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Dívida recorde das nações mais ricas do mundo ameaça o crescimento global

por SampaNews 29 de janeiro de 2026
29 de janeiro de 2026
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LONDRES — Por décadas, dívidas sufocantes espalharam miséria nas nações mais pobres e de renda mais baixa do mundo. Mas a ameaça de endividamento insustentável que agora paira sobre a economia global emana de alguns dos países mais ricos.

Dívidas recordes ou próximas de recordes nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na França, na Itália e no Japão ameaçam travar o crescimento e semear instabilidade financeira em todo o mundo.

Leia também: Os bancos centrais estão permitindo déficits governamentais insustentáveis?

Internamente, isso significa que os países precisam fazer pagamentos de juros com recursos que, de outra forma, poderiam ter sido destinados a saúde, estradas, habitação pública, avanços tecnológicos ou educação.

O apetite cada vez maior por mais empréstimos também elevou os custos de financiamento, abocanhando uma fatia maior do dinheiro dos contribuintes. Isso também pode elevar as taxas de empréstimos para empresas, consumidores e compra de veículos, além de hipotecas e cartões de crédito; e pressionar a inflação.

E talvez o mais preocupante: a dívida acumulada — inflada mesmo quando a economia está relativamente saudável e as taxas de desemprego são baixas, como nos Estados Unidos — dá aos governos menos espaço para reagir quando as coisas pioram.

“Você quer poder gastar muito e gastar rápido quando precisa”, disse Kenneth Rogoff, professor de economia da Universidade Harvard.

O que acontece se houver uma crise financeira, uma pandemia ou uma guerra? E se surgir uma necessidade repentina de mais gastos com serviços sociais e auxílio-desemprego por causa de mudanças provocadas pela inteligência artificial ou por desastres relacionados ao clima?

Tomar grandes volumes de dinheiro emprestado rapidamente se torna mais difícil — e caro — quando a dívida nacional já está nas alturas.

No Fórum Econômico Mundial em Davos, na semana passada, o presidente Donald Trump ocupou o centro do palco, mas, nos bastidores, ministros da Fazenda se mostravam apreensivos com sua capacidade de financiar uma lista crescente de prioridades, de forças armadas reforçadas a redes elétricas modernizadas.

O endividamento do governo quando a economia está forte, e quando os juros são baixos, pode sustentar o crescimento e, em tempos de aperto, ajudar a reforçar os gastos.

O ciclo de empréstimos turbinados começou com a crise financeira e a recessão de 2008, quando governos correram para prestar assistência a famílias em dificuldade e a arrecadação de impostos caiu.

Programas de alívio durante a pandemia de covid-19, quando os negócios fecharam e os custos de saúde dispararam, elevaram os níveis de dívida mais um degrau, à medida que as taxas de juros subiam e superavam o crescimento.

Mas os níveis de dívida não recuaram. E agora, em seis das ricas nações do G7, a dívida nacional é igual ou superior à produção econômica anual do país, segundo o Fundo Monetário Internacional.

Cada vez mais países estão sendo pressionados por fatores demográficos e crescimento lento. Na União Europeia, na Grã-Bretanha e no Japão, populações envelhecidas elevaram os gastos do governo com saúde e previdência ao mesmo tempo em que o número de trabalhadores que fornecem a arrecadação necessária encolheu.

A necessidade de reconstruir a infraestrutura e investir em tecnologia avançada em muitas regiões também é urgente.

Um estudo de um ano solicitado pelo braço executivo da União Europeia concluiu que o bloco de 27 membros precisaria gastar mais US$ 900 bilhões em áreas como inteligência artificial, uma rede energética compartilhada, supercomputação e treinamento avançado da força de trabalho para competir de forma eficaz.

Na Grã-Bretanha, serão necessários pelo menos 300 bilhões de libras (US$ 410 bilhões) para modernizar a infraestrutura ao longo da próxima década, segundo o Future Governance Forum, um think tank de Londres. Bilhões a mais serão necessários para revitalizar o cambaleante Serviço Nacional de Saúde.

Esforços para cortar gastos públicos na Itália, onde a dívida equivale a 138% do produto interno bruto, por meio de reduções em saúde, educação e serviços públicos, ou na França, com o aumento da idade de aposentadoria, desencadearam protestos veementes.

