
A Samsung responde por cerca de um terço da produção mundial de DRAM — a memória usada praticamente em todos os celulares, laptops, servidores e data centers do planeta. Junto com a rival sul-coreana SK Hynix, controla aproximadamente dois terços do mercado global de DRAM e uma fatia ainda maior de memória de alta largura de banda (HBM), os chips especializados sem os quais sistemas de inteligência artificial não funcionam. Samsung e SK Hynix são duas das apenas três empresas que produzem HBM no mundo; a terceira é a americana Micron.
Quando se fala em infraestrutura de IA, o foco costuma recair sobre as GPUs da Nvidia. Mas essas GPUs são inúteis sem os chips de memória empilhados ao lado delas, e os três complexos fabris da Samsung na Coreia do Sul estão entre os ativos mais importantes do atual boom industrial da IA. A Samsung opera 12 linhas de fabricação, emprega mais de 260 mil pessoas globalmente e planeja investir US$ 73 bilhões em capex e P&D de semicondutores só neste ano — o maior investimento anual em chips já feito por uma única empresa na história.
Por isso, o sistema deve sentir um choque quando, em 21 de maio, cerca de 45 mil trabalhadores sindicalizados da Samsung planejarem cruzar os braços por 18 dias. Se isso se concretizar, será a maior paralisação da história da indústria de semicondutores, justamente no gargalo mais crítico da cadeia de suprimentos de IA. Diferentemente de disputas trabalhistas anteriores, desta vez os “hyperscalers” de IA não devem conseguir absorver facilmente uma interrupção de oferta.
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A greve
Em setembro passado, a SK Hynix fechou acordo com seu sindicato para destinar 10% do lucro operacional anual diretamente aos funcionários como bônus de desempenho pelos próximos dez anos, além de remover tetos para as bonificações. Com base nas projeções de lucro para 2026, isso equivale a pagamentos médios de US$ 460 mil a US$ 477 mil por trabalhador neste ano, considerando os 35 mil empregados da SK Hynix, com estimativas que se aproximam de US$ 900 mil por pessoa no ano que vem. Não é algo totalmente novo para a empresa: em fevereiro, ela já havia pago bônus de participação nos lucros que, em média, chegaram a cerca de US$ 95 mil por funcionário.
Agora, os sindicatos da Samsung pedem que 15% do lucro operacional sejam destinados a um fundo de bônus, a remoção do teto atual que limita as bonificações a 50% do salário-base e um reajuste salarial de 7%. A direção respondeu com uma oferta de cerca de 13% do lucro operacional, mas apenas como pagamento único para 2026, sem compromisso com mudanças estruturais permanentes.
A pressão competitiva já se tornou um problema para a retenção de talentos da Samsung. Segundo o presidente do sindicato, Choi Seung-ho, cerca de 200 funcionários da Samsung deixaram a empresa para trabalhar na SK Hynix nos últimos quatro meses. Em 2024, a Samsung não pagou bônus de desempenho, já que a divisão de chips registrou prejuízos operacionais durante a desaceleração do mercado de memória. E embora a recuperação tenha sido impressionante — com o lucro operacional do primeiro trimestre de 2026 aumentando quase oito vezes, atingindo um recorde —, os trabalhadores não receberam parte desse ganho.
Após uma sessão de negociação de 17 horas na Comissão Nacional de Relações Trabalhistas (NLRC, na sigla em inglês) em 13 de maio terminar sem acordo, o órgão teve dificuldade em encontrar um meio-termo. A comissão chegou a propor cerca de 40 trilhões de wons (US$ 26,7 bilhões) em bônus totais, proposta rejeitada pelo sindicato. A Samsung então enviou uma carta propondo um diálogo direto adicional, e o sindicato aceitou sob a condição de que o co-CEO Jun Young-hyun apresentasse pessoalmente propostas concretas sobre os pontos-chave. Até agora, não houve acordo.
Em abril, uma paralisação de um dia antecipou o que uma greve prolongada pode provocar. Segundo relatos, a produção da fundição caiu 58% e a fabricação de memória recuou 18% durante o turno afetado. A Samsung avalia que pode haver uma paralisação completa ao longo dos 18 dias planejados de greve, com a participação de quase 45 mil sindicalizados. Numa hipótese desse tipo, estimativas do setor apontam perdas potenciais entre 30 trilhões e 100 trilhões de wons. A empresa já iniciou procedimentos de “desaceleração” (“warm-down”), reduzindo a entrada de wafers, já que interromper a fabricação de chips no meio do processo implica descartar wafers que custam US$ 20 mil cada.
