Sandy já foi tema de músicas, entrevistas, documentários e livros. Agora, a cantora também virou objeto de uma pesquisa científica publicada na Revista Rua, ligada à Unicamp.
O estudo analisa quatro músicas da carreira solo da artista para investigar como a trajetória de Sandy, as diferentes vozes que aparecem nas canções e os interlocutores de cada letra ajudam a construir novos sentidos.
O artigo, intitulado “Há Sandy entre nós, mas é você quem mais julga”, foi escrito por Fábio Pacheco Piantoni, professor de Língua Portuguesa e mestre em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor, da Unicamp. Mas quem aparece como autora da publicação é outra pessoa: Aparecida Eule, um heterônimo criado pelo pesquisador.
As músicas escolhidas para a análise são “Me espera”, “Areia”, “Pra me refazer” e “Eu pra você”, lançadas em diferentes momentos da carreira solo de Sandy e presentes nos álbuns Meu canto (2017) e Eu, voz, eles (2023).
A proposta do trabalho é entender o que muda quando Sandy canta com pessoas diferentes e, principalmente, quem é o “você” para quem ela está cantando.
“Quando a gente fala de primeira voz, eu estou falando do espaço de enunciação. Então, a primeira voz, o eu que abre a possibilidade do outro”, explica Piantoni.
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De onde veio a ideia de estudar Sandy?
A pesquisa começou de uma maneira bastante comum para quem escuta música atualmente: pelo algoritmo do Spotify.
Piantoni conta que não estava procurando especificamente aquelas quatro músicas. Elas apareceram na sequência de reprodução e chamaram sua atenção. A partir da escuta, ele começou a perceber que as letras poderiam produzir sentidos diferentes dependendo das vozes que acompanhavam Sandy.
A forma de escolha também estava relacionada à metodologia utilizada no estudo. Segundo o pesquisador, a Análise Materialista do Discurso trabalha justamente com aquilo que circula socialmente e chega às pessoas.
“Não houve uma forçação de barra. (…) O princípio da análise do discurso é analisar o que circula, porque as pessoas consomem mais ou menos isso”, explica.
Segundo o autor, a pesquisa levou cerca de dois anos para ser desenvolvida e utiliza conceitos da Análise do Discurso de linha francesa, além de referências da Linguística, História e Psicanálise.

O que o artigo descobriu nas músicas de Sandy?
Um dos pontos centrais do estudo é a chamada “primeira voz”. Para Piantoni, não se trata apenas de quem canta primeiro ou de quem tem determinado timbre vocal. O conceito está relacionado ao lugar ocupado por quem fala.
E, nas quatro músicas analisadas, Sandy aparece ocupando esse espaço.
“Ela não foi só a primeira voz ao longo das duplas. Ela foi a primeira voz ao longo da carreira dela, ao longo da vida dela”, afirma o pesquisador.
A partir daí, o estudo observa quem aparece do outro lado dessa conversa.
Em “Me espera”, por exemplo, a análise considera as diferentes pessoas que já dividiram os vocais com Sandy e como essa mudança altera a interpretação da música. A voz masculina pode ocupar posições diferentes dependendo de quem está cantando: pai, marido, ex-marido ou outro parceiro vocal.
Já em “Areia”, a presença de Lucas Lima é analisada a partir da relação entre os dois e das ideias de tempo, distância e relacionamento presentes na letra.
Em “Pra me refazer”, a situação muda completamente. Sandy divide a música com a dupla ANAVITÓRIA, formada por duas mulheres. Para o artigo, essa escolha cria uma espécie de encontro de vozes femininas.
A interpretação proposta é que Sandy pode estar conversando, na própria música, com uma outra versão dela mesma.
“É como se ela projetasse em alguns momentos, em alguns trechos, em algumas letras das músicas, um outro eu dela”, explica Piantoni.

A análise chega a uma ideia curiosa: em determinados momentos, o “você” de Sandy não seria necessariamente outra pessoa. Poderia ser ela mesma.
Já em “Eu pra você”, gravada com o grupo Melim, o interlocutor pode ser interpretado como o próprio público da cantora. A música passa a ser entendida como uma conversa entre Sandy e seus fãs.
É justamente essa troca entre “eu”, “você” e “ele” que dá nome a boa parte da discussão do artigo.
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Sandy como mulher
Embora as músicas sejam o ponto de partida, a pesquisa vai além da carreira da cantora. Uma das principais questões levantadas por Piantoni é o lugar ocupado pela mulher quando ela passa a assumir a própria voz.
Segundo o pesquisador, Sandy começou a carreira ainda criança, ao lado do irmão Junior. Depois, passou pela carreira solo e tornou-se também compositora.
Para o pesquisador, olhar para essa trajetória é importante porque a imagem pública construída ao longo de décadas também interfere na maneira como as pessoas interpretam aquilo que Sandy canta.
“Você tem que imbricar o que o eu dela diz, como isso é significado socialmente, o que o eu dela diz na história, porque tem uma memória da Sandy ao longo desses anos”, explica.
Segundo Piantoni, a pesquisa procura observar Sandy não apenas como alguém que canta sobre relacionamentos, mas como uma mulher que constrói, ao longo da vida, diferentes maneiras de dizer “eu”.
Para ele, essa ideia aparece tanto na antiga dupla quanto na relação amorosa e, principalmente, na construção da própria história da cantora.
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A pesquisa também considera que Sandy passou grande parte da carreira cantando sobre amor. Para Piantoni, isso precisa ser observado junto com a imagem que ela construiu desde a infância.
Segundo o pesquisador, a questão levantada com o artigo busca entender como uma mulher que cresceu sob uma imagem pública tão forte passa a construir a própria voz.
Por isso, a análise não tenta descobrir se as músicas contam literalmente acontecimentos da vida de Sandy. O interesse está em entender como a trajetória da cantora, sua imagem pública e as diferentes relações representadas nas letras interferem na produção de sentidos.

Por que o artigo foi assinado por Aparecida Eule?
Além da própria Sandy, existe outra personagem curiosa na pesquisa.
O artigo não está assinado pelo nome de Fábio Pacheco Piantoni, mas por Aparecida Eule.
Aparecida é um heterônimo criado pelo pesquisador. Diferentemente de um simples pseudônimo, o heterônimo pressupõe a construção de uma outra identidade autoral, com características e uma perspectiva próprias.
No artigo, ela é apresentada como uma mulher mais velha, com um olhar sobre sociedade, família, cultura e, principalmente, sobre a posição da mulher e a invisibilidade feminina. O próprio texto informa que Aparecida “reside atualmente na visão e criação de Fábio Piantoni”.
A escolha não aconteceu por acaso.
Piantoni explica que precisava construir uma voz feminina para conduzir aquela análise. Afinal, o artigo fala justamente sobre mulheres, voz, subjetividade e sobre o lugar ocupado por uma mulher que passa a assumir a primeira voz de sua própria história.
“Você precisaria entender, se colocar no lugar da mulher para conseguir entender de fato o que a Sandy quis dizer”, afirma.
Assim, Aparecida Eule não funciona apenas como um nome diferente na capa do artigo. Ela é parte da própria proposta da pesquisa: criar uma voz feminina para falar sobre outra mulher e, ao mesmo tempo, discutir quem tem o direito de ocupar o lugar de primeira voz.
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