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A conta da guerra do Irã: drones de US$ 20 mil contra mísseis de US$ 4 milhões

por SampaNews 2 de março de 2026
2 de março de 2026
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Três dias depois do início do conflito, a guerra no Irã já virou um confronto de desgaste. Ondas de ataques com drones lançados pela República Islâmica estão pressionando as defesas dos EUA e de seus aliados, do Bahrein aos Emirados Árabes Unidos, e drenando estoques de armamentos. O desfecho pode depender de qual lado ficar sem munição primeiro.

Os drones suicidas Shahed-136, pequenos mísseis de cruzeiro de tecnologia simples, continuaram atingindo alvos pelo Oriente Médio nesta segunda-feira. Nos últimos dias, eles miraram bases americanas, infraestrutura de petróleo e prédios civis, desde que os bombardeios dos EUA e de Israel contra o Irã — uma combinação de mísseis de cruzeiro, drones e bombas guiadas — começaram no sábado.

Uma imagem divulgada pelo Comando Central dos EUA (CENTCOM), que acompanhou um comunicado de imprensa descrevendo a operação denominada “Epic Fury”, um ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, mostra o lançamento de um foguete a partir de um navio. A imagem foi obtida em redes sociais e divulgada em 28 de fevereiro de 2026. US CENTCOM via X via REUTERS

Os mísseis antimísseis Patriot, fabricados nos EUA, têm conseguido interceptar a maior parte dos Shaheds e de outros mísseis balísticos, com taxa de acerto acima de 90%, segundo os Emirados Árabes. Mas usar um míssil de US$ 4 milhões para derrubar um drone de US$ 20 mil escancara um problema que preocupa estrategistas militares ocidentais desde o início da guerra na Ucrânia: armas baratas conseguem “comer” estoques pensados para ameaças muito mais sofisticadas.

Na prática, tanto o Irã quanto os EUA correm o risco de ficar com poucos armamentos em questão de dias ou semanas. Quem aguentar mais tempo passa a ter uma vantagem importante.

Os grupos aliados ao Irã na região já tinham saído enfraquecidos da guerra em Gaza, e a capacidade de mísseis do país foi afetada pelos ataques anteriores de Israel e dos EUA em uma guerra de 12 dias em junho. Desde então, a aposta de Teerã tem sido aumentar o tom das ameaças sobre o custo de um ataque ordenado por Trump, sabendo que boa parte da base do presidente é refratária a guerras longas e confusas. O líder supremo Ali Khamenei — morto nos ataques aéreos de sábado — havia advertido que uma ofensiva americana poderia incendiar toda a região.

“Do ponto de vista do Irã, uma estratégia de desgaste faz sentido operacionalmente”, disse Kelly Grieco, pesquisadora sênior do think tank Stimson Center. “Eles calculam que os defensores vão esgotar seus mísseis interceptores e que a disposição política dos países do Golfo vai rachar, aumentando a pressão sobre EUA e Israel para parar as operações antes de ficarem sem mísseis e drones.”

Segundo uma análise interna vista pela Bloomberg News, os estoques de mísseis Patriot de interceptação no Catar durariam apenas quatro dias, mantido o ritmo atual de uso. Nos bastidores, Doha vem defendendo um fim rápido para o conflito.

Depois da guerra do ano passado com Israel, estimava-se que o Irã tivesse perto de 2.000 mísseis balísticos. O número de drones Shahed deve ser bem maior. A Rússia, outro grande fabricante, tem produzido “kamikazes” do tipo na casa de várias centenas por dia, segundo análise de Becca Wasser, responsável pela área de defesa na Bloomberg Economics.

Desde o início da guerra deste ano, Teerã já disparou mais de 1.200 projéteis, muitos — talvez a maioria — Shaheds. Isso indica que o Irã pode estar guardando mísseis balísticos mais destrutivos para ataques mais prolongados, diz Wasser.

Do lado iraniano, os militares parecem agir sem coordenação frequente com a cúpula civil, incluindo o Itamaraty local, o Ministério das Relações Exteriores, segundo o chanceler Abbas Araghchi.

“Nossas unidades militares hoje são, na prática, independentes e, de certo modo, isoladas. Elas estão atuando com base em instruções gerais que receberam antecipadamente”, disse Araghchi, veterano da Guarda Revolucionária Islâmica, em entrevista à Al Jazeera no domingo.

Já do lado americano, Wasser avalia que é improvável que os planejadores tenham levado munição suficiente para a região para sustentar operações por quatro semanas, como o presidente Donald Trump tem dito.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou em coletiva nesta segunda: “Isso não é o Iraque, isso não é uma guerra sem fim.”

Na defesa aérea, o Irã tem hoje pouco com o que reagir. Os bombardeios das primeiras horas da guerra atingiram suas baterias antiaéreas, inclusive os sistemas mais modernos, os russos S‑300. Desde então, caças americanos e israelenses têm operado no espaço aéreo iraniano sem relatos de grandes dificuldades.

Os EUA e seus aliados na região se apoiam sobretudo nos sistemas Patriot, da Lockheed Martin, que disparam mísseis PAC‑3. Apesar do esforço do Pentágono para ampliar a produção, só cerca de 600 PAC‑3 foram fabricados em 2025, segundo a Lockheed. Considerando o volume de drones e mísseis abatidos, é provável que milhares de interceptores já tenham sido lançados no Oriente Médio desde sábado.

Arábia Saudita e Emirados Árabes também usam o THAAD, outro sistema da Lockheed, pensado para derrubar mísseis mais sofisticados, em altitudes elevadas, na borda da atmosfera. Eles são ainda mais caros — cerca de US$ 12 milhões cada — e dificilmente seriam empregados contra alvos menos complexos.

Os EUA também têm usado caças em patrulha equipados com mísseis do sistema Advanced Precision Kill Weapon System, que custam entre US$ 20 mil e US$ 30 mil por unidade, além do custo de operação das aeronaves.

Soluções específicas para derrubar drones ainda são pouco comuns na região. Lasers, canhões automáticos e até “drones caçadores” tendem a ser alternativas mais baratas para proteger cidades e instalações, poupando sistemas caros para ameaças maiores.

O laser Iron Beam, desenvolvido pela israelense Rafael Advanced Defense Systems, foi criado justamente para isso, mas as Forças de Defesa de Israel disseram nesta segunda que ele ainda não foi usado neste conflito.

Se a intensidade atual dos ataques iranianos continuar, os estoques de PAC‑3 na região podem ficar perigosamente baixos em poucos dias, segundo uma fonte com conhecimento do assunto. Se faltar também munição ofensiva, o cenário pode descambar para um impasse.

“Enquanto isso, o Irã pode ir consumindo seu estoque de mísseis e drones, mas o regime em si talvez consiga se manter, ainda que mergulhado no caos”, disse Ankit Panda, pesquisador sênior do Carnegie Endowment for International Peace. “Pelas primeiras 60 horas de guerra, esse parece ser um desfecho bem provável.”

© 2026 Bloomberg L.P.

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