
Para a maioria das pessoas, um trabalho de meio período como barista enquanto estuda é um meio para um fim: algo para reforçar a conta bancária e dar um impulso no currículo antes de conseguir um “emprego de verdade”. Sam Henderson pensava o mesmo quando um amigo o convenceu a se candidatar a uma vaga em uma Starbucks em Leicester, no Reino Unido, aos 17 anos. Ele precisava de dinheiro para gastos pessoais, então vestiu o avental verde.
Quase 20 anos depois, ele é o responsável por todos os sabores de bebidas servidos nas lojas da Starbucks na Europa, no Oriente Médio e na África. Ele criou o famoso Frappuccino de Cookies and Cream. Tem uma casa, um passaporte cheio de carimbos e um aprendizado equivalente a um curso superior em ciência dos alimentos pago pela empresa — tudo a partir de um trabalho de sábado servindo café.
Leia também: CEO de 30 anos diz que fracassar e destruir seu ego o levou a um sucesso de US$ 11 bi
“É incrível pensar que, a partir de um trabalho de meio período, eu tenho hoje uma vida que não poderia imaginar quando era mais jovem”, disse à Fortune.
A história de Henderson é oportuna. À medida que a inteligência artificial continua eliminando empregos de escritório de nível inicial, funções como barista e em hospitalidade estão silenciosamente se tornando um dos caminhos mais viáveis para começar uma carreira — mais bem remunerados, mais estáveis e com mais espaço para crescimento do que muitos imaginam. Henderson é prova do que é possível.
E ele tem um conselho direto para trabalhadores da Geração Z que acham que são bons demais para trabalhar como baristas.
“Eu nunca descartaria nenhuma oportunidade”, diz, acrescentando que você nunca sabe aonde aquele caminho pode levar. Promoções e grandes oportunidades “podem surgir de qualquer lugar”.
“Quando você olha para o setor de hospitalidade, não é apenas o trabalho que você vê à sua frente. Existe toda uma rede de suporte por trás disso”, acrescenta. “Se você escolher trabalhar em uma cafeteria, é um ótimo trabalho. Se escolher trabalhar em um restaurante, é um ótimo trabalho. Mas, se quiser fazer algo diferente disso, há oportunidades dentro desse negócio.”
Um exemplo claro: apesar de ter começado anotando pedidos e servindo doses de cafeína a pessoas a caminho do trabalho, hoje Henderson atua no escritório corporativo da Starbucks.
Trabalhos de barista são o novo “programa de trainee”
O caminho tradicional da faculdade para um emprego de escritório, que gerações anteriores consideravam garantido, está, segundo a maioria dos especialistas, quebrado.
O CEO da Randstad, Sander van ’t Noordende, cuja empresa coloca cerca de meio milhão de trabalhadores em empregos todas as semanas, alertou recentemente que jovens formados podem ter mais sorte conseguindo empregos como barista, bartender ou em profissões técnicas do que nas vagas de escritório que desejam.
A diretora de talentos da Verizon, Christina Schelling, foi ainda mais direta: “Existe um caminho que você construiu na sua cabeça ao longo de muito tempo, e qualquer coisa diferente disso pode não parecer boa o suficiente. Mas meu conselho é reconhecer isso em você, deixar de lado e simplesmente começar em algum lugar.”
Schelling, que já liderou equipes de pessoas na Estée Lauder, Prudential e American Express, deixa claro que assumir um trabalho em hospitalidade não significa abandonar ambições maiores — mas é um começo que pode abrir portas. E isso é melhor do que ficar esperando pelo emprego dos sonhos e não trabalhar, como muitos da Geração Z estão fazendo.
“As habilidades reaproveitáveis que vêm de um trabalho em hospitalidade ou no varejo — resolução de conflitos, gestão de relacionamentos, compreensão e avaliação das necessidades do cliente, entendimento da experiência do cliente, prática de gestão — são extremamente úteis”, disse à Fortune. “Há muito disso que é importante para qualquer carreira que você esteja construindo, mesmo que não pareça o caminho em que você imaginava iniciar.”
