Um em cada três trabalhadores rurais da cultura da cana-de-açúcar da Região Metropolitana de Campinas (RMC) apresenta transtornos mentais. O dado é resultado de uma pesquisa de doutorado da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, realizada com 100 trabalhadores dos canaviais da região, e revela uma realidade pouco conhecida por trás de uma das principais atividades econômicas do interior paulista.
Os resultados mostram que os problemas mais frequentes são ansiedade, irritabilidade, humor deprimido, cansaço persistente, dores de cabeça e dores musculares. Para a pesquisadora e fisioterapeuta Beatriz Machado de Campos Corrêa Silva, porém, o cenário pode ser ainda mais preocupante.
Segundo ela, muitos trabalhadores não reconhecem ou evitam falar sobre o próprio sofrimento emocional. A maior parte dos entrevistados é formada por homens migrantes nordestinos, que cresceram em uma cultura onde demonstrar fragilidade costuma ser visto como sinal de fraqueza.
De acordo com o levantamento, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) reúne cerca de 30 mil trabalhadores rurais, distribuídos entre diferentes culturas agrícolas nos municípios com vocação para o agronegócio.
Perfil do trabalhadores
Durante as entrevistas, a pesquisadora também percebeu que muitos refletiam pela primeira vez sobre a própria saúde mental.
“Eles estão numa situação de subsistência tão grande que a questão de se manter alimentado, com uma casa, acaba sendo mais forte do que essa questão de valorizar a saúde mental.”
A pesquisa buscou entender justamente quais fatores explicam esse índice elevado de adoecimento mental. Segundo Beatriz, o problema não está ligado a uma única causa, mas ao conjunto de condições enfrentadas diariamente pelos trabalhadores, como o isolamento provocado pela mecanização, a exposição constante aos agrotóxicos, a naturalização dos acidentes de trabalho e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
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Isolamento aumentou com a mecanização
Segundo Beatriz, embora a mecanização tenha reduzido o desgaste físico do corte manual da cana, ela mudou completamente a organização do trabalho.
Hoje, cerca de 99% da colheita de cana em São Paulo é mecanizada, fazendo com que os trabalhadores deixassem o corte manual e passassem a executar outras atividades, como replantio, limpeza dos canaviais e aplicação de herbicidas.
Ao mesmo tempo, diminuiu o número de trabalhadores em cada frente de serviço. Se antes dezenas de pessoas trabalhavam juntas, hoje pequenos grupos ficam espalhados por grandes áreas de plantação.
A pesquisadora explica que esse isolamento apareceu de forma recorrente nos relatos.
“Eles falavam que antigamente cantavam juntos, brincavam enquanto trabalhavam. Havia uma solidariedade maior entre eles que hoje não existe mais.”
Para a Beatriz, essa perda da convivência diária contribui diretamente para o sofrimento psicológico.
Exposição aos agrotóxicos aumenta os riscos
Outro fator identificado pela pesquisa é a exposição frequente aos herbicidas utilizados na lavoura.
Segundo Beatriz, muitos trabalhadores fazem a aplicação manual dos produtos carregando bombas costais de aproximadamente 20 litros sob altas temperaturas. Ela explica que os agrotóxicos utilizados possuem ação neurotóxica, ou seja, afetam o sistema nervoso.
“O contato contínuo com o agrotóxico afeta a saúde dos trabalhadores porque eles são neurotóxicos. Então, afeta o sistema neurológico desses trabalhadores, favorecendo aí condições depressivas, principalmente. Mas além de ser neurotóxico, eles também são tóxicos e extremamente cancerígenos.”
Durante as visitas aos canaviais, a pesquisadora também identificou falhas nas condições de trabalho que aumentam o risco de contaminação.
Ela relata que muitos trabalhadores permanecem horas sob sol intenso utilizando a roupa de proteção e, como não recebem uma segunda troca de roupa, retiram o equipamento apenas durante o almoço, deixando-o secar sobre a própria plantação para reutilizá-lo logo depois.
“Eles param para almoçar e colocam essas roupas sobre a cana para que elas sequem e eles reutilizem. Então, eles estão se contaminando na hora em que fazem isso. Muitos não tiram de maneira adequada.”

