A Geely repetiu na Europa parte da estratégia usada para conseguir produzir carros no Brasil. A empresa chinesa uniu-se à Ford para utilizar a fábrica em Valência, na Espanha, com a meta de iniciar a montagem até 2028. A tática responde às recentes barreiras protecionistas da União Europeia, que exigem porcentagem mínima de componentes locais para veículos elétricos vendidos no continente. Ao mesmo tempo, o acordo permite que a Ford rentabilize uma estrutura fabril subutilizada no mercado europeu.
A operação será conduzida por uma joint venture formada com 66% de participação da Ford e 33% do grupo chinês Geely Auto. Todos os funcionários da fábrica espanhola passarão a integrar a nova empresa conjunta, sem transferência de trabalhadores trazidos da China. A meta das fabricantes é elevar drasticamente o volume de produção do complexo industrial nos próximos anos.
A fábrica de Valência, que já montou Ka, Focus e Fiesta no passado, hoje enfrenta um quadro severo de subutilização operacional. Com capacidade para montar cerca de 500.000 veículos por ano, a unidade operou com apenas 26% de sua capacidade em 2025, produzindo unicamente o SUV Kuga. O encolhimento da Ford na Europa motivou a busca por parcerias externas: há uma década, a empresa americana vendia mais de 1 milhão de carros por ano no continente, ocupando a quarta posição, enquanto no último ano caiu para o oitavo lugar, com 426.000 unidades vendidas.
Para a fabricante norte-americana, dividir a linha de montagem com um grupo chinês ajuda a diluir custos fixos e manter a usina ativa. A unidade também receberá a produção do SUV Bronco a partir de 2028, mas a chegada da Geely garante escala de produção para viabilizar custos competitivos na região. A negociação entre as duas empresas foi facilitada pelo histórico de relacionamento mantido desde 2010, ano em que a Geely adquiriu a Volvo Cars da Ford.
O primeiro produto da nova fase na fábrica espanhola será o SUV elétrico Geely EX5, modelo de porte compacto que já é comercializado em países europeus. O segundo utilitário esportivo planejado pela marca chinesa para a linha de montagem de Valência ainda está em estágio de desenvolvimento técnico pela engenharia da empresa. Há rumores também sobre a possibilidade do hatch EX2 ser feito no local, algo ainda não confirmado pela Geely.

Além de ceder espaço para a montagem dos carros da parceira, Ford e Geely Auto desenvolverão juntas um crossover totalmente inédito. Previsto para entrar em produção em 2028, o modelo contemplará variações de motorização 100% elétrica, híbrida plug-in e com extensor de alcance.
A movimentação da Geely reflete uma corrida acelerada das fabricantes chinesas por instalações fabris no continente europeu. A Espanha tornou-se o principal destino desse movimento por ser o segundo maior produtor automotivo da Europa, atrás apenas da Alemanha, oferecendo custos operacionais de energia e mão de obra mais baixos.
A Geely se junta a outras marcas orientais com planos industriais na região espanhola, como a Leapmotor, que produzirá em Zaragoza junto à Stellantis; a Chery, que adquiriu a linha de montagem da Nissan em Barcelona; e a SAIC, que confirmou fábrica na Galícia. A iniciativa permite contornar restrições tributárias e consolida a expansão das marcas chinesas, que enfrentam queda de vendas no mercado doméstico e buscam crescimento acelerado no mercado europeu.