Os governos estão indo na mesma direção. No Reino Unido, centenas de milhões de libras estão sendo investidos em funções de hospitalidade e serviços para combater o desemprego juvenil e direcionar jovens para o mercado de trabalho.
A remuneração também está se tornando mais competitiva. A Starbucks anunciou recentemente que oferecerá a baristas nos Estados Unidos até US$ 1.200 por ano em bônus por desempenho a partir de julho, além da ampliação das gorjetas — mudanças que a empresa estima que podem adicionar de 5% a 8% aos ganhos líquidos, além de uma média de US$ 30 por hora em salário e benefícios.
Enquanto isso, pesquisas mostram que trabalhadores da linha de frente — de baristas a bartenders — estão, cada vez mais, ganhando mais do que colegas de escritório em início de carreira, à medida que a demanda por funções que exigem interação humana cresce enquanto a IA automatiza empregos administrativos juniores.
O conselho de Henderson para quem desconsidera o cargo de barista
Hoje, por meio do programa de ações Beanstock da Starbucks, Henderson financiou viagens para Índia, Estados Unidos e Coreia do Sul, investiu na compra e reforma da própria casa e é a pessoa que decide o que milhões de pessoas vão beber na próxima temporada — tudo a partir de um trabalho que aceitou para ganhar dinheiro aos 17 anos.
Se você acabar trabalhando atrás de um balcão, Henderson diz: encare isso como treinamento, não como um beco sem saída.
Ele manteve o emprego de meio período durante a universidade, transferindo-se entre lojas conforme mudava de cidade, porque “a grande vantagem da Starbucks é que há muitas lojas espalhadas pelo país”.
Após se formar em 2011, assumiu um cargo de supervisor em tempo integral enquanto avaliava seu próximo passo, concluiu um programa de formação em liderança empresarial e avançou até a gestão de loja. Em 2013, já gerenciava uma unidade durante a semana no centro de Londres.
A grande virada de Henderson veio em 2015, quando ele participou do Campeonato de Baristas da Starbucks no Reino Unido — uma competição anual aberta a qualquer funcionário das lojas — e venceu.
A vitória abriu uma porta, mas cabia a ele aproveitar a oportunidade. Por meio da competição, teve seu primeiro contato real com o escritório de suporte da empresa, foi convidado para atuar como embaixador e participar de degustações de café em embaixadas, e acabou chamando a atenção de um desenvolvedor de produtos dos Estados Unidos, que o viu experimentando bebidas do menu secreto.
Ele perguntou a Henderson se já havia considerado trabalhar com pesquisa e desenvolvimento. A resposta foi honesta: ele não tinha nenhuma formação na área. A reação do desenvolvedor? Isso não deveria impedi-lo. Um ano depois, surgiu uma vaga — Henderson se candidatou, criou uma nova bebida para a entrevista e conseguiu o emprego.
É por isso que ele diz que a chave para sua ascensão foi manter os olhos abertos para oportunidades e se apresentar, em vez de esperar ser notado.
“Uma das coisas para mim é ser proativo — estar sempre um passo à frente e seguir avançando, mesmo que você não tenha todas as informações”, explica. Em ambientes dinâmicos como varejo e hospitalidade, isso é especialmente importante. As necessidades dos clientes mudam, novas lojas abrem e novas funções surgem.
“Você precisa tomar a melhor decisão possível com as informações que tem, sabendo que amanhã isso pode mudar e você terá que se adaptar.”
Para qualquer pessoa da Geração Z que esteja atualmente fora do mercado de trabalho de escritório — ou que antes não consideraria uma função como essa —, a mensagem dele é simples: o cargo não importa tanto quanto o que você faz depois de entrar, afirma. Comece em algum lugar, dedique-se de verdade e, quando surgir algo maior, candidate-se.
“Não se preocupe se você não tiver todas as habilidades agora. Eu não tinha todas as habilidades necessárias para fazer este trabalho, mas tinha interesse e paixão — e sabia que poderia aprender. Não se limite pensando que não tem o conjunto de habilidades, porque você pode desenvolvê-las.”
2026 Fortune Media IP Limited
The post Ele começou como barista na Starbucks aos 17, e hoje é um executivo que cria cardápio appeared first on InfoMoney.
