
“Virar a chave entre múltiplas abas” é quase uma descrição oficial do trabalho de Igor Monteiro. Em um mesmo dia, o CEO da EqSeed pode discutir uma consulta pública da CVM, alinhar estratégias comerciais com parceiros e gravar um podcast sobre venture capital – tudo isso sem sair do universo das startups e do mercado financeiro, assunto que, segundo ele, ocupa até os treinos de corrida e os fins de semana.
À frente da empresa desde 2024, Igor lidera um novo momento da plataforma, que já estruturou mais de 80 ofertas reguladas pela CVM, somando cerca de R$ 130 milhões em investimentos. A meta agora é ampliar a atuação da EqSeed para além do equity crowdfunding, aproximando a companhia do mercado financeiro tradicional, com foco em crédito, infraestrutura e conexão com assessores de investimento.
Em entrevista ao Startups, o executivo relembrou os tempos em que uma rodada captada pela plataforma se encerrava em 24 horas, comentou como a alta dos juros mudou o apetite dos investidores e explicou por que acredita que o ecossistema saiu mais maduro dos últimos anos difíceis. Entre uma resposta e outra, também falou sobre futebol aos domingos, biografias e a dificuldade de se desconectar mesmo fora do expediente.
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Veja, a seguir, os melhores momentos dessa conversa.
Startups: Você tem uma vasta experiência em M&A e venture capital, inclusive liderando operações no Brasil e exterior. Como foi a decisão de se dedicar ao mercado de startups?
Igor Monteiro: Tive contato com startups desde muito cedo. Na graduação, fui presidente da empresa júnior da PUC-RJ e, naquela época, éramos muito próximos do Instituto Gênesis. Isso me aproximou das incubadoras e do conceito de startup, mesmo quando o ecossistema ainda era bem menos maduro do que é hoje. O perfil das startups também era diferente. Havia muitas empresas ligadas ao mercado de óleo e gás, impulsionadas pelo boom do pré-sal naquele momento.
A migração para esse mercado aconteceu de forma bastante natural na minha trajetória profissional. Tanto que minha monografia na graduação foi sobre valuation de startups. Ao longo desses quase 15 anos no mercado financeiro, foram poucos os momentos em que não tive algum contato com startups.
Startups: Quando assumiu a liderança da EqSeed, a empresa já existia há alguns anos. O que você sentia que precisava mudar, em vez de apenas “repetir o sucesso passado”?
IM: Entrei na EqSeed em 2020 e assumi como CEO em 2024. Naquele momento, meu principal mandato era liderar a expansão para o B2B. A virada começou com a atualização da regulamentação, entre 2022 e 2023, quando a EqSeed deu os primeiros passos para se conectar ao mercado financeiro tradicional, especialmente por meio da parceria com o Itaú.
Assumi justamente para acelerar essa frente, porque entendíamos que ela seria o principal driver de crescimento da empresa. Isso exigiu uma mudança importante de mentalidade: deixar de ser uma empresa focada em B2C, como fomos de 2016 a 2022, para construir uma operação B2B, que funciona de forma completamente diferente.
Com isso, os desafios também mudaram. Passamos a pensar em como ajudar os assessores de investimento a falar sobre startups com os clientes na ponta.
Startups: Como você vê o papel de reguladores na expansão (ou contenção) de modelos como o da EqSeed?
IM: É um papel fundamental. Para a EqSeed, existem três elementos essenciais para o desenvolvimento desse mercado e para o crescimento da categoria. A regulamentação é um deles, porque é ela que define as regras do jogo de forma equilibrada.
Existe um desafio importante em criar uma regulação voltada para pequenas empresas, considerando a realidade delas e a flexibilidade necessária para realizar uma oferta pública. Ao mesmo tempo, é preciso garantir proteção ao investidor pessoa física. Esse equilíbrio é delicado, e acho que a CVM foi bastante habilidosa na evolução da Resolução 88.
Os outros dois pilares são educação financeira e tecnologia. É necessário ensinar tanto as empresas quanto os investidores a atuarem nesse ambiente regulado. Por isso, a EqSeed criou um braço de educação, ainda em estágio inicial.
Lançamos o primeiro curso em 2023, voltado para investidores que estavam começando a conhecer o setor e queriam entender como funciona o investimento em startups. Hoje, enxergamos a educação como um pilar estratégico para o futuro da EqSeed, tanto do lado das empresas quanto dos investidores. A tendência é que essa frente evolua bastante no futuro próximo.