A França, que está politicamente paralisada há meses em torno do orçamento, viu sua classificação de crédito soberano ser rebaixada no outono passado, levantando dúvidas sobre a estabilidade financeira do país.

Enquanto isso, o mundo se tornou mais perigoso. As tensões entre China e Estados Unidos se intensificaram. A Europa é ameaçada por uma Rússia cada vez mais agressiva e por um presidente americano beligerante.

A maioria dos países respondeu apoiando significativamente a Ucrânia com bilhões de dólares e aumentando os gastos militares. Membros da aliança do Atlântico Norte concordaram em destinar, no futuro, 5% de seu produto interno bruto à defesa. O Japão também está ampliando substancialmente seu orçamento militar.

A dívida de Tóquio já é estarrecedora. Ela equivale a mais do que o dobro da produção econômica anual do país.

A perspectiva de um buraco ainda mais profundo cresceu na semana passada, quando a primeira-ministra Sanae Takaichi pediu subitamente a convocação de eleições antecipadas. Tanto os Democratas Liberais de Takaichi quanto os partidos de oposição prometem aumentar os gastos e reduzir impostos.

O anúncio de Takaichi sacudiu os investidores. Detentores de títulos começaram rapidamente a vender, e os rendimentos dos títulos — os juros que os governos pagam quando tomam dinheiro emprestado — dispararam.

A inquietação se espalhou para outros mercados financeiros. Investidores japoneses são historicamente os maiores detentores estrangeiros de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Mas retornos mais altos dos títulos japoneses podem levá-los a reduzir a compra de dívida americana para aproveitar rendimentos maiores em casa.

Na semana passada, o rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos atingiu seu nível mais alto desde agosto.

A turbulência acendeu alertas entre alguns investidores. Ken Griffin, CEO do gigante de hedge funds Citadel, caracterizou a liquidação como um “aviso explícito” a outras nações altamente endividadas, como os Estados Unidos, observando que nem mesmo a maior e mais forte economia do mundo é imune aos riscos.

A confiança na solidez do crédito dos Estados Unidos vacilou brevemente em abril, quando a ofensiva de idas e vindas tarifárias de Trump fez os rendimentos dos títulos do Tesouro americano dispararem de repente.

Os títulos americanos continuam sendo um porto seguro em um mundo arriscado. Ainda assim, a condução errática da política econômica pelo presidente e as guerras comerciais são uma das razões pelas quais a dívida atual é diferente de qualquer outro episódio na história americana, disse William J. Gale, autor de “Fiscal Therapy: Curing America’s Debt Addiction and Investing in the Future” (Terapia fiscal: curando o vício dos Estados Unidos em dívida e investindo no futuro).

A dívida nacional dos Estados Unidos agora é de US$ 38 trilhões, cerca de 125% do tamanho da economia americana.

Trump tem agido como Max Bialystock em “Os produtores”, prometendo pagamentos a agricultores, contribuintes e detentores de títulos com um cofre limitado. Analistas esperam que as eleições de meio de mandato levem a Casa Branca a gastar ainda mais livremente.

Neste mês, Trump prometeu aumentar ainda mais os gastos militares para US$ 1,5 trilhão no próximo ano fiscal, o que o Comitê para um Orçamento Federal Responsável calculou que acrescentaria US$ 5,8 trilhões à dívida nacional, incluindo juros, ao longo de 10 anos.

Os pagamentos líquidos de juros triplicaram nos últimos cinco anos, alcançando cerca de US$ 1 trilhão. Eles agora consomem 15% dos gastos dos Estados Unidos, a segunda maior despesa depois da Previdência Social.

Gale, que recentemente foi coautor de um estudo sobre a dívida dos Estados Unidos, alertou que a perspectiva contínua de crescimento da dívida ameaça o papel do país como líder econômico e mina a confiança dos investidores nos títulos do Tesouro e no dólar.

Isso também aumenta o fardo para os filhos e netos desta geração. Como explicou Gale, “quanto mais você consome agora, menos pode consumir depois”.

c.2026 The New York Times Company

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