Quem precisou fazer ligações telefônicas nas últimas décadas em um local público pode ter utilizado um ícone da tecnologia brasileira. É o orelhão, um símbolo marcante da história das telecomunicações do país.
Esse equipamento no auge teve mais de 1 milhão e 500 mil terminais instalados em todo o país e marcou gerações, em vários casos sendo a única ou mais popular forma de fazer uma ligação para outras pessoas.
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Com o passar dos anos, porém, os orelhões foram cada vez menos utilizados e hoje são raros nas ruas. Quer saber mais sobre a história desse produto e a situação atual da tecnologia? Confira o conteúdo a seguir.
O mundo antes dos telefones públicos
O Brasil foi um dos primeiros países com um telefone em funcionamento: foi em 1877, ligando o Palácio da Quinta da Boa Vista (hoje Museu Nacional) com casas ministeriais no Rio de Janeiro. O próprio imperador Dom Pedro II viu uma demonstração de Alexander Graham Bell e trouxe a tecnologia para cá.
Já telefones públicos nascem por volta da década de 1880, em Massachussetts, nos Estados Unidos. É neste ponto em que são instaladas as “caixas de chamadas”, que telegrafavam a localização para uma central tipo política ou bombeiros pra ser usada em emergências.
Em 1881, em Berlin, a primeira cabine telefônica é inaugurada em uma praça, já com um sistema de cobrança por uso. Esses telefones de emergência para uso público também podiam ser instalados em lugares como estações de trem, delegacias de polícia, tribunais e outros espaços muito frequentados.
Aliás, é na década de 1920 que surgem as cabines telefônicas britânicas, que anos depois ganharam a tradicional cor vermelha e viraram um ícone da região. A versão em azul, que era usada pela polícia ou para chamar as autoridades, ficou mundialmente conhecida por ser também a TARDIS, a nave e máquina do tempo de Doctor Who.
Com o tempo, todos os países foram adotando esse tipo de serviço de telefone público, cada um com o seu design e modo de funcionamento. A movimentação fazia sentido: por muito tempo, poucas famílias tinham condições de comprar um telefone e manter a linha.
Como surgiu o orelhão?
A trajetória do orelhão começa na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), inicialmente uma empresa estrangeira que dominou desde a década de 1920 o serviço de linhas telefônicas em várias partes do Brasil. Ela é nacionalizada nos anos 1950 e estatizada em 66, quando quem assume o controle dela é a Embratel.
De responsabilidade do governo, a companhia agora tinha um plano de expansão e modernização para oferecer o serviço ao maior número possível de brasileiros — o que incluía não ter só os aparelhos em casas ou estabelecimentos comerciais.
Chu Ming Silveira, a criadora do orelhão
Quem ficou encarregada do visual da cabine oficial de telefones públicos do Brasil foi Chu Ming Silveira, nascida na China e desde os 10 anos de idade no país. Ela era arquiteta e chefe do Departamento de Projetos.
Para um visual que alinhasse design e acústica, os materiais escolhidos foram o acrílico e a fibra de vidro, com a inspiração no formato de um ovo. O desafio era ser fechado o suficiente para proteger de chuva e sol sem esquentar demais, além de garantir alguma privacidade e isolar ruídos.
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Nasceram dois modelos, internamente chamados de Chu I e Chu II. O primeiro, chamado carinhosamente de orelhinha, foi projetado para ser fixado em paredes e pequenos postes, com proteção transparente e voltado para espaços menores.
Já o Chu II, um projeto mais robusto, tinha proteção acústica e estrutural reforçada para uso nas ruas. Ele foi batizado pela própria população de orelhão, depois de receber apelidos como tulipa e capacete de astronauta.
Chu Ming deixou a companhia telefônica anos depois e foi trabalhar no setor imobiliário. Ela faleceu em 1997, aos 56 anos, e deixou um grande legado. Vinte anos depois, ela foi homenageada com um doodle na página inicial do Google para brasileiros.
Por que o orelhão fez tanto sucesso?