Startups: Em 2026, o que está mais diferente no mercado de investimento em startups no Brasil em relação ao que você via no passado?
IM: O ambiente de investimento está bem mais desafiador do que era há cinco anos. Quando entrei na EqSeed, em outubro de 2020, o mercado estava começando a explodir. Na época, eu chefiava a mesa de análise da empresa, e a realidade era completamente diferente. Colocávamos uma oferta de captação na plataforma e ela podia ser concluída em 24 horas.
Existia um contexto muito favorável, tanto pelo ambiente macroeconômico – com taxas de juros mais baixas – quanto pelo interesse das pessoas nesse tipo de ativo.
Hoje, o cenário mudou bastante. As empresas precisam demonstrar um nível muito maior de robustez, provar mais tração e maturidade. Ao mesmo tempo, os investidores estão menos dispostos a correr risco, especialmente diante de um custo de oportunidade muito alto por causa dos juros. Então, o ambiente de negócios para investimentos em equity ficou significativamente mais difícil.
Startups: Quais são as prioridades da Eqseed no curto e longo prazo?
IM: No curto prazo, nossa principal prioridade é o lançamento da área de Mercado de Capitais de Dívida (DCM), voltada para crédito. Estamos na reta final dessa estruturação e enxergamos essa frente como um passo importante na evolução da empresa.
A ideia é transformar a EqSeed em uma espécie de one-stop shop para pequenas empresas no Brasil. E, nesse processo, a evolução da regulamentação será fundamental.
Queremos que, quando uma pequena empresa pense em captar recursos – seja via equity ou dívida estruturada -, a EqSeed esteja entre as primeiras opções. Por isso, temos investido fortemente em tecnologia e no aperfeiçoamento dos processos, para que a plataforma se tornetop of mind tanto em operações de equity quanto de crédito.
No começo, nos posicionávamos como uma plataforma de investimento em startups e venture capital online. Hoje, a ambição é muito maior. Queremos construir uma infraestrutura para o mercado de empresas privadas. Isso envolve mercado primário de equity, crédito e dívida, além do desenvolvimento de um mercado secundário para esses ativos. Também queremos ampliar a integração com o mercado financeiro tradicional, aproximando banqueiros e assessores de investimento desse universo.
Investimento em startups continua sendo um tema central para nós, mas queremos ir além e inserir essa classe de ativos no dia a dia do mercado financeiro tradicional.
Startups: Quem é Igor Monteiro fora da cadeira de CEO?
IM: Sou um carioca de 39 anos e pai de uma menina de quase três. Costumo brincar que tenho uma veia nerd desde a época em que ser nerd ainda não era algo “cool”. E não necessariamente no sentido de tecnologia, mas pelo gosto por estudar.
Sou completamente apaixonado pelo mercado financeiro e tenho dificuldade de me desconectar, mesmo nos feriados ou fins de semana. Estou sempre consumindo conteúdos sobre investimentos. Corro ouvindo podcasts do mercado financeiro e gosto bastante de ler biografias ligadas a esse universo.
Quando não estou trabalhando, normalmente estou acompanhando algo relacionado ao mercado financeiro ou futebol.
Startups: Qual hábito ou ritual diário te ajuda a manter o foco em um ambiente de alta incerteza como o de startups?
IM: Tento manter uma rotina de organização. Todo domingo, por exemplo, paro para estruturar a minha semana. Quando preciso de mais concentração, costumo escutar música.
Não acho que tenha algum hábito extraordinário relacionado a foco, mas existe um ponto que, ao mesmo tempo, é interessante e desafiador: hoje eu praticamente não tenho rotina. Em um mesmo dia, posso estar em uma reunião bastante densa discutindo a resposta da EqSeed para uma consulta pública da CVM, depois entrar em uma conversa sobre estratégia comercial e, na sequência, gravar um podcast sobre venture capital.
Então, grande parte do desafio está em conseguir virar a chave rapidamente entre contextos completamente diferentes.
Raio X – Igor Monteiro
Um fim de semana ideal tem… futebol
Um livro que você recomenda: “Cezar”, biografia de Luiz Cezar Fernandes escrita por Alessandro Greco, e “De Volta ao Jogo”, que reúne histórias do BTG Pactual, escrito por Ariane Abdallah e Violaine Cadinot
Um artista que não sai da sua playlist: Sou muito eclético, escuto tudo de samba a John Mayer
Uma mania: Tirando balançar a perna, acho que nenhuma
Sua melhor qualidade: Sinceridade
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