O Case IH Puma 230 é um trator bastante versátil, muito usado em preparo de solo, plantio, colheita e na pecuária. Mas a grande revolução que ele pode fazer no campo é ajudar a eliminar a dependência do diesel nas frentes de colheita – especialmente na operação de cana-de-açúcar.
Pudemos conhecer – e operar – o protótipo do Puma 230 a etanol, uma criação brasileira que tem potencial para resolver um problema logístico crônico do setor sucroenergético.
As usinas que plantam cana e fabricam etanol em larga escala precisava manter frotas de caminhões-tanque abastecidos com diesel para abastecer as máquinas no campo. E o diesel não é caro apenas pelas oscilações no preço internacional do barril de petróleo, mas também pelo custo de transporte: as refinarias estão, quase sempre, próximas ao litoral brasileiro e distantes do campo.
O consumo de diesel em uma usina de cana-de-açúcar é um dos principais custos operacionais e representa cerca de 3,18 litros por tonelada de cana. Não parece muito? Isso quer dizer que para processar 1 milhão de toneladas de cana em uma safra (capacidade de uma usina média) pode consumir cerca de 3,18 milhões de litros de diesel só nas operações de campo e transporte. Com o litro de diesel a R$ 7, é um custo de R$ 22,26 milhões.

Com os tratores operando com etanol, as usinas poderiam cortar as despesas de transporte externo e ficariam imunes à flutuação de preços do derivado de petróleo no mercado internacional. Além disso, o motor a etanol tem emissões de CO2 até 90% mais baixas e isso cria um ciclo virtuoso: se a produção do etanol é mais limpa, o etanol combustível também se torna mais limpo.
A Case IH vem executando testes de campo em Pradópolis (SP), com o Puma 230 a etanol trabalhando de forma integrada com a colhedora de cana Austoft 9000, também equipada com motor a diesel. O objetivo é validar o maquinário em condições reais.
Motor a álcool com força de diesel

Há três formas de saber que este Case Puma 230 é diferente dos outros: reparando na placa metálica com “etanol” gravado em volta do bocal de abastecimento, pelo cheiro dos gases de escape, com notas de cachaça ou pelo motor não ser tão ruidoso.
Este trator usa uma variação do motor FPT N67 abandonou a ignição por compressão do diesel e adotou o ciclo Otto, arquitetura mecânica dos motores que queimam álcool, gasolina e gás. O projeto surgiu, justamente, a partir dos motores a gás e biometano que a FPT já produz.

O motor seis cilindros 6.7 recebeu um sistema de injeção indireta desenhado para garantir a homogeneização da mistura entre ar e etanol, acompanhado de um mecanismo de aquecimento para viabilizar as partidas a frio em madrugadas de inverno no campo.
A câmara de combustão e os pistões ganharam um formato específico, atrelados a uma nova taxa de compressão adequada ao etanol. Com as alterações mecânicas, o equipamento entrega 234 cv de potência e cerca de 100 kgfm de torque, praticamente a mesma força do N67 a diesel que equipa os demais Puma. No uso, o que mais chama a atenção é a suavidade do motor e o baixo nível de ruído na comparação com seu equivalente a diesel.

Por ser um protótipo, é preciso ter atenção à rotação de trabalho do motor para que a força mais adequada chegue às rodas. Além disso, a rotação de ponto morto é mais elevada, então não se pode reduzir tanto as rotações. De resto, este Puma 230 é como qualquer outro: até mesmo o câmbio automatizado, com 18 marchas à frente e 6 à ré preserva suas relações, porque a entrega de força do motor a etanol é a mesma.
A aplicação do ciclo Otto com injeção eletrônica corrige falhas do passado. Nas antigas tentativas de tratores a álcool da época do Pró-Álcool, nos anos 1980, as máquinas sofriam com consumo elevado e degradação prematura das peças. Os componentes do novo propulsor receberam tratamentos térmicos e de materiais para resistir à corrosão típica da queima do etanol em jornadas severas.


O rendimento de 1 litro de etanol neste trator, porém, pode ser até 30% menor que o de 1 litro de diesel. Ou seja, um tanque cheio rende 30% menos. A consequência é ter que reabastecer mais cedo. Por outro lado, o como o controle de emissões é feito com um catalisador de três vias, não há consumo de Arla 32 como nos tratores a diesel, outro custo evitado.
Ainda pode ser necessário avaliar o custo de oportunidade de a usina estar usando o próprio álcool que produz para operar suas máquinas, deixando de vender alguns milhões de litros por safra – ou deixando de produzir algumas toneladas de açúcar. Mas, se uma tonelada de cana consome 3,18 litros de diesel, essa mesma tonelada rende produz entre 70 a 85 litros de etanol hidratado. O saldo, aparentemente, é positivo para todos: para a usina e para o meio ambiente.
Trator também interessa aos produtores de milho

O desenvolvimento do trator a álcool foi feito no Brasil, mas também despertou o interesse da matriz da Case IH em Racine, Wisconsin, nos Estados Unidos. Isso porque os EUA são grandes produtores de milho, que também pode ser matéria prima para a produção de etanol (uma tonelada de milho pode render quase 500 litros de etanol). Por isso, existe potencial até para a exportação desta tecnologia. Também existe a intenção de testar o maquinário em operações com milho no Brasil.
O motor a etanol ainda poderia chegar a pulverizadores autopropelidos e colheitadeiras de grãos, colocando em xeque a hegemonia do motor a diesel no campo.

