- Democratizou o telefone, enquanto as linhas fixas por muito tempo foram caras e a cobertura de operadoras era restrita em várias regiões;
- Funcionava em espaços públicos, com boa quantidade instalada e um design bem pensado para ambientes abertos;
- Era prático de usar a partir de fichas e cartões;
- Virou parte da cultura brasileira não só pelo uso cotidiano, mas também por aparecer em comerciais, novelas e filmes — incluindo até produções modernas, como O Agente Secreto;
A evolução do orelhão
No final de 1971, o primeiro “orelhinha” foi instalado na rua Sete de Abril, no centro da cidade de São Paulo, dentro das instalações da CTB. Já em janeiro de 1972, chega o momento histórico: a inauguração para o público, com a instalação de orelhões no Rio de Janeiro e São Paulo.
A cor laranja vira um aspecto marcante, assim como a instalação de locais em que havia dois ou até três orelhões dividindo a mesma estrutura para reduzir as filas. O projeto continuou em andamento: em 1975 vieram os orelhões azuis, voltados para chamadas para outras cidades e estados.
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Apesar do sucesso, a depredação desses aparelhos também era um tema recorrente — a ponto de, em 1979, a operadora Telesp lançar uma campanha publicitária que se tornou um dos comerciais para a televisão mais lembrados do mercado: a “Morte do orelhão“, uma propaganda curta e impactante para a TV.
Saltando para o fim de 1990, o telefone fixo estava popularizado em muitas casas. Além disso, temos a chegada do celular ao Brasil no período. Ele levaria vários anos para baratear, mas indicava um futuro em que o orelhão seria lentamente substituído.
A partir deste ponto, a vida do orelhão tem menos novidades. Em 2012, por exemplo, surge o primeiro orelhão com Wi-Fi do Brasil em parceria da Oi com a prefeitura de Florianópolis, mas a iniciativa não chegou a decolar em mais regiões.
Dos cartões às fichas telefônicas
No modelo alemão de telefone público em 1881, o uso já era feito a partir da compra de um bilhete de papel. Quinze anos depois, o método foi substituído por uma forma que virou tradicional para chamadas: as fichas telefônicas.
Eram moedas especiais, compradas em vários lugares próximos e inseridas nas máquinas para garantir alguns minutos de ligação. A expressão “caiu a ficha”, usada para falar de algo percebido de repente, tem a ver com a ficha de telefone público caindo na máquina e permitindo a ligação.
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Já em 1992, há uma mudança importante: surgem os cartões telefônicos, oficialmente implantados na ECO-92, a Conferência Mundial da ONU sobre o meio ambiente. No final da década de 1990, já existiam mais de 350 mil telefones públicos que aceitavam cartão no Brasil. Esse objeto era pré-pago e tinha “créditos” para serem usados nas chamadas, sem a possibilidade de recarregar. Ainda assim, eles tinham baixo custo de produção e traziam uma enorme variedade de estampas, o que tornou eles objetos de colecionadores.
Pessoas sem cartão ou ficha ainda podiam ligar a cobrar, com a pessoa do outro lado da linha pagando a chamada. Isso rendia sempre uma mensagem clássica, tocada antes da conexão ser feita pela operadora.
O orelhão acabou no Brasil?
Aos poucos, o orelhão foi perdendo espaço no cotidiano nacional e teve a atuação reduzida. Em 2014, a Anatel e algumas operadoras desligam 60% dos orelhões de todo o país pelo baixo retorno financeiro e altos gastos com manutenção.
A Oi, uma das principais operadoras do país, entra em recuperação judicial dois anos depois e preocupa os usuários desse serviço, já que uma das grandes responsáveis pelo serviço.
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Dois anos depois, a Anatel revê o plano de metas e prioriza duas áreas: conexão banda larga e sinal de dados móveis. Nessa época ainda restavam cerca de 800 mil orelhões em funcionamento, mas esse número caiu para 200 mil um ano depois.
Só no fim de 2025 vem o golpe final nesse ícone. Foi o fim das concessões de telefonia fixa de operadoras com a Anatel, fazendo com que as empresas responsáveis pelos orelhões — Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefonica — não tivessem mais as obrigações renovadas de manter a infraestrutura de telefones públicos.
Em janeiro de 2026, elas começam a retirar a grande maioria dos cerca de 38 mil orelhões que ainda estavam em atividade, a maioria no estado de São Paulo e vários deles sem funcionar corretamente. Cerca de 9 mil telefones continuarão ativos até 2028, em cidades pelo menos sem sinal 4G estável. Depois disso, acaba a obrigação e será provavelmente o fim definitivo dessa tecnologia.
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