Outro problema observado é a falta de banheiros próximos às frentes de trabalho. Como percorrer longas distâncias para utilizar um banheiro químico nem sempre é viável, muitos trabalhadores acabam fazendo as necessidades fisiológicas no próprio canavial e, sem estrutura para higienizar as mãos, permanecem expostos aos resíduos dos agrotóxicos.
Segundo Beatriz, estudos científicos já relacionam essa exposição prolongada ao aumento do risco de diversos tipos de câncer entre trabalhadores rurais.
Acidentes são tratados como algo “normal”
Outro aspecto que chamou a atenção da pesquisadora foi a forma como os próprios trabalhadores enxergam os acidentes de trabalho.
A pesquisadora explica que cortes provocados pela cana, picadas de cobra e outros incidentes fazem parte da rotina e, muitas vezes, deixam de ser registrados por serem considerados algo natural da profissão.
“Se eles se cortam com a cana, pra eles isso não é um acidente de trabalho, porque isso é normal.”
Segundo Beatriz, essa cultura gera uma subnotificação dos acidentes e impede que empresas e órgãos públicos conheçam a real dimensão dos problemas enfrentados pelos trabalhadores. Sem esses registros, as medidas preventivas deixam de ser adotadas ou são insuficientes.
“Quando a gente tem uma subnotificação, a gente acaba não tendo um conhecimento real dos problemas que existem. As ações preventivas acabam ficando deficientes também e isso contribui para que o sofrimento físico e mental persista ali, deixando o trabalhador desamparado.”
Na avaliação da pesquisadora, além de incentivar a notificação, é necessário capacitar supervisores para reconhecer acidentes e romper com a cultura de naturalização do sofrimento no ambiente rural.

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Distância dificulta acesso à saúde
O estudo também mostra que buscar atendimento médico nem sempre é uma opção para quem trabalha nos canaviais.
Diferentemente dos trabalhadores urbanos, que normalmente conseguem sair para uma consulta e retornar ao trabalho, os trabalhadores rurais atuam em áreas afastadas e dependem do transporte fornecido pelas empresas. Muitas vezes, deixar o trabalho para procurar atendimento significa não conseguir voltar para concluir a jornada.
A situação é agravada pela distância entre os canaviais e as unidades de saúde e pela falta de serviços com horários adaptados à rotina desses profissionais.
“Eles dependem do transporte da empresa para isso. Porque ficam em áreas muito afastadas. Não tem postos de saúde com horários referenciados para trabalhadores que atuam dessa forma. Então, é uma deficiência pública essa.”
Segundo a pesquisadora, essa dificuldade faz com que muitos trabalhadores adiem ou deixem de procurar atendimento, mesmo quando apresentam sintomas físicos ou psicológicos.

Dificuldade em acessar as usinas
Além dos resultados, a própria realização da pesquisa revelou os desafios para estudar essa população.
Segundo Beatriz, todas as 80 usinas do Estado de São Paulo procuradas pela equipe recusaram a realização da pesquisa. O acesso aos trabalhadores só foi possível após apoio do Ministério Público do Trabalho, que intermediou o contato com um sindicato de Campinas e Cosmópolis.
Mesmo assim, localizar os trabalhadores exigiu percorrer longas distâncias pelos canaviais, muitas vezes sem sinal de telefone e com orientação feita por rádio.
A pesquisadora destaca que a Região Metropolitana de Campinas reúne cerca de 30 mil trabalhadores rurais em diferentes culturas agrícolas, mas afirma que esse público permanece invisível para grande parte da sociedade.
O que pode mudar
Para Beatriz, reduzir esse cenário depende de ações conjuntas entre empresas e poder público.
“A modernização da tecnologia trouxe avanços importantes para a produção das empresas, mas ela não eliminou os riscos dos trabalhadores.”
Ela defende que enfrentar esse cenário exige uma atuação conjunta entre empresas e poder público.
Entre as medidas apontadas estão o fortalecimento da medicina ocupacional, com profissionais acompanhando de perto a realidade dos canaviais; treinamentos mais frequentes sobre segurança e uso correto dos equipamentos de proteção; melhoria das condições de trabalho; ampliação da fiscalização e criação de canais para identificar precocemente casos de adoecimento físico e mental.
A pesquisadora também propõe medidas estruturais, como a redução da jornada de trabalho, para que esses profissionais tenham mais tempo para estudar, procurar atendimento médico e cuidar da própria saúde.
Para ela, investir em prevenção, educação e melhores condições de trabalho é essencial para reduzir tanto os acidentes quanto os transtornos mentais identificados pela pesquisa e dar visibilidade a uma população que, apesar de ser fundamental para a cadeia produtiva da cana-de-açúcar, ainda permanece à margem das políticas de saúde e segurança no trabalho.
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