O que está em jogo
Uma greve pode desacelerar a Samsung justamente quando ela tenta recuperar terreno frente à sua rival. Pela primeira vez em 33 anos, a SK Hynix ultrapassou a Samsung como maior fabricante de DRAM do mundo no primeiro trimestre do ano passado, puxada quase inteiramente por sua dominância em HBM para aplicações de IA. No trimestre seguinte, a SK Hynix detinha 62% do mercado global de HBM, enquanto a Samsung recuava para 17%, atrás até da Micron, com 21%. Os chips HBM3E da Samsung tiveram dificuldades para passar nos critérios de qualificação da Nvidia durante boa parte de 2025, período em que SK Hynix e Micron abocanharam os contratos globais mais lucrativos.
No fim de 2025, a Samsung recuperou a liderança em participação de mercado de DRAM como um todo, após começar a fornecer HBM para a Nvidia e ampliar a produção de memórias “legadas”. Seus chips HBM4, cuja produção em massa começou em fevereiro, teriam superado as expectativas iniciais, e toda a produção de HBM4 para 2026 já está vendida. Uma greve prolongada, porém, pode colocar em risco essa trajetória de recuperação.
O presidente da Samsung, Shin Je-yoon, disse estar “preocupado com a perda de liderança de mercado diante da fuga de clientes e da queda de competitividade” no caso de uma greve. O analista Jay Kwon, do JPMorgan, estimou que, se a Samsung atender integralmente às demandas do sindicato, o lucro operacional de 2026 pode sofrer impacto negativo de 7% a 12% apenas por conta do aumento de custos trabalhistas. Somando-se mais de 4 trilhões de wons em receita perdida com 18 dias de produção reduzida, o efeito total sobre o lucro operacional ficaria na faixa de 2,1 trilhões a 3,5 trilhões de wons no cenário-base do banco, com resultados bem piores se a greve se ampliar ou se a retomada for lenta.
O mercado de memória está apertado, e um dos melhores exemplos disso foi a negociação entre Samsung e Apple no início deste ano. De acordo com o veículo coreano Dealsite, a Apple fez reuniões de emergência com a divisão de semicondutores da Samsung para garantir abastecimento de memória para a produção do iPhone 17. A Samsung planejava pedir um reajuste de preços de 60%. Em vez disso, como tática de negociação, abriu com uma exigência de 100% — o dobro — e a Apple aceitou imediatamente.
Um “dividendo” para os cidadãos
Em 12 de maio, o chefe de políticas da Presidência, Kim Yong-beom, publicou no Facebook que a Coreia do Sul deveria pagar aos cidadãos um “dividendo” do boom da IA, argumentando que os ganhos foram construídos sobre uma base industrial acumulada por toda a nação ao longo de meio século. Ele comparou explicitamente a ideia ao Fundo Permanente do Alasca, que distribui aos moradores parte das receitas do petróleo.
No mesmo dia, o índice composto da Bolsa de Seul (KOSPI) chegou a cair 5,1% intradiário, apagando mais de US$ 300 bilhões em valor de mercado, à medida que investidores interpretaram inicialmente a fala como um novo regime tributário voltado contra Samsung e SK Hynix — que juntas respondem por quase metade do valor de mercado total do índice. Kim se apressou em esclarecer que se referia à redistribuição de receitas tributárias “excedentes” já geradas pelo boom, e não à criação de novos impostos. A Presidência reforçou que as declarações refletiam opinião pessoal de Kim, não uma política oficial do governo.
Investidores estrangeiros venderam 5,6 trilhões de wons em ações do KOSPI no dia das declarações sobre o “dividendo” aos cidadãos. Já os investidores de varejo coreanos aproveitaram a queda e compraram 6,7 trilhões de wons. O KOSPI, que havia tocado momentaneamente 7.400 pontos, reverteu a direção e fechou no dia seguinte em máxima histórica acima de 7.800.
Juntas, Samsung e SK Hynix devem registrar cerca de 500 trilhões de wons em lucro operacional combinado em 2026, e só a conta de imposto de renda corporativo das duas pode superar 100 trilhões de wons.
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