
Um soldado das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos que ajudou a capturar Nicolás Maduro, da Venezuela, foi acusado de usar informação confidencial para apostar na missão na Polymarket, uma plataforma de previsões, informaram autoridades federais na quinta-feira (24).
O militar, subtenente Gannon Ken Van Dyke, lotado em Fort Bragg, na Carolina do Norte, lucrou mais de US$ 400 mil apostando em diferentes desfechos relacionados à Venezuela depois de tomar conhecimento da operação, segundo promotores federais e o FBI.
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A denúncia apresentada no tribunal federal de Manhattan afirma que Van Dyke, de 38 anos, participou do “planejamento e execução” da captura de Maduro e vinha fazendo apostas até 2 de janeiro, um dia antes da prisão do líder venezuelano e de sua mulher, Cilia Flores, em um complexo em Caracas.
De acordo com a acusação e com Jay Clayton, procurador dos EUA para o Distrito Sul de Nova York, o sargento fez 13 apostas em eventos relacionados a Maduro e à Venezuela, incluindo “apostas sobre o momento e o resultado” da operação para remover Maduro do poder.
A denúncia representa um dos casos de maior destaque envolvendo um funcionário do governo americano que teria usado informação confidencial para ganhar dinheiro em mercados de previsão — um risco à segurança nacional que levou a Casa Branca a alertar seu corpo funcional para evitar esse tipo de “insider trading”. O alerta veio em meio a um aumento de operações suspeitas relacionadas à guerra com o Irã.
Empresas que operam mercados de previsão vêm enfrentando maior escrutínio nos últimos meses. Senado e Câmara dos Deputados dos EUA analisam projetos de lei para limitar o uso de um desses sites, o Kalshi, por autoridades públicas, e estados também estudam regulações mais rigorosas.
O procurador-geral interino, Todd Blanche, declarou: “Nossos homens e mulheres de farda recebem acesso a informações confidenciais para cumprir suas missões com a máxima segurança e eficiência possível, e lhes é proibido usar esse tipo de informação altamente sensível para ganho financeiro pessoal.”
Questionado na quinta-feira sobre o uso de mercados de previsões por funcionários do governo, o presidente Donald Trump afirmou: “Infelizmente, o mundo inteiro virou, em certa medida, um grande cassino.”
Ele acrescentou: “Nunca fui muito a favor disso. Não gosto conceitualmente. É o que é. Não fico feliz com nada disso.”
Em comunicado na quinta-feira, a Polymarket disse ter publicado novas regras no mês passado para apertar o cerco ao uso de informação privilegiada. A plataforma afirmou ainda que, sempre que identifica um usuário operando com base em informação confidencial do governo, encaminha o caso ao Departamento de Justiça e coopera com as investigações.
Horas antes de as tropas americanas capturarem Maduro, em 3 de janeiro, foi noticiado que um usuário da Polymarket havia feito uma aposta de US$ 32 mil de que Maduro estaria fora do poder até o fim de janeiro — operação que rendeu mais de US$ 400 mil em lucros. O comunicado da Polymarket e os valores descritos na denúncia sugerem que as acusações anunciadas na quinta-feira estão relacionadas a essa aposta.
Segundo a acusação, o sargento tentou esconder o dinheiro obtido movendo os recursos várias vezes: primeiro para um cofre de criptomoedas no exterior, depois para uma conta pessoal de criptoativos e, por fim, para uma conta recém-aberta em uma corretora. Depois que começaram a circular notícias sobre negociações suspeitas ligadas à captura de Maduro, Van Dyke tentou apagar sua conta na Polymarket, alegando falsamente que havia perdido o acesso ao e-mail associado ao cadastro.
A denúncia acusa Van Dyke de cinco crimes: uso ilegal de informação confidencial do governo para ganho pessoal; furto de informação não pública do governo; fraude em commodities; fraude eletrônica (wire fraud); e realização de transação financeira com recursos provenientes de atividade ilegal específica.
Ainda na quinta-feira, Van Dyke deveria ser apresentado a um juiz federal na Carolina do Norte, no Distrito Leste, e a expectativa é que ele seja transferido para Manhattan para responder ao processo, informou o gabinete do procurador federal em Nova York. Não foi possível identificar um advogado do sargento para comentar o caso.
De acordo com a denúncia, Van Dyke é militar da ativa desde cerca de 2008. Desde 2023, ele ocupa o posto de subtenente nas Forças Especiais do Exército dos EUA. Dez anos após entrar para o Exército, ele recebeu acesso especial a informações confidenciais, assinando um compromisso formal em que prometia jamais divulgar o conteúdo desses dados. No ano passado, firmou um acordo semelhante, ligado a operações militares no Hemisfério Ocidental.
No fim do ano passado, a Polymarket passou a permitir que usuários apostassem em determinados eventos envolvendo a Venezuela e Maduro, segundo a acusação.
Em setembro, a plataforma ofereceu um contrato que permitia apostar na possibilidade de haver “forças dos EUA na Venezuela” até certas datas. Em novembro, as apostas incluíam a chance de Maduro estar “fora” ou removido do poder até uma série de prazos. Em meados de dezembro, foi lançado um mercado sobre a possibilidade de uma invasão dos EUA à Venezuela até 31 de janeiro.
Na noite de 2 de janeiro, véspera da captura de Maduro, Van Dyke gastou milhares de dólares comprando ações de “sim” (“yes shares”) em mercados que apostavam em “Maduro fora” até 31 de janeiro e em “forças dos EUA na Venezuela” até a mesma data.
c.2026 The New York Times Company
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