experiência com cosméticos.
“Eu nunca tinha ouvido falar da e.l.f.”, disse Brennan em entrevista. “Sinceramente, isso não fazia parte da minha experiência nem do meu mundo.”
Mas, segundo ele, Borba claramente passou por “uma experiência transformadora em relação à fé” e superou alguns desafios iniciais como seminarista. Após cinco anos de estudos, concluiu sua formação no Seminário São Patrício neste mês.
“Sua maturidade, sua visão de negócios e sua experiência tiveram muito a ver com isso”, afirmou Brennan.
Neste sábado, quando for ordenado sacerdote, a Diocese de Fresno anunciará onde Borba servirá como reverendo.
Ele disse estar ansioso para orientar paroquianos, celebrar os sacramentos e servir a Deus, que “realmente nos torna belos — nos embeleza de dentro para fora”.
“Em todo o meu sucesso, em todas as oportunidades que tive na vida e em todos os ganhos financeiros que acumulei, nunca fui tão feliz”, disse.
c.2026 The New York Times Company
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